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terça-feira, 8 de outubro de 2013

O exército de mulheres de Hitler (livro)

Um livro documenta a participação ativa e frequentemente entusiasta das alemãs no maquinário assassino do regime nazi
07.10.13 - 00:57 - ANTONIO PANIAGUA | MADRID.
Erna Petri matou seis garotos judias com entre 6 e 12 anos com disparos na nuca na Polônia
A maioria das nazis levaram uma vida
normal uma vez acabada a guerra. /E. C.
Durante o Terceiro Reich as mulheres não se limitaram a servir como conforto para os soldados alemães. Seu papel no maquinário de destruição de Hitler não é muito menos anedótico. Algumas delas empunharam pistolas para aniquilar judeus. A fronteira entre o lar e a frente de batalha era mais que difusa. Consentiram com o genocídio e foram parte ativa do extermínio.

A historiadora estadunidense Wendy Lower revela, sem pôr panos quentes nas atrocidades, a complexidade de grande parte da população feminina nos crimes dos nazis e sua cooperação na hora de enviar às câmaras de gás jovens "racialmente degenerados". No livro 'Arpías de Hitler' (Harpias de Hitler, tradução livre do título em espanhol, título em inglês: Hitler's Furies: German Women in the Nazi Killing Fields (Crítica), a pesquisadora do Holocausto sublinha que as primeiras matanças massivas foram protagonizadas pelas enfermeiras nos hospitais assassinando crianças por inanição (fome), com drogas ou injeções letais.

Durante a guerra, as alemãs romperam o cerco que as confinava a sustentar lares sem pai, granjas e negócios familiares. Pouco a pouco sua presença foi mais além dos trabalhos administrativos e trabalhos agrícolas. À medida que a engrenagem do terror ia se estendendo, foram dados as mulheres trabalhos de vigilância nos campos de concentração. Nos territórios do Leste do Terceiro Reich, onde foram deportados um número sem-fim de judeus para ser gaseados e onde ocorreram os crimes mais execráveis, as alemãs encontraram novas ocupações. "Para as jovens ambiciosas, as possibilidades de ascensão social se multiplicavam com a emergência do novo império nazi", afirma Lower.

Parteiras infanticidas

Obviamente que não se pode fazer generalizações. Contudo, a historiadora maneja um argumento irrebatível: um terço da população feminina, ou seja, treze milhões de mulheres, militaram na organização do Partido Nazi. Por acréscimo, em fins da guerra, uma décima parte do pessoal dos campos de concentração era formado por mulheres. Ao menos 35.000 delas foram instruídas para ser guardas de campos da morte, sobretudo em Ravensbrück, de onde foram destinadas a outros como Stutthof, Auschwitz-Birkenau e Majdanek.

Hitler havia proclamado que o lugar da mulher se encontrava no lar e também no movimento. Arguia que uma mãe de cinco filhos sãos e bem educados fazia mais pelo regime que uma advogada. Não é estranho que nessa época o ofício de parteira gozou de um prestígio e auge até então desconhecidos.

Não menos importante era a profissão de enfermeira, curiosamente a ocupação mais letal com diferencia. Os barbitúricos, a morfina e a agulha hipodérmica foram postas a serviço da eugenia, par a desgraça de crianças com malformações e adolescentes com taras. O programa de 'eutanásia' do Reich empregou as parteiras e o pessoal sanitário feminino. "Com o tempo, essas profissionais chegariam a matar mais de duzentas mil pessoas na Alemanha, Áustria e nos territórios fronteiriços com a Polônia ocupada e anexada ao Reich, assim como na Tchecoslováquia", aponta Lower.

Em que pese a sua implicação no sistema, a maioria das mulheres que participaram do Holocausto seguiram tranquilamente com suas vidas uma vez acabada a guerra. Uma das poucas que desfrutou do cumprimento de seu caso foi Erna Petri. Esta mulher, casada com um alto oficial da SS, liquidou seis garotos judeus entre seis e doze anos com disparos na nuca na Polônia e foi condenada a prisão perpétua. Nem reabilitada e nem indultada, ela saiu da prisão em 1992 por motivos de saúde.

Depois da guerra, a atitude que adotaram as mulheres foi o silêncio, fruto da dor e do medo. Contudo, as cúmplices do nazismo não podiam invocar ignorância dos acontecimentos. A proporção de mulheres que chegaram a trabalhas em escritórios da Gestapo em Viena e Berlim chegou a 40% em fins da guerra. Poucas mulheres sentaram no banco dos réus. Há exceções como a doutora Herta Oberheuser, que mesmo condenada a 22 anos por seus cruéis experimentos médicos, cumpriu só sete anos e se reincorporou à medicina como pediatra.

Fonte: El Correo
http://www.elcorreo.com/alava/v/20131007/cultura/ejercito-mujeres-hitler-20131007.html
Tradução: Roberto Lucena

Ver a outra resenha do livro:
Enfermeiras de dia, nazis e assassinas à noite (livro de Wendy Lower)

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Corporações e cooperação com os nazistas

Corporações e cooperação com os nazis

Pergunta:

Prezado Sr. / Sra. Estou trabalhando agora em um ensaio de história com o tema "Indústria e organizações alemães (Daimler Benz, Siemens, Deutsche Bank, Krupps, Volkswagen ...) [German Industry and organisations (Daimler Benz, Siemens, Deutsche Bank, Krupps, Volkswagen...)], sua cooperação, seu trabalho e sua influência sobre o partido nazista, ou apenas o contrário. Tenho grande dificuldade em encontrar informações sobre esse assunto. Muito obrigado pelo seu tempo e ajuda.

Harry W. Mazal OBE responde:

Sou uma das pessoas que responde às perguntas enviadas ao nosso projeto. É possível que outros colegas meus também respondam.

Sua pergunta é muito complexa. A maioria das grandes empresas na Alemanha ajudaram os nazistas em sua busca por poder, e muitas colaboraram ainda mais com eles quando os nazistas conseguiram o controle total da Alemanha.

Começando com o grupo Krupp:

Visite as seguintes páginas de nosso site:

http://www.holocaust-history.org/works/imt/01/htm/t134.htm

http://www.holocaust-history.org/works/imt/01/htm/t135.htm

http://www.holocaust-history.org/works/imt/01/htm/t136.htm

http://www.holocaust-history.org/works/imt/01/htm/t137.htm

http://www.holocaust-history.org/works/imt/01/htm/t138.htm

e você vai obter algumas informações relevantes sobre a influência do grupo Krupp na Alemanha nazista.

Daimler-Benz:

Um livro foi publicado descreve o seu papel no regime nazi:

Daimler-Benz in the Third Reich
Neil Gregor
c. 1998, Yale University Press (New Haven and London)
ISBN 0-300-07243-0

O trecho abaixo foi tirado da sobrecapa:
[...] Gregor primeiro traça a história da empresa Daimler-Benz desde a sua formação, em 1926, ao longo dos anos de crise da depressão, e examina como as oportunidades oferecidas pelo rearmamento nazista na década de 1930 a levou a uma rápida expansão e um aumento dos seus lucros. O seu foco principal, no entanto, é na própria guerra. Aqui, ele demonstra que a empresa conseguiu explorar as demandas da economia de guerra ao mesmo tempo em que situava suas operações mais vantajosas para a retomada da atividade comercial em tempos de paz. De fato, um argumento central do livro é de que, apesar dos bombardeios dos Aliados, a Daimler-Benz AG emergiu da guerra em boa forma e com uma estratégia operacional clara, o seu inventário em grande parte intacto e o núcleo de suas linhas de produção voltado para o mercado em tempos de paz.

O livro revela que o interesse próprio e a auto-preservação foram os motivos principais por trás da aquiescência da empresa na exploração brutal do trabalho escravo - de civis, prisioneiros de guerra, de judeus e outras vítimas dos campos de concentração. Gregor argumenta que a capacidade da empresa para proteger seus interesses durante a guerra e gerir a transição para a paz baseava-se no conluio da barbárie racial do regime nazista, e que a empresa intensificou ativamente o interesse sobre o sofrimento das vítimas do Reich.
Volkswagen:

Existem vários livros sobre o papel da Volkswagen no Terceiro Reich. Vou citar alguns trechos breves destes:

Volkswagen Beetle: The Rise from the Ashes of War
Simon Parkinson,
c. 1996, Veloce Publishing PLC (Dorchester)
ISBN 1-874105-47-2
O Volkswagen Beetle (Fusca) surgiu como parte da política econômica do partido nazista conhecida como * Motoriserung *, apesar de sua origem anteceder a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha: o carro era a ideia do versátil designer (desenhista) austríaco Ferdinand Porsche.

[...]

Apoiar e estimular a embrionária Volkswagen veio em seguida, e não de um industrial, mas de um político. Adolf Hitler havia chegado ao poder como chanceler alemão em 30 de janeiro de 1933 ...

[...]

Porsche foi instruído para vir a Berlim em Maio de 1934 pra se reunir com Hitler e discutir o projeto volksauto. Este famoso encontro ocorreu no Hotel Kaiserhof.

[...]

A nova empresa, com a DAF [Deutsche Arbeits Front - uma organização nazista comandada pelo Dr. Robert Ley], apoiou a decisão de construir uma fábrica totalmente nova ... perto da aldeia de Fallersleben ... No Dia da Ascensão (26 de Maio) em 1938, em uma grande cerimônia, a pedra fundamental da nova fábrica foi colocada por Adolf Hitler.

[...]

(Durante a guerra) ... (o) número de trabalhadores estrangeiros de outras nacionalidades aumentou de forma constante. Estes trabalhadores estrangeiros estavam em três categorias, como segue abaixo:

1. *Auslandische Ziviarbeiter*: os trabalhadores estrangeiros que vieram para trabalhar em resposta a investimentos feitos em países ocupados. Mais tarde, muitos desses trabalhadores, que vieram de livre e espontânea vontade, foram obrigados a ficar. ...

2. *Kriegsgefangene*: prisioneiros de guerra, a maioria russos e poloneses.

3. *KZ Haftlinge*: O trabalho forçado de prisioneiros de campos de concentração. Havia um campo satélite de Neuengamme perto à Fallersleben. Alguns presos foram mantidos no barracão do pavilhão No. 1 na fábrica.

