quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Porque é negação e não revisionismo. Parte IX(1): "Os relatórios dos Einsatzgruppen ...

« ... não são apenas questionáveis a respeito do número de judeus assassinados, mas também em respeito a sua categoria.»

Foi assim que escreveu nosso regular freguês Carlo Mattogno e Jürgen Graf sobre a página 211 da lengalenga Treblinka. Vernichtungslager oder Durchgangslager?, disponível para download gratuito aqui.

Nas páginas seguintes, eles prosseguiram explicando o que queriam dizer com suas alegações de que os relatórios dos Einsatzgruppen são inexatos acerca das «categorias» dos judeus mortos: no gueto de Vilna, vai entender, judeus inaptos para o trabalho ainda estavam vivos embora, de acordo com o relatório correspondente, como interpretado por Mattogno & Graf, eles deviam ter sido mortos:
No “relatório geral de 16 de outubro até 31 de janeiro de 1942,” a presença de (alegadamente) 34.500 judeus nos guetos de Kaunen, Vilna e Schaulen é explicada da seguinte forma:597
“Desde a completa liquidação dos judeus que não foi feita em virtude de atribuições de trabalho, os guetos foram formados, e apresentados preenchidos da seguinte forma [os números citados acima são dados aqui]. Esses judeus estão empregados em trabalhos essenciais para fins de defesa.”
De acordo com isto, apenas os judeus que ainda estão aptos para o trabalho tinham permissão para viver em três guetos listados; por esta lógica, aqueles que não estivessem aptos para o trabalho, especialmente as crianças, deveriam todos ser mortos. Mas de acordo com o censo feito até o fim de maio de 1942, 14.545 judeus cujos nomes (junto com a data de nascimento, ocupação e endereço) foram publicados pelo Museu Judaico de Vilnius (o nome lituano da cidade) e estavam vivendo em Vilna. Surge destes documentos que destes 14.545 judeus, não menos que 3.693 eram crianças de 15 anos de idade ou menos. O número de crianças por grupo pela faixa etária é mostrado na seguinte tabela:598
ANO DE NASCIMENTO|IDADE|NÚMERO DE CRIANÇAS
1927 15 567
1928 14 346
1929 13 265
1930 12 291
1931 11 279
1932 10 216
1933 9 226
1934 8 195
1935 7 227
1936 6 229
1937 5 182
1938 4 188
1939 3 181
1940 2 117
1941 1 172
1942 com poucos meses 12
Total: 3.693
Além disso, entre os judeus registrados pelo censo havia também 59 pessoas de 65 anos de idade ou mais velhas. O mais velho tinha cerca de 90 anos de idade, Chana Stamleriene, nascido em 1852.

Como Nick já assinalou em seu artigo Mais Deturpações de Graf: Lituânia, não há contradição alguma entre os conteúdos do "Relatório Geral de 16 outubro a 31 janeiro de 1942," e a presença de judeus inaptos para trabalhar no gueto de Vilna até muito tempo depois de este relatório ter sido emitido, e quem vê tal contradição, portanto, revela (no máximo) ignorância da história do gueto de Vilna, onde judeus trabalhando foram emitidas autorizações correspondendo a permissão de que por um tempo tivessem o direito de registrar três membros adicionais da família com eles. Entretanto, o que parece ainda pior em Mattogno e Graf é que eles não precisam mesmo tse aprofundar na história do gueto de Vilna - o que talvez seja pedir demais desses dois dedicados «pesquisadores» - a fim de evitar o erro de fazer um estardalhaço sobre a suposta inconsistência no relatório em questão dos Einsatzgruppen. Todos dois tinham que olhar o documento relacionado com o mesmo conjunto de assassinatos contidos no "Relatório Geral de 16 outubro a 31 janeiro de 1942,". Este documento, que em grande parte pode ter servido dee base para o referido «Relatório Geral», tem há muito tempo disponível para o público uma tradução em inglês que fora incluída na edição em inglês de 1988 com o título The Good Old Days(Os bons velhos tempos), de uma coleção de documentos elaborada pelos pesquisadores alemães Ernst Klee, Willi Dressen e Volker Riess. Este chamado Relatório Jäger, que pode ser visto online aqui, é um documento de autenticidade indiscutível que foi escrito a pedido de Franz Walter Stahlecker, o comandante do Einsatzgruppe A, e por Karl Jäger, o comandante do Einsatzkommando 3, uma das subunidades do Einsatzgruppe A. Ele fornece os detalhes, dia a dia, local por local, especificando o colapso das vítimas homens, mulheres e crianças, da maioria das execuções mencionadas no «Relatório Geral». Em sua última página, o Relatório Jäger então se refere aos judeus que seu autor lamenta por ter sido impedido de matá-los. Jäger escreveu o seguinte (tradução do THHP*, ênfases são minhas):
Eu posso afirmar hoje que o objetivo de resolver o problema judaico para a Lituânia foi alcançado pelo Einsatzkommando 3. Na Lituânia não há mais judeus que não os judeus trabalhadores, incluindo suas famílias. São eles:

