quinta-feira, 10 de março de 2011

"Maus", como gatos, ratos, nazis e judeus

Por Pepe Flores

Os livros sobre história de sobrevivência em campos de concentração deveriam contar como um subgênero próprio. Relatos como "O diário de Anne Frank" ou "O homem em busca do sentido" são clássicos que, com frequência, são passados nas escolas para que o estudante tenha uma aproximação com a época do Holocausto. Dentro desses testemunhais, chega às mãos "Maus: relato de um sobrevivente", de Art Spiegelman, considerada uma das grandes novelas gráficas da história contemporânea, laureada em 1992 com o Prêmio Pulitzer.

Vladek Spiegelman, um judeu polonês que sofreu as inclemências do regime nazi, narra sua história através do desenho de seu filho, Art. Para mostrar o caráter antitético da relação entre alemães e judeus, o desenhista se vale de uma metáfora muito simples: os nazis são gatos, os judeus são ratos. Uma relação de depreciação que, nas páginas do livro, converte-se em um símile perfeito da caça sistemática de judeus durante o regime nazi. O zoológico de Spielgman também inclui a porcos poloneses e cachorros estadunidenses, poderosas alegorias de como o reino animal simboliza o papel das nacionalidades na guerra. Também destaca o detalhe do uso de máscara, com um porco disfarçado de gato, ou de combinações, como uns curiosos ratos tigrados, filhos de judeus e alemães.

Contudo, a virtude de Art em "Maus" não só é saber recuperar a história do Holocausto, senão nos mostrar, graças aos saltos narrativos característicos dos quadrinhos, as causas e as consequências que teve tal acontecimento na vida do sobrevivente. Assim, atestamos como a educação que recebeu, por nascer em uma casa abastada, serviu a nosso personagem para conseguir a amizade de um oficial nazi. Do mesmo modo, notamos como um envelhecido Vladek se nega a desperdiçar até um grão de café, depois de sofrer na própria carne as garras da fome.

Não obstante, o conflito mais profundo não ocorre entre gatos e ratos, senão entre Art e Vladek. Produtos de épocas e conjunturas diferentes, chocam-se constantemente em suas visões de mundo. De certo modo, a sobrevivência de Vladek é uma louça bastante pesada para Art, que na escritura da novela encontra uma reivindicação com si mesmo e seu pai, alegoria inconsciente do sentir de uma geração judia do pós-guerra.

"Maus" é uma novela multifacetada. Pode-se ler como testemunho, história de vida, documentário, ou em seu nível mais profundo, como um tributo de um filho a seu pai. Há que se agradecer a Spiegelman a introdução de quadros desnecessários na história corrente, mas indispensáveis para compreender a relação entre Vladek e seu descendente. Através dos traços, pode-se (re)viver um Holocausto que vai mais além de um relato sobrevivência ou o lugar comum do espírito humano. "Maus" não é uma crônica histórica:** é uma crônica de como deve se contar, sentir e respeitar a história**, seja a nossa ou a alheia. Porque ao final, saber como mantê-la viva - em sua parte humana, não a estatística — converte-se no bálsamo que cura feridas.


Fonte: ALT1040
http://alt1040.com/2011/03/geekoteca-maus-como-gatos-ratones-nazis-y-judios
Tradução: Roberto Lucena

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