Os trabalhadores estrangeiros que chegaram ao KdF Stadt com os seguintes números:

1938: 3000 trabalhadores italianos na construção civil, muitos dos quais depois não foram autorizados a partir.
1940: 1500 deportados poloneses
1941: 850 prisioneiros de guerra russos
1942: 4000 trabalhadores deportados do leste. Os chamados *Ostarbeiter*, que usava um crachá com a letra 'O'.
1943: 1000 militares internos italianos, 1500 trabalhadores forçados franceses ... e 650 mulheres do campo de concentração de Neuengamme que foram mantidas na adega do Pavilhão 1 da fábrica.
1944: 300 belgas, 200 holandeses.

A composição (mistura) de trabalhadores alemães e estrangeiros mudou com a guerra em andamento:

1940: 80% alemães/20% estrangeiros
1941: 60% alemães/40% estrangeiros
1942: 31% alemães/69% estrangeiros
1943 27% alemães/73% estrangeiros
1944 29% alemães/71% estrangeiros
Espero que esta informação ajude a você começar seu projeto de pesquisa. Como você foi capaz de observar a partir da leitura acima, há uma enorme quantidade de informação sobre o assunto disponível em qualquer boa biblioteca.

Atenciosamente,

Retornar à lista de perguntas (FAQ)

Última modificação: 4 de setembro de 1999
Contato técnico/administrativo: webmaster@holocaust-history.org

Fonte: Holocaust History Project
http://web.archive.org/web/20130428094653/http://holocaust-history.org/questions/corporations.shtml
Tradução: Roberto Lucena

Ver também:
Trabalho escravo/forçado no nazismo - bibliografia

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Trabalho escravo/forçado no nazismo - bibliografia

O William perguntou aqui sobre material a respeito de trabalho escravo/forçado empregado pelas empresas alemães no período do nazismo. Há alguns pdfs de livros sobre o tema pela web. Em todo caso, segue abaixo links com a bibliografia sobre o tema, algumas informações e indicações de alguns livros. Não consta (exceto se houver citação nas referências nos links) livros em alemão.

Sobre o conjunto de empresas alemãs que empregaram mão de obra escrava durante o nazismo segue o link com uma lista grande delas (citei lista grande pois não vi o nome de algumas corporações como a Volkswagen na lista):
1. German Companies Participating in the Forced/Slave Labor Compensation Fund
2. German Firms That Used Slave or Forced Labor During the Nazi Era

Aqui abaixo tem uma lista de livros (referências) no verbete em inglês sobre trabalho escravo no nazismo:
Forced labour under German rule during World War II

Bibliografia sobre o assunto do site do USHMM (Museu Memorial do Holocausto):
Forced Labor (Forced Labor and Big Business e outras seções)

Texto interessante de Florian Ruhs sobre o trabalho forçado de eslovenos pelo III Reich:
Foreign Workers in the Second World War. The Ordeal of Slovenians in Germany

Site em inglês sobre o trabalho escravo no nazismo, 1939-1945:
Nazi Forced Labor – Background Information

Christopher R. Browning é historiador de renome sobre Holocausto e nazismo e tem livro só sobre a questão do trabalho escravo no nazismo:
1. Remembering Survival: Inside a Nazi Slave-Labor Camp
2. Nazi Policy, Jewish Workers, German Killers

Aqui tem um PDF de um simpósio sobre o assunto no USHMM com o C. Browning e vários outros historiadores só tratando do assunto, tem a lista de referências (livros) ao fim de cada capítulo, 134 páginas:
Forced and Slave Labor in Nazi-Dominated Europe (Symposium Presentations)

Em português, tradução de texto do Holocaust History Project (site) sobre o tema:
Corporações e cooperação com os nazistas

Artido do Le Monde (em inglês), de Frederic F Clairmont, sobre o trabalho escravo na Volkswagen:
Volkswagen’s history of forced labour

Trabalho escravo no programa espacial alemão da era nazista:
1. Andre Sellier. A History of the Dora Camp: The Untold Story of the Nazi Slave Labor Camp That Secretly Manufactured V-2 Rockets
2. Dora and the V2. Slave labor in the space age

Uso de trabalho escravo pela Shell (holandesa) e pela I.G. Farben (alemã) no nazismo, texto de John Donovan, em seis partes (tem todos os links no texto, essa é a sexta parte):
Royal Dutch Shell and the Nazi Part 6: I.G. Farben, Royal Dutch Shell and Nazi slave labor

Trabalho escravo no nazismo por países, site em inglês (referências do texto no final do mesmo):
Forced Labor by Jews under National Socialism

Um dos cabeças do emprego de mão-de-obra escrava no leste foi este aqui:
Odilo Globocnik, forgotten co-author of the Holocaust (by Joseph Poprzeczny)

Tem uma lista bibliográfica nesse artigo:
Exploiting the enemy: The economic contribution of prisoner of war labour to Nazi Germany during WWII (by Johann Custodis)

A questão da Ford e da GM dos EUA com o trabalho escravo no nazismo:
Ford and GM Scrutinized for Alleged Nazi Collaboration (By Michael Dobbs)

A Ford lucrou com trabalho escravo na Alemanha nazi
Ford 'profited from Nazi slave labour' (BBC)

Banco Suíço (UBS) explorou mão-de-obra escrava do nazismo
Swiss bank exploited Nazi slaves (BBC)

Trabalho escravo na BMW, site:
Munich-Allach: Working for BMW

Lista de firmas alemãs famosas que usaram trabalho escravo, Krupp, Bayer, Volkswagen, Daimler-Chrysler (Daimler-Benz), Opel, Hugo Boss (contém links de textos na matéria):
The Awful Truth, Sal vs BMW

Hugo Boss sobre o uso de trabalho escravo no nazismo:
1. 'Hitler's Tailor' Hugo Boss apologises for using slave labour to make Nazi uniforms
2. Hugo Boss comes clean on Nazi past

Lista de livros:

Livro: The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy (link scribd)
Autor: Adam Tooze

Livro: The Architecture of Oppression: The SS, Forced Labor and the Nazi Monumental Building Economy
Autor: Paul B. Jaskot

Livro: Business of Genocide: The SS, Slave Labor, and the Concentration Camps
Autor: Michael Thad Allen

Livro: Hitler's Slave Lords: The Business of Forced Labour in Occupied Europe
Autor: Michael Thad Allen

Livro: Less Than Slaves: Jewish Forced Labor and the Quest for Compensation
Autor: Benjamin B. Ferencz

Livro: Odilo Globocnik, Hitler's Man in the East
Autor: Joseph Poprzeczny

Livro: Jewish forced labor under the Nazis: economic needs and racial aims, 1938-1944 (link do H-net)
Autor: Wolf Gruner

Livro: Hitler's British Slaves
Autor: Sean Longden

Livro: Architects of Annihilation: Auschwitz and the Logic of Destruction
Autor: Götz Aly, Susanne Heim

Livro: Hitler's Foreign Workers: Enforced Foreign Labor in Germany Under the Third Reich
Autor: Ulrich Herbert

Atualização 1: 12.10.2013

Livro: Nazi Steel: Friedrich Flick and German Expansion in Western Europe, 1940-1944
Autor: Marcus O. Jones

Livro: Creating the Nazi Marketplace: Commerce and Consumption in the Third Reich
Autor: S. Jonathan Wiesen

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A relação problemática da Ucrânia com o Holocausto. Ambos: vítimas e perpetradores - Parte 01

Publicado em balticworlds.com em 1 de agosto de 2011.

Ilustração: Katrin Stenmark
Por várias razões, a relação da Ucrânia com o Holocausto e os judeus tem sido ofuscada pela situação similar, mas mais impressionante na Alemanha e na Polônia. A questão merece atenção, no entanto, porque ela ainda é um dilema moral e político sério na Ucrânia, intimamente relacionada com esforço do país para a construção de uma identidade nacional. O dilema é claramente refletido na historiografia ucraniana e na política atual, apesar de museus e monumentos públicos no oeste da Ucrânia também testemunham os vestígios do Holocausto - ou à falta dele.

Estas palavras são, em parte, baseadas na pesquisa histórica ocidental sobre o Holocausto na Ucrânia e como ela tem sido tratada [01], e em parte - principalmente - em pesquisa material reunida durante duas visitas à Kiev e Lviv em 2007 e 2010. [02]

Cenário

De acordo com algumas estimativas, mais de 900.000 judeus morreram na Ucrânia Soviética entre 1941 e 1944 como resultado das políticas genocidas da Alemanha nazista e de seus capangas ucranianos. Este valor representa, na verdade, o maior número de vítimas em qualquer outro país além da Polônia, onde o número de vítimas é estimado em 3,3 milhões. [03] vítimas do Holocausto incluem os judeus da Galícia Oriental, que a União Soviética pegou da Polônia em 1939 no Pacto Molotov-Ribbentrop. Ela era composta por uma minoria relativamente grande (em 1931, 639.000, ou 9,3 por cento), e o antissemitismo era bem disseminado. [04] Durante o período pós-guerra, especialmente depois de 1991, muitos dos judeus restantes emigraram, principalmente para Israel. De acordo com o censo de 2001, apenas cerca de 80.000 judeus (0,2% da população total) permaneceu pela Ucrânia, e apenas 12.000-15.000 no que hoje é agora a Ucrânia ocidental. [05] A rica cultura, que ao longo dos séculos moldou partes da Ucrânia e da Polônia, desapareceu quase totalmente ou foi esquecida.