Em Schaulen cerca de 4,500
Em Kauen “ 15,000
Em Wilna “ 15,000


Eu também queria matar esses judeus trabalhadores, incluindo suas famílias, o que, contudo, trouxe-me amargo desafios da administração civil (o Reichskommisar) e do exército e causou a proibição de que: os judeus Trabalho e suas famílias não serão assassinados!

Encontramos aqui os mesmos 34.500 habitantes judeus dos guetos de Schaulen, Kauen («Kaunen») e Wilna (Vilna) que são mencionados no "Relatório Geral de 16 outubro a 31 janeiro de 1942,", além de uma declaração clara de que esses 34.500 judeus não são os judeus trabalhadores sozinhos, mas os judeus trabalhadores e suas famílias, o que derruba a alegação de que a presença de judeus não-trabalhadores no gueto de Vilna após a campanha de assassinato 1941 da Einsatzgruppe A põe em cheque a exatidão deste registro do relatório de mortes da unidade. Por que os membros das famílias dos judeus trabalhadores não são mencionados no « Relatório Geral», como citado por Mattogno & Graf de que pode apenas ser imaginado, mas Jäger certamente não tinha motivos para inventá-los (pelo contrário pois provavelmente teria feito ele ser olhado com mais «sucesso» aos olhos de seu superior se apenas os judeus estritamente necessários para o esforço de guerra houvessem sido poupados), e as provas referidas no artigo de Nick acima mencionado, bem como aqueles apresentados por Mattogno & Graf, confirmam a exatidão da declaração de Jäger.

Por que, agora, Mattogno & Graf fracassam em levar em conta o Relatório Jäger, o que torna sua histeria arrogante sobre a presença de judeus não-trabalhadores no gueto de Vilna parecer completamente ridículo? Foi uma omissão deliberada de um documento não conveniente com suas posturas, a qual eles não esperavam que ninguém notasse? Ou foi apenas incompetência elaborada de dois charlatões trapalhões, vigorosamente desenterrar material que eles pensaram que poderia apoiar suas noções pré-concebidas e não terem identificado um longo documento de domínio público que pudesse prestar a seus esforços inúteis? Na ausência de prova em contrário, darei-lhes o benefício da dúvida e assumirei a segunda hipótese.

