terça-feira, 19 de maio de 2009

Biografias - Perpetradores - Franz Stangl


Franz Stangl (1908-1971)




Franz Stangl, filho de um guarda noturno, nasceu em Altmünster, Áustria em 26 de março de 1908. Depois de trabalhar como tecelão, Stangl entrou para a polícia austríaca em 1931 e logo depois ao então ilegal Partido Nazista.

Após o Anschluss, Stangl foi rapidamente promovido de posto. Em 1940, Stangl tornou-se superintendente do T4, o Programa de Eutanásia do Instituto Schloss em Hartheim, onde os deficientes mentais e físicos eram enviados para serem assassinados.

Em 1942 ele foi transferido para a Polônia onde trabalhou sob as ordens do SS-Obergruppenfuehrer (Tenente-General) Odilo Globocnik. Stangl foi comandante de Sobibor de março de 1942 até setembro de 1942, quando foi transferido para Treblinka. Sempre vestido com roupas brancas de equitação, Stangl ganhou reputação de administrador eficiente e foi descrito por Odilo Globocnik como “o melhor comandante de campo, que teve as maiores partes de toda ação...”.

No fim da guerra, Stangl conseguiu esconder sua identidade e, apesar de preso em 1945, conseguiu escapar dois anos mais tarde. Ele fugiu para a Itália com o seu colega de Sobibor, Gustav Wagner, onde foi ajudado por alguns funcionários do Vaticano para chegar à Síria com um passaporte da Cruz Vermelha. Stangl entrou com sua família e esposa na Síria e ficou por três anos antes de se mudar para o Brasil em 1951. Com a ajuda de amigos, Stangl foi empregado na fábrica da Volkswagen em São Paulo, e continuou usando seu próprio nome.

Durante anos a sua responsabilidade no massacre de homens, mulheres e crianças era conhecida das autoridades austríacas, mas a Áustria não emitiu um mandado de prisão para Stangl até 1961. Demorou mais seis anos antes que ele fosse monitorado pelo caçador de nazistas Simon Wiesenthal e preso no Brasil.

Após a extradição para a Alemanha Ocidental, ele foi julgado pela morte de aproximadamente 900.000 pessoas. Ele admitiu estas mortes, mas agumentou: “Minha consciência está limpa, Eu estava simplesmente fazendo o meu dever...” Considerado culpado em 22 de outubro de 1970, Stangl foi condenado à prisão perpétua. Ele morreu de ataque cardíaco na prisão de Düsseldorf em 28 de junho de 1971.

Franz Stangl foi entrevistado pela autora Gitta Sereny em 1970 e os seus comentários abaixo aparecem no livro: Into That Darkness: An Examination of Conscience (1983):

“Seria certo dizer que você foi utilizado para as liquidações?” Ele pensou por um momento. “Pra dizer a verdade”, disse ele, devagar e pensativamente, “fui acostumando a isso.”

Em dias? Semanas? Meses?

“Meses. Meses antes eu poderia encarar um deles no olho. Eu enganava a todos tentando criar um lugar especial: jardins, novos alojamentos, novas cozinhas, tudo novo, barbeiros, alfaiates, sapateiros, carpinteiros. Havia centenas de maneiras de distraí-los, eu usei todas elas.”

“Mesmo assim, se você se sentia forte, como tinha de ser, talvez à noite, no escuro, quando você não conseguia evitar pensar nisso?”

“No final, a única forma de lidar com isso era com a bebida. Tomava um grande copo de conhaque toda noite antes de ir para a cama, eu bebia.”

“Eu acho que você está se esquivando de minha pergunta.”

“Não, eu não queria, mas claro, vieram pensamentos. Mas eu os mando embora. Eu fazia o mesmo trabalho concentrado, trabalhava e voltava a trabalhar.”