A historiografia ucraniana sobre o Holocausto

Como Johan Dietsch demonstrou numa dissertação em 2006 [06], a história oficial da Ucrânia soviética do pós-guerra não era particularmente interessada nos judeus como um grupo étnico ou no terrível destino que eles sofreram durante a guerra. Em vez disso, os judeus restantes foram submetidos às campanhas soviéticas contra os "sionistas" e "cosmopolitas" que foram considerados aliados dos imperialistas ocidentais, e da historiografia sobre a guerra dirigida principalmente à vitória do povo soviético unido, sobre o fascismo alemão, que serviu como uma nova e forte base para legitimar o sistema socialista. No processo, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) e seu exército rebelde (UPA), que queria um Estado independente, foram atacados por ajudar os ocupantes nazistas, e a diáspora ucraniana anticomunista na América do Norte que defendeu os nacionalistas, foi condenada. [07]

Esta diáspora ucraniana procurou preservar a sua identidade nacional valorizando a tradição dos cossacos ucranianos que remonta o século XVII, a partir de líderes cossacos como Bohdan Chmelnitsky, aos líderes da luta pela independência como Symon Petliura, durante a I Guerra Mundial, e o chefe da UPA Stepan Bandera, no início da II Guerra Mundial. Seu antissemitismo, o que levou a vários pogroms, foi convenientemente varrido para debaixo do tapete. Em vez de o Holocausto, a diáspora ucraniana estava particularmente interessada no Holodomor, na política intencional de fome intencional de Stalin na Ucrânia (1932-1933), que foi considerado um genocídio dirigido ao povo ucraniano. Alegou-se que mais ucranianos morreram no Holodomor que judeus no Holocausto e que judeus eram representantes proeminentes no serviço da polícia secreta soviética, o NKVD, e foram cúmplices no Holodomor. A diáspora elogiou as lutas da UPA e OUN pela liberdade, e alguns até mesmo consideraram que a repressão soviética antes da guerra justificou a colaboração de alguns ucranianos com a Alemanha nazista durante a guerra. [08]

Partes deste historiografia foi adotada quando a Ucrânia se tornou independente em 1991. A busca em construir uma identidade ucraniana agora enfatizava a luta nacional pela liberdade desde 1600 e antes disso. Estátuas de Lênin nas regiões ocidentais do país foram substituídas por monumentos dos líderes cossacos e nacionalistas. Desde os anos 1990, os líderes políticos da Ucrânia tentaram em várias ocasiões, para obter o reconhecimento internacional do Holodomor como genocídio contra os ucranianos, que a fome fosse tratada como um equivalente ucraniano do Holocausto. [09] Embora os livros oficiais de história muitas vezes não enfatizem "a responsabilidade dos judeus comunistas judeus pelo Holodomor", a literatura antissemita é publicada e vendida em todos os lugares hoje na Ucrânia, incluindo o Mein Kampf de Hitler. A maior instituição privada de ensino superior da Ucrânia, a MAUP, com 30.000 estudantes, publicou uma série de tais obras. [10]

Ao mesmo tempo que a interpretação oficial da história da Ucrânia contemporânea destaca a luta nacional contra o poder soviético, também sublinha, como nos tempos soviéticos, a luta ativa da Ucrânia contra a Alemanha nazista e as atrocidades nazistas. A enorme monumento da vitória Rodina-Mat ainda está de pé em Kiev, e o 09 de maio é ainda celebrado. A Ucrânia é, portanto, considerada como uma vítima de dois regimes totalitários que entraram na Pacto Molotov-Ribbentrop. De acordo com um livro, de 1994, embora muitas pessoas saudaram a ocupação soviética do leste da Galiza em 1939 como libertação da Polônia, que também levou a sovietização e deportações para o leste, levou muitas pessoas a acolher a posterior invasão alemã. Quando a ocupação da Alemanha nazista tornou-se ainda pior que a dos soviéticos, partisans ucranianos começaram a resistir. [11] Raramente é observado que os ucranianos podem ser encontrados em ambos os lados das linhas de frente.

A verdade sobre o assassinato em massa de judeus pelos nazistas na Ucrânia já não é suprimida, mas é principalmente associada à Babi Yar em 1941 (veja abaixo). A ideologia racial nazista não é explicada e a tragédia dos judeus ainda é ofuscada pelo sofrimento dos ucranianos. Por exemplo, outro livro de 2004 admitiu que os judeus em particular, sofreram no massacre de Babi Yar, e acrescentou que cada cidade teve seu próprio Babi Yar. Os nazistas pressionaram os ucranianos a não ajudar os judeus, mas muitos alegam ter ajudado de qualquer forma e depois executados, e, então, homenageados postumamente por Israel. O metropolita Sheptytsky da Igreja Greco-Católica Ucraniana foi mencionado em particular. [12] É difícil deixar claro que os nacionalistas ucranianos ajudaram no extermínio dos judeus. [13] Viktor Yushchenko, que como primeiro-ministro participou da Conferência do Holocausto em Estocolmo, em 2000, declarou que a experiência de milhões de ucranianos como vítimas de seu próprio Holocausto significa que os ucranianos entendem muito bem o calvário dos judeus. [14] Quando Yushchenko foi eleito presidente em 2004, após a chamada Revolução Laranja, ele foi apoiado principalmente por nacionalistas e grupos de orientação Ocidental no oeste e na região central da Ucrânia.

Johan Dietsch conclui que a imagem oficial dos ucranianos como ambos, heróis e vítimas, não permite que outras pessoas tenham sofrido mais que os ucranianos ou que os ucranianos foram cúmplices no extermínio dos judeus na Ucrânia. No entanto, os livros de história da Ucrânia, que abordam outros países, retratam o Holocausto de forma mais objetiva como um genocídio especificamente dirigido contra os judeus e o rotulam como um trauma puramente europeu. Também deve ser mencionado que, durante uma visita de Estado à Alemanha, em 2007, Yushchenko desviou-se do protocolo ao visitar um campo de concentração onde seu pai havia sido prisioneiro. Desta forma, os ucranianos contornam o problema da sua participação no Holocausto em sua própria casa e apresentam uma impressão de que a Ucrânia compartilha dos valores europeus e está em sintonia com a comunidade europeia. [15]

Por Ingmar Oldberg - Pesquisador associado ao programa da Rússia do Instituto Sueco de Assuntos Internacionais (Estocolmo).

Referências

[01] For contemporary overviews of both Hitler’s and Stalin’s genocides, see Timothy Snyder, Bloodlands: Europe between Hitler and Stalin, London 2010, and Kristian Gerner and Klas-Göran Karlsson, Folkmordens historia [The history of genocide], Stockholm 2005.

[02] A previous version of this article was published in Swedish in Inblick Östeuropa 1—2:2010.

[03] Lucy Dawidowich, The War Against the Jews, Middlesex & New York 1975, pp. 477—480. Betsy Gidwitz cites 1,850,000 victims in Ukraine; see “Jewish Life in Ukraine at the Dawn of the Twenty-first Century: Part One”, Jerusalem Letter no. 451, April 2001, www.jspa.org/jl/jl1351.htm (accessed 2010-09-01), p. 4

[04] For regional distribution, see Father Patrick Desbois, The Holocaust by Bullets, New York 2008, pp. 234 f.

[05] John Grabowski, “Antisemitism i det oranga Ukraina”, [Antisemitism in Orange Ukraine] SKMA newsletter (Swedish Committee Against Anti-Semitism) newsletter, November 2005, www.skma.se/2005/nov.2005.pdf (accessed 2010-05-19).

[06] Making Sense Of Suffering: Holocaust and Holodomor in Ukrainian Historical Culture, Lund 2006.

[07] Dietsch, pp. 69, 97—110.

[08] Dietsch, op. cit., pp. 122—136. See also Taras Hunczak, “Ukrainian-Jewish Relations During the Soviet and Nazi Occupations”, in Yury Boshyk (ed.), Ukraine during World War II, Edmonton 1986, pp. 40—45.

[09] Dietsch, op. cit., pp. 216—226.

[10] Grabowski, op. cit., p. 4.

[11] Dietsch, op. cit., pp. 155 f.

[12] V. A. Smolij (ed.), Istorija Ukrainy XX-pochatku XXI stolittja, Kyiv 2004, pp. 115 f. See also Hunczak, pp. 49—51.

[13] It can be added that Father Patrick Desbois and those whom he interviews in The Holocaust by Bullets clearly ascribe the guilt to the Nazis, without any mention of Ukrainian anti-Semitism.

[14] Dietsch, op. cit., pp. 160 f.

[15] Ibid., pp. 227—234.

Fonte: Baltic Worlds (Revista acadêmica trimestral e revista de notícias). Do Centro de Estudos do Báltico e Leste Europeu (CBEES) da Universidade Södertörn, de Estocolmo
Texto: Ingmar Oldberg
Both Victim and perpetrator - Ukraine’s problematic relationship to the Holocaust
http://balticworlds.com/ukraine%E2%80%99s-problematic-relationship-to-the-holocaust/
Tradução: Roberto Lucena

Próximo: Ambos: vítimas e perpetradores. A relação problemática da Ucrânia com o Holocausto - Parte 02

quarta-feira, 13 de março de 2013

Ewald-Heinrich von Kleist - Morre último protagonista de atentado frustrado contra Hitler em 1944

Morre último protagonista de atentado frustrado contra Hitler em 1944

Von Kleist havia sido recrutado pessoalmente
para cometer o atentado Foto: AP
Ewald Heinrich von Kleist, o último protagonista sobrevivente do atentado frustrado contra contra Adolf Hitler em 1944, cometido por oficiais da Wehrmacht em Rastenburg (na atual Polônia), morreu aos 90 anos, informa o jornal Die Welt. Von Kleist faleceu na sexta-feira passada, segundo o jornal, que cita parentes do ex-oficial.

Em 20 de julho de 1944, oficiais da Wehrmacht, incluindo o carismático conde Claus Schenk von Stauffenberg, à frente de uma rede com contatos na resistência civil, integrada por políticos conservadores e de esquerda, tentaram eliminar Hitler em Rastenburg, na Prússia Oriental, para tentar derrubar o regime nazista.

Von Kleist havia sido recrutado pessoalmente por Von Stauffenberg para cometer o atentado, o mais espetacular de todos os executados contra o Führer, que sobreviveu a todos os ataques.

Hitler ficou ferido na explosão e os principais autores do atentado planejado por von Stauffenberg, o general Friedrich Olbricht, o coronel Albrecht Ritter Mertz von Quirnheim e o tenente Werner von Haeften, foram detidos pouco depois e executados.

Ewald-Heinrich von Kleist foi detido no Endlerblock de Berlim, o edifício no qual foi planejado o atentando e que atualmente é um anexo do ministério da Defesa, antes de ser enviado ao campo de concentração de Ravensbrück, na Alemanha.

Fonte: AFP/Terra
http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/morre-ultimo-protagonista-de-atentado-frustrado-contra-hitler-em-1944,4b11ca25fde5d310VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html

sábado, 2 de março de 2013

Livro: Salazar, Portugal e o Holocausto (editado em Março)

"Salazar, Portugal e o Holocausto", de Irene Flunser Pimentel (Prêmio Pessoa 2007 e Prémio Máxima Ensaio 2012) e Cláudia Ninhos, é um dos livros do mês de Março em Portugal (e talvez do ano). A edição é da Temas & Debates/Círculo de Leitores.

