sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Judeus na África do Sul (no regime de Apartheid)

Em homenagem à figura de Nelson Mandela que faleceu ontem (18.07.1918* - 05.12.2013+), e teve um forte impacto em muita gente no Brasil (e no mundo) sobre a questão do combate ao racismo pelo que representava aquele regime de Apartheid da África do Sul, segue o texto abaixo que saiu na revista alemã Deutsche Welle com uma história sobre o Apartheid e a participação de judeus fugidos da guerra na Europa (e seus descendentes) na luta antiapartheid na África do Sul para marcar a data.
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Judeus no estado do Apartheid

Nelson Mandela escreveu uma vez: "Encontrei judeus mais abertos que a maioria dos brancos em questões de raça e política, talvez porque eles mesmos tenham sido historicamente vítimas de preconceitos".

Milton Shain, professor de história e diretor do Centro Kaplan de Estudos Judeus da Universidade de Cidade do Cabo, confirma as palavras de Nelson Mandela, histórico defensor dos direitos cívicos e primeiro presidente negro da África do Sul: houve muitos judeus que fugiram da Alemanha nazi que se comprometeram politicamente com o movimento antiapartheid. E isto, apesar de que os próprios refugiados não foram recebidos precisamente com os braços abertos em sua nova terra. Milton Shain explica o contexto histórico:

"Não são bem-vindos"

"Pela metade dos anos trinta, a situação era muito tensa. O barco de refugiados 'Stuttgart' chegou ao porto em final de outubro de 1936 e foi recebido com violentos protestos. Também houve destacados acadêmicos que se manifestaram contra a imigração de judeus alemães. Entre eles estava o chamado arquiteto do Apartheid, o professor Hendrik Verwoerd, que mais tarde se tornaria primeiro-ministro. Estas figuras davam voz a um movimento da direita radical que havia começado na África do Sul há alguns anos. Os chamados camisas cinzas e negras imitavam os nazis e outros fascistas europeus e se opunham veementemente à imigração contínua de judeus. Esta gente advogava a adoção de medidas para cortar a presença judia e suas possibilidades de sobrevivência no país. Contudo, suas ideias não eram aceitas majoritariamente mas formavam uma força importante que crescia de forma alarmante.

A corrente de pensamento político principal que a representava, não obstante, um político como Daniel Malan, iria se converter no primeiro-ministro do regime do Apartheid em 1948. Malan argumentava já nos anos trinta que os judeus podiam ser fonte de conflitos se se concentrassem por demais em um país, pelo que, restringindo sua entrada, ele atuava no final das contas em seu próprio interesse. A África do Sul acolheu aproximadamente 3.500 judeus alemães até que, no começo de 1937, foi aprovada a chamada 'Aliens Act', que fechava as portas a esses imigrantes.

Judeus e Apartheid

Nesse contexto há que considerar a questão das atividades políticas no sistema de Apartheid. Os imigrantes judeus alemães, vítimas do racismo e antissemitismo clássicos, chegaram a um país com uma sociedade colonial, exploradora e segregada racialmente. Os judeus brancos, que ainda eram vítimas na Europa, converteram-se de repente em 'beneficiários' dessa estrutura hierárquica baseada na raça. Isto recaía numa enorme contradição, a de que muitos, certamente, não eram conscientes. Muitos refugiados eram jovens e não compreendia com frequência as circunstâncias políticas do país. Outros já tinham suficiente com o que se preocupar na África do Sul e encontrar trabalho e casa. Naturalmente, a maior parte da comunidade judia vivia como os anglo-falantes brancos. Apesar de tudo, também houve muitos judeus imigrantes que se comprometeram com a luta antiapartheid.

Vamos dar uma olhada atrás e recordarmos o contexto histórico de então. Estava-se produzindo, por exemplo, a exterminação dos judeus na Lituânia: mais de 90 por cento foram assassinados na Segunda Guerra Mundial. A comunidade judia da África do Sul procedia em sua maior parte da Lituânia, pelo que havia uma relação muito estreita com esses acontecimentos. Os litvaks (como os judeus lituanos se chamam a si mesmos) haviam emigrado antes de que se começasse a fechar as fronteiras. Mais tarde, também chegaram à Cidade do Cabo vítimas da perseguição que haviam conseguido sobreviver. Provavelmente era esperar demais que essas pessoas perseguidas e traumatizadas se manifestassem com voz ativa contra o Apartheid.

Ativismo judeu

Apesar de tudo, a pressão social se radicalizava cada vez mais. Uma nova geração de jovens judeus bem formados exigiam mudanças. Sabiam que no período nazi havia existido simpatizantes naquele país e não queriam sê-los também na África do Sul. Naturalmente, também houve judeus de extrema-esquerda que atacaram frontalmente o regime de Apartheid desde o primeiro dia. Esses, contudo, não estavam integrados à comunidade judaica. Entre eles havia nomes como Ruth First, Joe Slovo e Ronnie Kasrils. No processo de Rivônia, que levou à prisão Nelson Mandela, havia 15 acusados; os cinco brancos eram judeus.

Em resumo, pode se dizer que o ativismo judeu contra o Apartheid teve bastante peso. Em todo caso, foi muito mais importante que o de outros grupos minoritários. Não obstante, muitos membros da comunidade judaica, sobretudo aqueles mais jovens, manifestaram às vezes uma inquietude crítica ante o passado".

Autor: Ludger Schadomsky
Editora: Claudia Herrea

Fonte: Deutsche Welle (Alemanha, edição em espanhol)
http://www.dw.de/jud%C3%ADos-en-el-estado-del-apartheid/a-16585152
Tradução: Roberto Lucena

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