“Seria correto dizer que você finalmente achava que eles não eram realmente seres humanos? “

“Quando eu fiz uma viagem uma vez, anos atrás no Brasil”, diz, com o rosto profundamente concentrado e obviamente revivendo a experiência, “meu trem parou próximo a um matadouro. Ouvia o barulho no trem do gado nos cercados, andei rapidamente até as cercas e olhei fixamente o comboio. Eles estavam muito perto da minha janela, amontoando uns aos outros, olhando pra mim através da cerca. Pensei então, “Olha isso, me fez lembrar da Polônia, exatamente como as pessoas me olhavam, confiantemente, pouco antes de entrarem nas latas...”

“Você disse latas”, eu interrompi. “O que você quer dizer? “, Mas ele não ouviu ou respondeu-me.

“...eu não podia comer carne enlatada depois disso. Aqueles grandes olhos me olhavam não sabendo que depois todos eles estariam mortos.” Ele pausou. Seu rosto ficou abatido. Neste momento ele olhou e o desgaste foi real.

“Então você não sentia que eles eram seres humanos?”

“Carga, “ disse ele monotonamente. “Eles eram carga.” Ele levantou a mão e a largou em um gesto de desespero. Nossas vozes baixaram. Foi uma das poucas vezes nestas semanas de conversas que ele não fez qualquer esforço para encobrir seu desespero, e sua tristeza desesperada permitiu um momento de compaixão.

“Quando você começou a pensar que eles eram carga? A maneira como você falou no início, do primeiro dia quando você foi para Treblinka, o horror que sentiu ao ver corpos mortos por toda parte – não eram ‘carga’ para você, então, eles eram?”

“Eu acho que começou na primeira vez que vi o Totenlager em Treblinka. Lembro-me de Wirth parado ali, ao lado de uma vala cheia de cadáveres –azul-preto. Ela não tinha nada de humanidade, não poderia ter, era um monte – um monte de carne podre. Wirth disse ‘O que vamos fazer com esse lixo?’ Acho que inconscientemente eu comecei a pensar neles como carga.”

“Foram tantas crianças, o que você pensa sobre seus filhos, como você sentiu na posição daqueles pais? “

“Não,” ele disse devagar, “Não posso dizer que nunca pensei dessa forma.” Ele pausou. “Veja,” ele então continuou, ainda falando com extrema seriedade, e obviamente tentando encontrar uma nova verdade dentro de si, “Eu raramente os vi como indivíduos. Era sempre um enorme monte. Às vezes eu ficava na parede e os via pelo tubo. Mas como eu posso explicar isso – eles estavam nus, espremidos juntos, correndo, sendo conduzidos por chicotes...” a frase acabou.

“Você poderia ter mudado isso?” Eu perguntei. “Em sua posição, você não poderia ter acabado com a nudez, os chicotes, o horror dos cercados de gado?”

“Não, não, não. Este era o sistema. Wirth tinha inventado isso. Funcionava e porque funcionava, era irreversível.”


Fonte: Jewish Virtual Library
Link:
http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/biography/Stangl.html
Tradução: Leo Gott

3 comentários:

Analuka disse...

O ser "humano" é capaz de atrocidades incompreensíveis, e injustiças abomináveis!... Felizmente, também existem almas impregnadas de luz, amor e ternura! Abraços alados para ti, bela.

alemao disse...

"Demorou mais seis anos antes que ele fosse monitorado pelo caçador de nazistas Simon Wiesenthal e preso no Brasil."

Haha,não foi assim que aconteceu. O que ocorreu é que ele teve uma desavença com o genro brasileiro, e este foi para o escritório do Wiesenthal para vender a informação. Diz a lenda que ele teria pedido R$ 0,1 para cada Judeu que o Stangl teria matado, ou algo assim.

Leo Gott disse...

alemao,


Haha,não foi assim que aconteceu. O que ocorreu é que ele teve uma desavença com o genro brasileiro, e este foi para o escritório do Wiesenthal para vender a informação. Diz a lenda que ele teria pedido R$ 0,1 para cada Judeu que o Stangl teria matado, ou algo assim.

Você tem a fonte para essa afirmação?

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