"…um livro de duas historiadoras portuguesas de gerações diferentes, com experiências e até opiniões diversas, que se têm dedicado ao estudo do relacionamento entre o Portugal de Salazar e a Alemanha de Hitler, que se juntaram em torno de uma curiosidade comum…"

"A amplitude dos massacres cometidos pelos nazis, responsáveis por um devastador número de mortes, tornou impossível mantê-los no desconhecimento da opinião pública. É, por isso, importante compreender o que se sabia entre os Aliados, no Vaticano e nos países neutros, incluindo em Portugal.

... quando tiveram conhecimento do genocídio que estava a ocorrer no leste europeu e que fizeram para salvar as vítimas?

…se quisessem, poderiam os Aliados e os países neutros ter feito algo mais para salvar estas vítimas, perante as ameaças de que foram alvo?

… a chegada das informações sobre o Holocausto passou por várias fases, desde a sua receção até à tomada, ou não, de posição.

O fato de os governos ocidentais terem recebido inúmeras informações sobre o que estava a ocorrer na Polônia e, depois, na União Soviética não implicou, contudo, que os relatos fossem aceites e compreendidos. Ou seja, havia informação disponível, mas existiria o conhecimento necessário para que fosse compreendida?

Este livro procura, afinal, dar resposta a estas, e a outras questões, em torno do envolvimento de Portugal no Holocausto"

Fonte: Diário Digital (Portugal)
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=618451

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Como Hitler foi possível

Há 80 anos Hitler assumia o poder na Alemanha

Em 30 de janeiro de 1933, o então presidente Hindenburg nomeou Adolf Hitler como chanceler da Alemanha. Poucos tinham ideia da dimensão desse fato. Propaganda nazista encenou o acontecimento como uma "tomada de poder".

Cenas sombrias ocorreram no Portão de Brandemburgo em 30 de janeiro de 1933, em Berlim. Já há horas, o chefe da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, vinha posicionando homens da tropa de assalto de Hitler próximo ao local. Mais de 20 mil membros da chamada SA (Sturmabteilung), a tropa de choque do Partido Nazista, haviam chegado durante a noite.

O início estava marcado para as 19h. Tochas foram acesas, batalhões da SA desfilavam pelo Portão de Brandemburgo. Poucas horas antes, Adolf Hitler havia alcançado seu grande objetivo: ser nomeado chanceler pelo então presidente alemão Paul von Hindenburg.

Adolf Hitler saúda espectadores da janela da Chancelaria em Berlim

Um grande baile a fantasia

O recém-empossado chanceler alemão foi festejado por seus seguidores. De uma janela da então Chancelaria, Hilter cumprimentou os espectadores presentes. Goebbels havia planejado um gigantesco espetáculo. Ele pretendia encenar de forma dramática esse novo capítulo da Alemanha: aquela deveria ser "a noite do grande milagre". Ele havia planejado algo especial. Uma espécie de fita de fogo formada por portadores de tochas devia atravessar a cidade.

Goebbels queria criar imagens monumentais, ideais para impressionar os espectadores no cinema, já que era ali que os noticiários eram transmitidos na época. Mas os transeuntes passeavam distraídos para lá e para cá entre as formações da SA e impediram as gravações desejadas.

Goebbels ficou desapontado e reencenou as imagens mais tarde. O famoso pintor alemão de origem judaica, Max Liebermann, já tinha visto o bastante. Para o desfile de tochas dos homens da SA na frente de sua casa, o pintor escolheu palavras dramáticas: "Eu nunca conseguiria comer tanto para tudo o que gostaria de vomitar."

Como Hitler foi possível

Todo o poder era pouco para o ditador nazista

A história da ascensão de Adolf Hitler está intimamente ligada ao declínio da República de Weimar. Desde o surgimento em 1918, ela sofria de defeitos congênitos irreparáveis – era uma democracia sem democratas. Boa parte da população rejeitava a jovem República, sobretudo a elite econômica, funcionários públicos e até mesmo políticos.

Tentativas de golpe pela direita e pela esquerda sacudiram o país. Nos primeiros cinco anos da República de Weimar, assassinatos espetaculares chocaram o país. Entre outros, as mortes dos comunistas Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht, bem como o assassinato do ministro do Exterior Walther Rathenau, de origem judaica. Os criminosos provinham da ala de extrema direita.

A política da República de Weimar foi marcada pela total instabilidade. Nos 14 anos de sua existência, ela presenciou 21 diferentes governos. Entre os 17 partidos do Parlamento, encontrava-se uma série de inimigos declarados da Constituição. Com cada nova crise política e econômica, os eleitores perdiam mais e mais a confiança nos partidos democráticos.

Enquanto isso, o extremismo político vivenciava um grande crescimento. Os nazistas, pelo lado da direita, e os comunistas, pela esquerda, ganhavam cada vez mais adeptos. Por volta de 1930, a Alemanha estava à beira de uma guerra civil. Nazistas e comunistas travavam batalhas de rua. A crise econômica de 1929 piorou ainda mais a situação. Em junho de 1932, o número oficial de desempregados no país somava 5,6 milhões de pessoas.

O desejo por um líder forte

Hindenburg: militar condecorado, político de pouca visão

Em tal situação, muitos alemães ansiavam por um nome forte à frente do governo, alguém que pudesse tirar o país da crise. O presidente Paul von Hindenburg era uma dessas pessoas, para muitos, ele era uma espécie de substituto do imperador. De fato, segundo a Constituição de Weimar, o presidente do país era a instância política central. O cargo detinha uma imensa esfera de poder.

O presidente podia dissolver o Parlamento e outorgar leis por decretos emergenciais, algo que cabe normalmente a qualquer Parlamento. Hindenburg fez uso, diversas vezes, da possibilidade de governar contornando o Legislativo. No entanto, Hindenburg não tinha como cumprir o papel de salvar a Alemanha da miséria, pois já estava com 85 anos no início de 1933.

Após diversas trocas de governo, Hindenburg pretendia, na ocasião, instalar um governo estável chefiado pelos conservadores nacionalistas de direita. A princípio, ele era cético quanto à nomeação de Adolf Hitler para chefe de governo. Durante muito tempo, Hindenburg ironizou Hitler, chamando-o de "soldado raso da Boêmia" – uma alusão ao fato de que ele, Hindenburg, era um condecorado marechal de campo da Primeira Guerra Mundial, e Hitler, apenas um soldado comum.

Mas Hindenburg mudou de opinião. Pessoas próximas a ele lhe asseguraram que manteriam Hitler sob controle. Alfred Hugenberg, líder do Partido Popular Nacional Alemão, declarou: "Nós iremos enquadrar Hitler." Tinha-se um grande senso de segurança, também porque somente dois ministérios foram oferecidos aos nazistas no novo gabinete de governo. Por outro lado, Hitler e seus seguidores passaram a se apresentar propositalmente de forma moderada e a evitar alaridos.

Princípio do fim

Hitler após assumir o poder

De fato, no dia 30 de janeiro de 1933, um sonho se tornou realidade para Hitler e sua comitiva. Com alegria, Goebbels confidenciou ao seu diário: "Hitler é chanceler. Como um conto de fadas!" Na mais completa ignorância sobre Hitler e suas intenções, nomeou-se o "coveiro" da República para chanceler. Mas Hitler já havia apresentado seus planos no livro Mein Kampf. Ele escreveu que os judeus seriam "removidos" e um novo "habitat" seria conquistado "pela espada".

O dia 30 de janeiro de 1933 entrou para a história como o dia da "tomada de poder", conceito na verdade inventado pela propaganda nazista, pois a nomeação de Hitler – e essa é a verdadeira ironia da história – aconteceu de forma constitucional. Após a tomada de posse, Hindenburg falou as seguintes palavras: "E agora, meus senhores, para frente com a ajuda de Deus!"

Hindenburg não teve de presenciar que o caminho de Hitler levaria na verdade ao Holocausto e à Segunda Guerra Mundial. Ele morreu em 1934. E logo Hitler mostrava quão ingênua foi a crença de que ele poderia ser controlado e neutralizado. Pouco depois de ser empossado como chefe de governo, começou em todo o país o terror das tropas de assalto da SA.

Comunistas, social-democratas e sindicalistas foram perseguidos. Em pouco tempo os primeiros campos de concentração foram instalados. Ali, os membros da SA torturavam suas vítimas, que iriam incluir, pouco tempo depois, judeus e outras pessoas consideradas indesejáveis pelos nazistas. Hitler precisou somente de poucos meses para embaralhar a República de Weimar e instalar sua ditadura.

Autor: Marc von Lübke (ca)
Revisão: Francis França

Fonte: Deutsche Welle
http://www.dw.de/h%C3%A1-80-anos-hitler-assumia-o-poder-na-alemanha/a-16562683

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Brad Pitt produz e protagoniza filme em torno da aliança da IBM e os nazis (baseado no livro IBM e o Holocausto)

Brad Pitt produz e protagoniza filme em torno da aliança da IBM e os nazis
Publicado por Jorge Pereira

Brad Pitt vai produzir e (provavelmente protagonizar) a adaptação ao cinema de "IBM and the Holocaust" (IBM e o Holocausto), um livro baseado em fatos reais assinado por Edwin Black.

Na obra vemos como a IBM se uniu aos nazis em 1933, contribuindo para que estes conseguissem identificar e catalogar, na década de 1930 e 1940, os judeus. Claro está que nesta época ainda não existiam os computadores, mas a IBM desenvolveu um sistema – Hollerith – de cartões perfurados adaptáveis a cada cliente. Foi com eles que Hitler foi capaz de automatizar a perseguição aos judeus, a rápida segregação e mesmo o extermínio.

Desconhece-se para já quando começam as filmagens da obra, mas sabe-se que o projeto é prioritário e que já se procura um realizador com créditos firmados.