O gueto de Vilna pode ter sido um caso excepcional no qual houve um período de relativa calma após as ações assassinato de outubro a dezembro de 1941 (liquidação do «Gueto 2», Gelbschein-Aktionen e «ações» menores subsequentes), que durou até a ordem de Himmler em 21 de junho de 1943 para liquidar os guetos restantes do Reichskommissariat Ostland. Entretanto, não era de modo algum apenas guetos judeus nas áreas ocupadas pelos alemães em ambas, União Soviética ou Polônia, que ainda tinham uma considerável população de judeus não-trabalhadores após o grande extermínio de 1941 (nos territórios soviéticos ocupados) e de 1942 (nos territórios soviéticos ocupados, na área da Polônia que faziam parte do Generalgouvernement - Governo Geral, e nos territórios polaneses anexados ao Reich alemão). No Generalgouvernement, isto foi relacionado ao fenômeno conhecido como segunda guetização (Zweitghettoisierung), que é descrito da seguinte forma pelo historiador Frank Golczewski (minha tradução de Frank Golczewski, «Polen», em: Wolfgang Benz (editor), Dimensionen des Völkermords, 1996 Deutscher Taschenbuch Verlag GmbH & Co. KG, München, páginas 411-497, aqui: página 471):
Em uma conferência (20-22 de setembro de 1942), na qual havia ocorrido uma disputa entre o Ministro de Armamentos Speer e Himmler sobre a organização da indústria de armamento, Hitler havia concordado com o pedido de Fritz Sauckel para transitoriamente continuar a empregar trabalhadores judeus qualificados no Generalgouvernement(Governo Geral). Himmler, o qual a SS - e órgãos da polícia que teriam recebido competência global para assuntos judaicos, por causa disto ordenou em 09 de outubro de 1942 reunir todos os judeus trabalhadores para as necessidades do exército em campos de trabalho especiais. O propósito desta «reorganização» também foi perseguido pela chamada segunda guetização.
O Secretário de Estado do Governo do Generalgouvernement, o SS-Obergruppenführer Friedrich-Wilhelm Krüger, decretou a instalação do que é chamado «guetos secundário» (Getta wtórne) na literatura polonesa. Em 28 de outubro de 1942, Krüger assinou o «Decreto policial sobre a Criação de bairros residenciais judeus nos Distritos de Varsóvia e Lublin»; um outro decreto de 10 de novembro de 1942 designava localidades adicionais aos distritos restantes de Cracóvia, Radom e Galicia. Dos 650 locais na Polônia nos quais os judeus tinham ainda vivia no início de 1942, restavam apenas 54. Eles eram partes dos ex-guetos judeus os quais - geograficamente reduzidos - eram agora quase confirmados. Eles eram em sua maioria divididos: nos guetos «A» viviam os judeus com condições de trabalhar, nos guetos «B» viviam os judeus inaptos para trabalhar. Assim, as medidas subsequentes de assassinato foram facilitadas e previsíveis.

No entanto, os poucos deportados sobreviventes se agarravam à esperança de que as deportações haviam sido canceladas e os últimos guetos agora tinham uma espécie de garantia de existência. Às vezes aqueles que tinham vivido ilegalmente escondidos na clandestinidade iam para estes novos alojamentos a fim de fugir do estresse constante da ilegalidade (e às vezes dos enormes custos extorquidos por seus «hospedeiros»). As deportações foram temporariamente interrompidas devido ao inverno [1942/43, nota do tradutor]. Por causa de Stalingrado, uma interdição dos transportes para outros além dos bens de armamento foi decretada. O termo «gueto» era agora apenas raramente usado; os bairros judeus agora eram chamados de «bairros residenciais judaicos» na terminologia NS, que era dar a eles uma espécie de «humanidade» e enganar os habitantes. Na verdade, a consolidação foi apenas um breve estágio antes da deportação final dos que restaram, para as instalações de extermínio.

Se os judeus aptos a trabalhar fossem transitoriamente autorizados a continuar a viver em «bairros residenciais judeus» juntamente com os judeus que trabalhavam para o esforço de guerra alemão, isto foi provavelmente baseado em considerações táticas: a presença de membros da família num gueto «B» incentivava os judeus trabalhadores no gueto «A» em suas crenças de que seriam poupados e, assim, não só estimulava seus desempenhos no trabalho, como eles tentavam tornar-se tão úteis quanto possível a fim de salvar a si mesmos e suas famílias, mas isso também os impediu de contemplarem a resistência. Isso pode ajudar a explicar o porquê da resistência ocorrer eventualmente, quando as deportações continuaram em 1943, foi limitada a alguns dos guetos restantes, o que uma olhada em direção às histórias do gueto acessíveis neste link nos mostra. De qualquer forma, a maioria dos guetos restantes na Polônia, ocupada pelos nazistas, e na União Soviética foram liquidados no decorrer de 1943, e no final de agosto de 1944 até o último gueto restante, o gueto de Lodz, que havia deixado de existir.

Agora, e sobre a outra afirmação de Mattogno & Graf mencionada no início deste post, a respeito do número apontados nos relatórios dos Einsatzgruppen? Vamos chegar neste tema na próxima parte deste artigo.

Clique aqui para verificar outros artigos desta série.

*THHP = abreviação do site The Holocaust History Project

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Próximo >> Parte IX(2)

Fonte: Holocaust Controversies
Texto: Roberto Muehlenkamp
http://holocaustcontroversies.blogspot.com/2007/02/thats-why-it-is-denial-not-revisionism.html
Tradução: Roberto Lucena

Ver também: Técnicas dos negadores do Holocausto

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