Fonte: C7nema (Portugal)
http://www.c7nema.net/index.php?option=com_content&view=article&id=11023:brad-pitt-produz-e-protagoniza-filme-em-torno-da-alianca-da-ibm-e-os-nazis&catid=2:cinema-americano&Itemid=2

Ver mais:
Brad Pitt, productor y posible estrella de “IBM and the Holocaust”
Brad Pitt suena para 'IBM and the Holocaust', una película con nazis y... ¿Ordenadores?
Brad Pitt quiere volver a la Segunda Guerra Mundial (Fotogramas.es Espanha)
Brad Pitt Signs On for "IBM and the Holocaust" (Worst Previews, EUA)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Ranking de livros em português sobre o Holocausto (Bibliografia)

Pensei há algum tempo em fazer isso, mas queria primeiro colocar um resumo ou crítica dos livros indicados na lista pra pôr os links de cada um na mesma. Em todo caso, e levando em consideração os títulos disponíveis em português, segue um ranking abaixo com indicações de livros centrais sobre o Holocausto disponíveis em português (que foram traduzidos), mesmo os que estiverem fora de catálogo (quem sabe alguma editora se interessa em lançar novamente).

A ideia não é só fazer um ranking dos livros em português como também um em espanhol e inglês, mas primeiramente segue a lista dos livros em português.

O ranking não é fixo nem tem hierarquia (que não é bem ranking e sim mais precisamente uma lista, mas como o termo tem mais impacto ele foi adotado), a numeração é só mesmo pra indicar a quantidade de livros e podem ser acrescentados mais títulos se houver boa indicação.

Obviamente que a lista sendo subjetiva (segue meu ponto de vista, dos que eu considero mais relevantes ou interessantes) não abrangerá alguns títulos possivelmente conhecidos de muita gente.

01. Livro: Holocausto (Uma História)
Autores: Robert Van Pelt/Debora Dwork

02. Livro: A Assustadora História do Holocausto
Autor: Michael R. Marrus

03. Livro: Os Crematórios de Auschwitz (A Maquinária do Assassínio em Massa)
Autor: Jean-Claude Pressac [sinopse do livro em francês]

04. Livro: Mestres da Morte: a invenção do Holocausto pela SS nazista
Autor: Richard Rhodes

05. Livro: Sou o Último Judeu (Treblinka 1942-1943)
Autor: Chil Rajchman

06. Livro: A Guerra Contra os Fracos
Autor: Edwin Black

07. Livro: Os Nazistas e a Solução Final (Conspiração de Wannsee)
Autor: Mark Roseman

08. Livro: IBM e o Holocausto
Autor: Edwin Black

09. Livro: O Relatório Buchenwald
Autor: David A. Hackett

10. Livro: O Holocausto – Uma História dos Judeus da Europa durante a Segunda Guerra Mundial
Autor: Martin Gilbert

11. Livro: A Noite de Cristal (A Primeira Explosão de Ódio Nazista contra os Judeus)
Autor: Martin Gilbert

12. Livro: Auschwitz - O Testemunho de um Médico
Autor: Dr. Miklos Nyiszli

13. Livro: Os Soldados Judeus de Hitler
Autor: Bryan Mark Rigg

14. Livro: É Isto um Homem?
Autor: Primo Levi

15. Livro: História da Gestapo: Tráfico e Crimes
Autor: Jacques Delarue

16. Livro: As Mulheres do Nazismo
Autor: Wendy Lower


Mais bilbliografias?
Confira: Holocausto, nazismo, fascismo, segunda guerra, neonazismo etc: Bibliografias

terça-feira, 5 de junho de 2012

À Espera de Turistas: a relação entre um alemão e um sobrevivente do Holocausto

O incômodo convívio entre as nações na região turística do campo de concentração de Auschwitz.

Léo Freitas

A Segunda Guerra já rendeu mais filmes do que se pode imaginar, mas, vez ou outra, um cineasta trata da questão por um ponto de vista peculiar. É o caso de “À Espera de Turistas”, do alemão Robert Thalheim, que esteve na seleção oficial Um Certo Olhar em 2007. Com atraso de cinco anos, a obra estreia em circuito nacional e preza pela simplicidade ao expor a relação entre um jovem alemão e um idoso polonês sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, um dos maiores e mais cruéis do regime nazista.

Quando decide prestar serviços sociais na região de Auschwitz em uma alternativa para fugir do serviço militar em seu país, o jovem Sven (Alexander Fehling) vê-se incumbido de realizar pequenos trabalhos para o sr. Krzeminski (Ryszard Ronczewski), um octogenário que se recusa a sair do campo, onde fica o museu em homenagem aos mortos pelo Holocausto.

Enquanto auxilia o polonês com atividades como compras de supermercados, reparos no dormitório e serviços de motorista para pequenas palestras ministradas aos turistas (com detalhes que só um sobrevivente é capaz de oferecer), Sven se sente descolado em uma região onde é visto como eterna persona non grata. A ironia de prestar serviços sociais a poloneses em nome do Exército Alemão faz com que o deboche dos poloneses que o rodeiam seja inevitável.

Com seu jeito carrancudo e introspectivo, Sr. Krzeminski nunca fala do assunto diante do rapaz que, de ajudante, assume o posto de, praticamente, um servo. Suas poucas palavras de ordem, regadas a cigarros e a um olhar perdido mirando o horizonte de sua janela, dão ainda maior desconforto em Sven, que sente que não há nada a ser feito, a não ser cumprir seu ano de serviço.

Para distrair-se nas suas horas de folga, vai a shows, passeia por pontos históricos que se dedicam, obviamente, à tragédia que assolou o local há mais de 70 anos. Em uma de suas saídas, conhece Ania (Barbara Wysocka), que dará margem a um envolvimento amoroso e uma relação não muito amistosa com o irmão dela, Krzysztof (Piotr Rogucki).

Deslocado por estar rodeado de poloneses, Sven vai morar com os dois irmãos e o envolvimento amoroso com Ania, mais do que previsível, esbarra nos projetos desencontrados de ambos. Surge, ainda, Zofia (Halina Kwiatkowska), a simpática irmã de Krzeminski, que, morando em uma região rural da Polônia, se esforça para levar o irmão consigo, cada dia mais consumido pelas lembranças de sua época como prisioneiro. Ele, porém, não consegue se imaginar longe daquele local, onde viveu grande parte de sua vida.

Além de expor o desconforto de duas nações separadas e unidas pela Segunda Guerra, “À Espera de Turistas” trata da questão com delicadeza e humanidade, embora não ofereça nada de novo com relação à direção. Esforça-se em seu roteiro, com frases pontuais, onde boa parte dos diálogos não se conclui. Seja para dar margem a interpretações do público ou, simplesmente, por explicitar ainda mais a questão difícil de conviver mesmo após sete décadas, o longa cativa, embora seja pouco para sua 1h20min de projeção. O distanciamento soa como proposital, justamente para não tomar lados e dividir opiniões em um contexto que soaria mais do que equivocado entre bons versus maus.

Afinal, as cicatrizes da guerra estão em seus protagonistas, seja em Krzeminski, que viveu diante do horror, seja em Sven, que carrega nas costas o peso de um passado da qual não fez parte mas tem de carregar nas costas o tempo todo. E assim, o filme reforça a questão de que o passado, por mais difícil que seja, deve ser lembrado para que não se repita.

Após “À Espera de Turistas”, outras obras – mais contundentes – também lidaram com temas semelhantes. No documentário para a TV “Hitlers Angriff – Wie der Zweite Weltkrieg Begann”, a mundialmente conhecida empresa de comunicação Deutsche Welle se uniu à TVP polonesa para tratar dos horrores cometidos por Hitler. Já“In Darkness”, indicado ao Oscar 2012 de Melhor Filme Estrangeiro e sem previsão de estreia no Brasil, mostra a saga de um oficial alemão que abriga judeus poloneses durante a Segunda Guerra.

Tomando o viés cara a cara da complicada relação humana dos personagens, é um exemplo tímido de redenção diante da grande mancha negra da Alemanha que, até os dias de hoje, assombra as nações envolvidas. Assim, sem explorar os horrores do conflito, “À Espera de Turistas” usa os silêncios e a interpretação de seu trio de atores (Alexander Fehlin recebeu, inclusive, o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cinema de Munique) em lembranças ocultas que perdurarão nas memórias de alemães e poloneses, independente do tempo e espaço que façam parte.

Filmado na região onde realmente esteve Auschwitz (hoje, rodeado de belas paisagens que nada lembram os horrores do enorme grupo de campos de concentração do conflito), “À Espera de Turistas” é um filme simples, porém delicado e sincero em sua proposta, e que surge para amenizar as cicatrizes de uma guerra que, mais do que “milhões de mortos”, tirou a vida até mesmo daqueles que sobreviveram.

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Léo Freitas formou-se em Jornalismo em 2008 pela Universidade Anhembi Morumbi. Cinéfilo desde a adolescência e apaixonado por cinema europeu, escreve sobre cinema desde 2009. Atualmente é correspondente do CCR em São Paulo e desejaria que o dia tivesse 72 horas para consumir tudo que a capital paulista oferece culturalmente.

Fonte: Cinema Com Rapadura
http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/267539/a-espera-de-turistas-a-relacao-entre-um-alemao-e-um-sobrevivente-do-holocausto/

Ver mais:
À Espera de Turistas reflete sobre as lembranças do holocausto (Pipoca Moderna)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Richard Steigmann-Gall - O Santo Reich: as concepções nazistas do cristianismo, 1919-1945

Resenha crítica de John S. Conway (Departmento de História, Universidade da Colúmbia Britânica)
Publicado em H-German (Junho de 2003)

Richard Steigmann-Gall. The Holy Reich: Nazi Conceptions of Christianity, 1919-1945 (O Santo Reich: as concepções nazistas do cristianismo, 1919-1945); Cambridge: Cambridge University Press, 2003. 294 páginas, ISBN 978-0-521-82371-5.

O estudo animado e às vezes provocador de Richard Steigmann-Gall sobre a relação entre o nazismo e o cristianismo faz uma inovação. Ele critica aqueles que, como este resenhista, argumentam que o nazismo e o cristianismo eram incompatíveis, tanto na teoria e prática. Em vez disso, ele examina mais de perto as áreas de sobreposição e as ambiguidades decorrentes nas mentes de muitos líderes nazistas. Ele rejeita a ideia de que, quando oradores nazistas fizeram uso frequente do vocabulário cristão antes de 1933, foi puramente um dispositivo tático para ganhar votos. Mais tarde, tal religiosidade enganosa seria descartada por não ser mais necessária. Em vez disso, ele mostra a valorização ampla e consistente do cristianismo como um sistema religioso nas fileiras nazis, mesmo entre os vários membros de sua hierarquia. Da mesma forma, ele contesta a afirmação de que aqueles cristãos que se reuniram à causa nazista eram superficiais e oportunistas, saltando em uma onda política popular. Ele argumenta que as condições estressantes de uma Alemanha derrotada levou muitos cristãos sinceros, principalmente protestantes, a considerar a causa nazista como teologicamente justificada, bem como politicamente apropriada.

O nazismo idealizou, e mesmo idolatrou, a nação alemã e o Volk. Steigmann-Gall mostra como essa tendência já estava presente no recém-criado Reich bismarckiano, e foi muito incentivada pelo clero protestante. Sua teologia de guerra, em 1914, afirmou a aprovação divina da causa da Alemanha e fez cair a condenação sobre seus inimigos. Depois da derrota em 1918, o clero proporcionou o clima espiritual de uma visão apocalíptica do destino da Alemanha, valentemente se guardando contra as investidas dos males do marxismo, do judaísmo, do bolchevismo e materialismo. Tal pensamento dualista percorreram ambos em paralelo e alimentou o extremismo dos grupos políticos radicais da década de 1920, dos quais o nazismo emergiu como o mais bem sucedido.

A mais notória característica do nazismo era seu antissemitismo. Muitos observadores afirmam que o Holocausto foi o culminar de séculos de intolerância e perseguição cristã. Por sua parte, os clérigos têm procurado traçar uma linha entre antes da teologia cristã anti-judaica e o antissemitismo mais virulento racial nazista. Mas Steigmann-Gall, seguindo Uriel Tal, mostra quão facilmente os alemães católicos e protestantes podiam fundir suas antipatias religiosas com a campanha política dos nazistas. Por outro lado, ele mostra quantos nazistas acreditavam na base religiosa de seu ódio aos judeus, que formavam um ponto negativo de referência para uma ideologia de integração nacional-religiosa. A postura de Lutero contra os judeus poderiam ser apoiadas, por razões mais do que meramente táticas. E o apoio de Hitler ao "cristianismo positivo" foi uma tentativa de superar as diferenças confessionais, a fim de concentrar forças cristãs contra o seu arqui-inimigo, o judeu. E com total certeza muitos líderes nazistas eram anticlericais. Mas este veneno era principalmente direcionado contra os padres e pastores que colocavam suas lealdades institucionais à frente dos seus nacionais. Isso não impediu esses nazistas de acreditar que o movimento foi, em certo sentido cristão. Foi nesta base que os nazistas como Gauleiter Wilhelm Kube, o ministro da Educação da Baviera, Hans Schemm, e Hanns Kerrl, o ministro prussiano de Justiça, que mais tarde se tornou o Ministro de Assuntos Eclesiásticos do Reich, puderam buscar uma aliança com esses elementos nas igrejas, especialmente os protestantes, que apoiaram as políticas "autoritárias, anti-marxistas e antissemitas" do nazismo. Esta não foi, Steigmann-Gall acredita, uma relação simples e oportunista de ambos os lados. Ambos acreditavam que estavam seguindo uma postura genuinamente cristã, "seguindo um chamado à fé de Deus, que ouvimos em nosso movimento Volk" (p. 73).

Seguindo esta interpretação, Steigmann-Gall acha que mesmo aqueles nazistas mais hostis às igrejas poderiam ainda continuar a ter uma relação ambivalente com o cristianismo. Por exemplo, Alfred Rosenberg. Em seu livro, "O Mito do Século XX", ele fez várias referências positivas a Cristo como um lutador e antissemita, e era ainda mais entusiasta no louvor do mais notável místico medieval, Meister Eckhart. Se a Igreja poderia ser purgada de seus acréscimos judaicos e romanos, Rosenberg poderia observar mais adiante para uma fé de alma nórdico-ocidental que iria reencarnar um cristianismo mais puro. Nisso, ele apenas adotou as idéias de pelo menos uma fação extremista do protestantismo "cristão alemão".

Certamente, esses "paganistas"(pagãos), como Steigmann-Gall os chama, exerceu pouco controle sobre a política nazista. Hitler corajosamente e de forma consistente rejeitou qualquer discussão sobre uma religião ersatz baseada em mitos alemães ou culminando no Valhalla. O "cristianismo positivo" de líderes como Goering continuou a enfatizar as vantagens de um cristianismo não-denominacional nacional em áreas como educação ou assistência social. E até mesmo estridente anticlericais, como Goebbels ou Streicher, apoiaram a ideia de um cristianismo ariano como um sistema moral admirável. O fato das igrejas serem as únicas grandes instituições que não sofreram mostras de Gleichschaltung, tendo em vista, na visão de Steigmann-Gall, "a atitude fundamentalmente positiva do estado nazista pelo menos na Igreja Protestante como um todo". Por esta razão, em 1934, Hitler se recusou a apoiar os radicais e em 1935 nomeou um protestante antigo e velho camarada, Hanns Kerrl, para ser ministro de Assuntos Eclesiásticos. Este tipo de cristianismo que Kerrl afirmava foi proclamado em seus discursos: "Adolf Hitler tem martelado a fé e a verdade de Jesus nos corações do Volk alemão .... o verdadeiro cristianismo e o nacional-socialismo são idênticos." Mas Kerrl, que foi nomeado para coordenar as facções rivais protestantes, falhou. Então, Steigmann-Gall assinala que Hitler voltou-se contra as igrejas e abandonou o protestantismo institucional de uma vez por todas. Mas, mesmo assim, de acordo com uma fonte, ele ainda seguia suas idéias originais e era da opinião de que "a Igreja e o cristianismo não são idênticos" (p. 188).

As diferenças entre essa interpretação e as apresentadas anteriormente são realmente únicas em grau e tempo. Steigmann-Gall concorda que a partir de 1937 em diante a política nazista em relação às igrejas tornou-se muito mais hostil. A influência de notáveis ​​anticlericais como Bormann e Heydrich cresceu exponencialmente e foi contida somente pela necessidade de compromissos durante a guerra. Por outro lado, Steigmann-Gall argumenta persuasivamente que o programa do Partido Nazista de 1924 e as escolhas políticas de Hitler nos discursos dos primeiros anos não foram apenas motivações políticas ou enganosas na intenção. Concordando com a posição assumida pelo conterrâneo de Hitler, o teólogo austríaco Friedrich Heer, Steigmann-Gall considera esses discursos como sendo um sincero reconhecimento do cristianismo como um sistema de valores a ser adotado. No entanto, ele não está de total acordo em admitir que este cristianismo nazista foi eviscerado de todos os dogmas essenciais ortodoxos. O que restou foi uma vaga impressão combinada com preconceitos anti-judaicos. Apenas poucos radicais na extrema-direita do protestantismo liberal reconheceram essa miscelânea como o verdadeiro cristianismo.

Steigmann-Gall está perfeitamente certo ao salientar que nunca houve um consenso entre os líderes nazistas sobre a relação entre o Partido e o cristianismo. Como Baldur von Schirach comentou mais tarde: "De todos os homens de liderança no Partido que conheci, todos interpretaram o programa do partido de forma diferente [...] Rosenberg misticamente, Goering e alguns outros em um certo senso cristão" (p. 232). As ambigüidades e contradições eram inúmeras. [1] Ao longo dos anos a hostilidade cresceu, apesar de um desejo persistente de querer manter permanentemente um elemento cristão, combinando o antissemitismo e nacionalismo em algum tipo de avaliação positiva.

A façanha de Steigmann-Gall é ter explorado bastante os extensos registros da era nazista, a fim de ilustrar essas concepções muitas vezes conflitantes do cristianismo e demonstrar a prova em uma avaliação cuidadosamente ponderada. Ao fazê-lo, ele quase elabora um caso convincente. Mas sua visão final de que, à luz dos imperativos ideológicos pós-1945, o nazismo tinha de ser retratado como um império do mal e anticristão, parece exagerada. No entanto, é inegável que ele está certo em apontar o quanto o nazismo foi adotado pelos cristãos alemães, especialmente protestantes, dos conceitos e quanto apoio ele ganhou da maioria dos cristãos na Alemanha. Esta é certamente uma lição séria a ser desenhado a partir deste relato interessante e bem fundamentado.

Notas:

[1]. Como um exemplo das diferenças entre líderes nazistas, a seguinte anedota é registrada. Num encontro com Kerrl logo após sua nomeação como ministro da Igreja, Heinrich Himmler disse a ele, "Eu pensei apenas que você estivesse tentando agir piedosamente até o momento, mas agora vejo que você é realmente piedoso. Por isso devo tratá-lo mal no futuro." E então Kerrl espantado perguntou porque e o Reichsfuehrer SS respondeu, "Bem, na sua visão, quanto pior você for tratado aqui embaixo, melhores recompensas receberão depois."

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Fonte: H-Net
http://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=7658
Tradução: Roberto Lucena

terça-feira, 20 de março de 2012

A Coluna Henneicke (Holanda)

A Coluna Henneicke foi um grupo de colaboradores nazistas holandeses que trabalharam na divisão de investigação do Bureau Central para a Emigração Judaica (Zentralstelle für jüdische Auswanderung), com sede em Amsterdã, durante a ocupação alemão da Holanda na Segunda Guerra Mundial .

Entre março e outubro de 1943 o grupo, liderado por Wim Henneicke e Willem Briedé, foi responsável pelo rastreamento de judeus na clandestinidade e a prisão deles. O grupo prendeu e "entregou" às autoridades nazistas entre 8.000-9.000 judeus. A maioria deles foi deportada para o campo de concentração de Westerbork e mais tarde enviados para serem mortos em Sobibor e outros campos de extermínio alemães.

A quantia paga aos membros da Coluna Henneicke por cada judeu capturado era de 7,50 florins (equivalente a cerca de US$47.50 dólares). O grupo, com cerca de um núclero de 18 membros, terminou seu trabalho e foi dissolvido em 01 de outubro de 1943. Entretanto, os líderes da Coluna continuaram trabalhando para o Bureau Central para a Emigração Judaica rastreando a propriedades judaicas escondidas.

Antes da Alemanha sair da Holanda (em maio de 1945), Wim Henneicke foi assassinado pela Resistência Holandesa em dezembro de 1944 em Amsterdã. Willem Briedé escapou do país e se alojou na Alemanha. Em 1949 ele foi julgado por uma corte holandesa in absentia(em ausência) e condenado à pena de morte. A sentença nunca foi executada; Briedé morreu de causas naturais na Alemanha em janeiro de 1962.

A história da Coluna Henneicke foi pesquisada pelo jornalista holandês Ad van Liempt, que em 2002 publicou na Holanda o livro A Price on Their Heads, Kopgeld, Dutch bounty hunters in search of Jews, 1943 (em tradução livre O preço por suas cabeças, Kopgeld, os holandeses caçadores por recompensa na perseguição aos judeus, 1943).

Fonte: verbete da Wikipedia com referência do livro Hitler’s Bounty Hunters: the Betrayal of the Jews de Ad van Liempt, edição de 2005.
http://en.wikipedia.org/wiki/Henneicke_Column
Tradução: Roberto Lucena

Ver mais:
Ad van Liempt, A Price on Their Heads, Kopgeld, Dutch bounty hunters in search of Jews, 1943, NLPVF, 2002.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Historiador britânico analisa queda do Terceiro Reich

Em livro sobre a Alemanha antes da capitulação dos nazistas em 1945, o historiador Ian Kershaw procura explicações para a conivência da população do país com o regime até os últimos momentos do Terceiro Reich.

Ian Kershaw tornou-se conhecido depois de ter escrito uma biografia de Hitler, de duas mil páginas, publicada no fim dos anos 1990 e responsável por sua popularidade internacional como historiador. Seu livro mais recente, Das Ende – Kampf bis in den Untergang (O Fim – Combate até a Queda), Kershaw, hoje aos 68 anos, procura respostas para o relativo bom funcionamento da sociedade alemã na fase final e apocalíptica do Terceiro Reich.

Ainda em abril de 1945, salários e honorários eram pagos normalmente no país, os músicos da Filarmônica de Berlim apresentavam-se em concertos, o time de futebol Bayern de Munique jogava regularmente e as tropas alemãs recebiam armas e munição. Até mesmo o abastecimento da população com alimentos esteve garantido até os últimos dias da guerra, mesmo considerando que de vez em quando e em alguns lugares houvesse escassez.

Militarismo prussiano


Ian Kershaw
Ian Kershaw Ian Kershaw questiona como isso foi possível, perguntando por que a população alemã tolerou as atrocidades da guerra até a derrocada total, sem se rebelar, como ocorreu, por exemplo, em novembro de 1918. "A resposta é simples. O terror do aparelho de repressão nazista era tão grande que uma revolução vinda de baixo era completamente impossível", diz Kershaw.

Esta foi inclusive a principal diferença entre aquele momento e o fim da Primeira Guerra Mundial, acredita o historiador. Em 1918, aponta ele, havia na Alemanha um Parlamento, partidos políticos e até mesmo um movimento pacifista. Não existia nenhuma Gestapo e nem soldados inimigos em território alemão. "A situação em 1918 era completamente diferente da de 1945. O terror funcionou até as últimas semanas da Segunda Guerra, sendo capaz de abortar qualquer ameaça revolucionária ao regime", diz o historiador.

Hitler: poderes ilimitados

Ian Kershaw analisa de maneira clara, em seu livro de 700 páginas, a queda do regime de Hitler, destrinchando detalhadamente e de maneira impressionante as estruturas de comando do Terceiro Reich até o terceiro ou quarto escalões. "Por que os generais da mais alta patente do Exército obedeciam às ordens cada vez mais absurdas de Hitler?", pergunta o historiador. Por um lado, diz ele, em função das tradições nefastas do militarismo prussiano, que ainda eram presentes; por outro lado, continua Kershaw, porque os nazistas souberam explorar magistralmente antigos conceitos militares como "obrigação" e "honra" para atingir seus propósitos.

Conformidade no Estado do "Führer"

A principal explicação de Ian Kershaw para a conformidade bizarra dos alemães é, contudo, uma outra, de ordem estrutural: ao contrário da Itália fascista, segundo ele, a Alemanha nazista era, de fato, um "Estado do Führer".

Edição alemã do livro
de Ian Kershaw

Enquanto Mussolini tinha, durante todo o período de seu governo, que dar satisfações ao rei Vítor Emanuel 3° e ao Grande Conselho do Fascismo, que o depôs em julho de 1943, não existia nada na Alemanha que equivalesse a essa divisão parcial de poder. Hitler não devia satisfações a nenhuma instância, nem a ninguém, e não havia nenhuma instituição com a qual ele fosse obrigado a debater suas decisões. E como ele, na condição de ditador, havia tomado a decisão de levar a guerra até a autodestruição, o povo alemão não tinha outra alternativa exceto obedecê-lo praticamente sem resistência, opina Kershaw.

Em seu livro, o historiador britânico dá provas de maestria em narrativa histórica. Em uma espécie de cinemascope historiográfico, Kershaw oferece ao leitor uma interpretação coerente e marcante dos últimos dias de guerra na Alemanha. Trata-se de um livro grandioso como um filme sobre a história daquele período, apresentado por Kershaw ao público de hoje.

Autor: Günter Kaindlstorfer (sv)
Revisão: Roselaine Wandscheer

Fonte: Deutsche Welle (Alemanha)
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,15655277,00.html

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Jantar debate Lisboa e Berlim sob domínio de Hitler

A associação cultural Academia Prima Folia organiza, no próximo sábado, dia 12 de Novembro, às 20:00, um jantar debate sob o tema "Portugal e a Alemanha Nazi" com o jornalista e historiador António Louçã.

António Louçã tem diversos livros publicados, entre eles "Negócios com os nazis. Ouro e outras pilhagens", "Hitler e Salazar. Comércio em tempos de guerra", "Portugal visto pelos nazis. Documentos. 1933-1945", "Conspiradores e traficantes. Portugal no tráfico de armas e de divisas nos anos do nazismo. 1933-1945" e "O segredo da Rua d'O Século.Ligações perigosas de um dirigente judeu com a Alemanha nazi (1935-1939)”.

Louçã, actualmente jornalista na RTP, foi correspondente do Diário Popular, diretor da revista mensal Versus, chefe de redação do Semana Informática e editor da revista História.
(ES)

Fonte: Jornal HARDMUSICA (Portugal)
http://hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=10622

domingo, 2 de outubro de 2011

Filme e livro revelam nova face de Erwin Rommel, o general de Hitler considerado justo

BERLIM - Um novo filme produzido na Alemanha questiona a consagrada versão do "bom nazista", tão cultivada pelo general Erwin Rommel (1891-1944) e sua família. O filme mostra que o general, famoso na guerra no Norte da África - que lhe rendeu o lendário apelido de Raposa do Deserto e a admiração até dos inimigos - era um carreirista disposto a fazer qualquer coisa pelos nazistas para galgar postos. Pior: ele teria se recusado a participar da conspiração para matar o ditador Adolf Hitler.

Condecorado na Primeira Guerra Mundial, Rommel optou por fechar os olhos sobre o que estava acontecendo na Alemanha nazista. Como admite seu filho Manfred Rommel - prefeito de Stuttgart, de 1976 a 1996 - ele não compartilhava do ódio aos judeus, mas aceitava a política de perseguição por admiração a Hitler.

Rommel ficou famoso na guerra na África, nas batalhas contra as tropas britânicas na Líbia. Figura central dos documentários de propaganda do regime feitos por encomenda do ministro Joseph Goebbels, o general era uma espécie de popstar do regime, admirado até pelos inimigos.

Os Afrika Korps, que ele comandava, nunca foram acusados de crimes de guerras. Soldados capturados durante sua campanha africana teriam sido tratados com humanidade. Além disso, ele teria ignorado ordens de matar tropas capturadas, soldados judeus e civis em todos os lugares onde esteve.

Os próprios ingleses contribuíram para a lenda do "bom nazista" em parte por um mal entendido da História. Winston Churchill, o então primeiro-ministro britânico, fez um comentário positivo sobre Rommel: "Ele merece a nossa atenção, porque, embora seja um soldado alemão leal, passou a odiar Hitler e os seus crimes e participou da conspiração de 1944, para salvar a Alemanha através da deposição do tirano louco."

Segundo a versão oficial, como Rommel era muito renomado, Hitler, ao descobrir sua suposta participação na conspiração para matá-lo, teria optado por dar um fim discreto ao general - Rommel concordou em cometer suicídio - e poupar sua família. Na época foi anunciado que ele teria morrido do coração. A verdade sobre a morte e a suposta traição só viria à tona anos depois, contribuindo ainda mais para a fama do "bom nazista", o sujeito que até o fim teria lutado internamente contra o tirano.

O filme, entretanto, começa a desfazer tal imagem. O general teria tido um papel destacado na guerra criminosa do nazismo, segundo o historiador Peter Steinbach, professor de história contemporânea da Universidade de Mannheim e diretor do Memorial da Resistência de Berlim, que assessorou a equipe do produtor Nico Hoffmann.

"Rommel", que deverá ser lançado no início do próximo ano, aborda os sete últimos meses de vida do general, tempo durante o qual ele teve a oportunidade de distanciar-se do seu ídolo, Hitler, apoiando o grupo de oficiais liderados por Claus von Stauffenberg, que planejava um atentado contra o ditador. Ele, entretanto, teria se recusado a participar.

Como uma figura trágica, um "Hamlet de uniforme", na expressão usada pelo jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung", ele hesitou, embora soubesse, como um militar inteligente, sobre o ataque iminente à Normandia, onde servia como comandante de um dos grupos que combateu os Aliados em 1944.

Hans Speidel e Eberhard Finckh, tentaram convencer Rommel a aderir ao grupo de resistência de Claus von Stauffenberg, que planejava matar Hitler. O ditador estaria como que "embriagado", disse Rommel a Speidel e Finckh. Os dois reagiram: "Se Hitler quer continuar lutando, precisamos matá-lo." Mas Rommel esquivou-se de uma decisão.

- Os altos militares apoiaram Hitler quase até o final. Alguns nacionalistas, porém, como foi o caso de Stauffenberg, passaram a ver o ditador como um problema ao constatar que ele estava comprometendo a Alemanha por um período muito longo, mesmo depois da guerra - constata Peter Steinbach.

O filme mostra exatamente como o carreirista Rommel - que fez tudo para subir na vida com a ajuda dos nazistas, teve sete promoções em um período curto de oito anos - hesitou quando teve a chance de tomar a decisão certa.

Mas ao mostrar a face real de Rommel a equipe do filme, dirigido por Niki Stein, com o conhecido ator de TV Ulrich Tukur no papel do general, causou protestos da família Rommel. Catherine Rommel, neta do general, escreveu uma carta de protesto tentando preservar a imagem do avô que nunca conheceu. Na carta, ela acusa a equipe de mostrar uma imagem falsa de Rommel, como o criminoso nazista e aproveitador.

Steinbach, que também é autor de uma biografia de Stauffenberg, o responsável pelo atentado malsucedido contra Hitler, está convicto de que se trata de um mal entendido histórico:

- Rommel não foi o bom nazista porque ser nazista e ser bom eram duas coisas inconciliáveis. O que houve foi que ele passou a duvidar de Hitler ao ver que este queria continuar a guerra até a autodestruição.

Na sua campanha de conquista, no Norte da África, Rommel não precisou sujar as mãos, mandando assassinar judeus, porque nas regiões ocupadas praticamente não havia judeus. Se não tivesse sido detido pelos ingleses e tivesse continuado a expansão, em aliança com as tropas fascistas de Benito Mussolini, o general teria alcançado territórios palestinos para onde haviam fugido judeus europeus. O plano de Hitler era também exterminar os judeus no Oriente Médio.

Graça Magalhães-Ruether (ciencia@oglobo.com.br)

Fonte: O Globo
http://oglobo.globo.com/ciencia/mat/2011/09/30/filme-livro-revelam-nova-face-de-erwin-rommel-general-de-hitler-considerado-justo-925484114.asp

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O NSDAP no México: história e percepções, 1931-1940 - parte 5

Este reajuste da política externa mexicana também teve consequências para um membro destacado do grupo regional da AO. Já nos primeiros meses da guerra aumentou a atenção em relação aos alemães e circularam rumores acerca de atividades subversivas alemãs. Os acontecimentos da guerra europeia, sobretudo os rápidos sucessos alemães que para muitos observadores resultavam como inexplicáveis, levaram à convicção de que a AO era uma Quinta Coluna que planejava golpes de estado e ajudava o exército alemão em suas campanhas. Desse modo, cada alemão aparecia como um soldado e espião do Terceiro Reich[50]. Em princípios de 1940, começou nos EUA uma sistemática campanha de imprensa. Na respeitada revista Foreign Affairs, por exemplo, leia-se que: "There are numerous indications that German agents are active in the capital [México, D.F.]"(Tradução: "Há numerosas indicações de que agentes alemães são ativos na capital")[51]. Mais claro - e aparentemente com mais fundamento - foi o que foi dito por Hal Burton no Daily News alguns meses depois:

"German espionage in Mexico, in South America, and indirectly in the US, is under the direction of Arthur Dietrich, press attache [sic] of the German legation. From his office flows a constant stream of money and propaganda. Newspapers or magazines are subsidized. Writers are paid for obligue attacks on the US"[52]

Tradução: "A espionagem alemã no México, na América do Sul, e indiretamente nos EUA, está sobre direção de Arthur Dietrich [sic] da German legation. De seu escritório flows a constant stream de dinheiro e propaganda. Jornais ou magazines são subsidiados. Escritores são pagos para obligue attacks sobre os EUA"
Aparentemente, o presidente Cárdenas não se mostrou impressionado por este e outros reproches na imprensa norteamericana. Numa declaração pública em 22 de maio, dirigiu-se contra estas afirmações e sublinhou, ao contrário, a tendência antimexicana de certas potências estrangeiras, ou seja, os EUA:

"O fato de que se venha falando da existência no México de uma chamada Quinta Coluna, devemos considerar que obedece a fins políticos não só internos, senão ao interesse externo. A imprensa nacional deve ser muito cuidadosa em suas notícias para que elas não siram aos inimigos do México, que estão fazendo campanha no exterior contra o país, pretendendo fazer crer que aqui é um campo de atividades subversivas. O governo do México manifestou e declara novamente que não consentirá a elementos estrangeiros que pretendam comprometer a política de estrita neutralidade que vem sendo mantida pelo Governo da República, e que procederá com toda energia em casos de violação das leis do país[53].

Poucos dias mais tarde, numa entrevista com o New York Times, o subsecretário Ramón Beteta repetiu a posição de seu país contra as repreensões da imprensa americana. Por disposição explícita do presidente, tinha que tentar contra-arrestar os esforços antimexicanos nos EUA[54]. Beteta ampliou os argumentos do presidente, referindo-se ao tamanho da comunidade alemã:

"Dr. Beteta also did not see any danger from fifth column activities in the country. Emphasizing that this fiad been grossly exaggerated, he said that such reports that there were 15,000 German tourists and hidden airports in the country are notoriously false. `Of course, there must be in Mexico Nazi elements among the small German colony, which amounts to 6,000 people out of a foreign population of 150,000 and of 20,000,000 Mexicans for the whole Republic. I am sure, however, that this small group has found neither support nor sympathy in the government or among the liberal progressive groups in Mexico'."[55]

Tradução: "Dr. Beteta também não via qualquer perigo nas atividades da Quinta Coluna no país. Enfatizando que este relato foi grosseiramente exagerado, ele disse que tais relatórios afirmando que havia 15.000 turistas alemães e aeroportos escondidos no país são infamemente falsos. `Claro, deve haver no México elementos nazistas na pequena colônia alemã, que conta com 6.000 pessoas de uma população estrangeira de 150.000 pessoas entre 20.000.000 de mexicanos no total na República. Mas estou certo de que, entretanto, este pequeno grupo não encontrou nenhum apoio ou simpatia dentro do governo e entre os grupos progressistas liberais no Mexico'."
Apesar de que em diversas ocasiões oficiais mexicanos sublinharam publicamente a inocuidade dos nacional-socialistas no México, o presidente Cárdenas estava preocupado, não obstante, e já em maio de 1940 encarregou que o Ministério do Interior levasse a cabo um estudo acerca do nacional-socialismo[56]. Cárdenas dispôs do extenso documento a partir de 23 de maio[57]. Neste, apresentava-se a Arthur Dietrich como a pessoa decisiva da comunidade alemã e o responsável das relações com os círculos mexicanos. Dizia-se que Dietrich, "indivíduo sem educação e nem escrúpulos, mas sumamente astuto", vigiava os membros da comunidade alemã a respeito de sua lealdade ao Terceiro Reich e dispusera que se boicotasse a quem atuasse de uma maneira antinacional-socialista. Como chefe de propaganda da Representação alemã, cultivava contatos com a imprensa mexicana. Todavia antes da guerra, administrava e distribuía o orçamento para anúncios em empresas alemãs. Tinha tanto sucesso que toda a imprensa independente mexicana (quer dizer, alheia ao governo e aos sindicatos) estava a disposição da propaganda alemã. Além disso, financiava partidos e deputados. Os agentes do ministério escreveram que eles mesmos uma vez tiveram a oportunidade de observar a entrega de um bolo de notas. Comparados com Dietrich, outros alemães, mas também o grupo regional do NSDAP, com efeito pareciam inócuos. O ministro alemão, por exemplo, prosseguia o relatório, não se intrometia em interesses alheis às suas funções diplomáticas. O NSDAP só admitia a cidadãos alemães e propagava as ideias nacional-socialistas unicamente entre seus membros. Na Comunidade do Povo Alemão, controlada pelo partido, também havia cidadãos mexicanos, mas estes se mantinham afastados entre si e não tratavam de fazer propaganda. O único que, segundo as informações do ministério, saiu deste círculo fechado, foi Arthur Dietrich.

Os resultados da investigação pareciam confirmar as repreensões da imprensa americana, pelo menos com respeito a Dietrich. As últimas dúvidas que Cárdenas podia distrair, talvez, sobre o relatório de seu serviço secreto desapareceram durante uma discussão com um representante da embaixada norteamericana. Provavelmente esta já dispunha da informação que a Polícia Federal dos Estados Unidos transmitiu ao presidente Roosevelt em 26 de maio[58], segundo a qual, Dietrich era o homem mais importante da Alemanha no México em tudo o que concerne a propaganda, espionagem e sabotagem, e portanto era uma pessoa non grata para as autoridades americanas.

As indagações e a discussão com o norteamericano alcançaram seu efeito. Em 11 de junho, o Secretário de Relações Exteriores exigiu ao Ministro alemão que Dietrich fosse suspenso, e que este cessasse suas atividades de propaganda e abandonasse o país[59]. Esta decisão foi justificada por Eduardo Hay ante o representante diplomático alemão alegando que, numa situação difícil, o México devia ceder ante uma demanda norteamericana[60]. Ainda que o secretário tenha exagerado aqui ante as pressões americanas a fim de reduzir a responsabilidade de seu governo, no essencial sua argumentação era acertada: a expulsão de Dietrich representou um primeiro passo visível do reajuste da política externa mexicana; depois das declarações do embaixador Castillo Nájera a oficiais americanos, foi um sinal para o governo e os meios de publicidade americanos de que o México cooperasse com os Estados Unidos na defesa hemisférica do continente americano. Apesar de sua orientação ante os EUA, o governo mexicano não proscreveu nem molestou o Landesgruppe, porque aparentemente só era Dietrich o que se intrometia na política interna do país e perturbou as relações com o colosso vizinho. O governo obviamente não via um perigo na existência de uma organização que constava de um punhado de nacional-socialistas.

Rüdt von Collenberg se enteró imediatamente da nova orientação da política externa mexicana, mas constatou que, apesar da pouca simpatia que manifestava o governo mexicano pela Alemanha, ele havia se comportado de acordo com os critérios da neutralidade. Para Rüdt, a expulsão de Dietrich significou uma mudança fundamental nesta atitude[61]. Como Rüdt não viu um melhoramento desta posição tampouco sob o novo presidente Avila Camacho, que assumiu seu cargo em 1 de dezembro de 1940, dissolveu o partido em abril de 1941, a fim de evitar que o governo mexicano proscrevesse o partido e detivesse seus membros[62].

*Notas no texto original.

Fonte: El NSDAP en México: historia y percepciones, 1931-1940
Autor: Jürgen Müller; Universitdt Kóln
http://www.tau.ac.il/eial/VI_2/muller.htm
Tradução: Roberto Lucena

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