quinta-feira, 2 de julho de 2009

Para entender: Ciência vs. Pseudociências - parte 1

Faz-se necessário a postagem de textos que desmitificam o caráter pseudocientífico de grupos que dizem praticar algum tipo de método científico de análise mas que valem sempre do uso de falseamento e distorção de dados históricos com o fim de apresentarem alguma "teoria" de forma "coerente" e crível perante o público menos atento a este tipo de questão. A seguir segue um texto de Javier Armentia(Diretor do Planetário de Pamplona, Espanha) fazendo uma análise entre a forma de se manifestar das pseudociências em relação às ciências, o "revisionismo"(ou negação do Holocausto) se encaixa de forma plena no quesito pseudociência, daí a importância deste tipo de texto para esclarecer(distinguir) o que venha a ser uma e outra. O texto será dividido em quatro partes(conectadas por links umas com as outras) para melhor leitura de quem visitar o blog.

Ciência vs. Pseudociências

1. Introdução: o paradoxo atual

Comenta Ignacio Ramonet em seu livro “Um mundo sem rumo: crise de fim de século” [1]

“Em sociedades presididas em princípio pela racionalidade, quando esta se dilui ou se desloca, os cidadãos se vêem tentados a recorrer a formas de pensamento pré-racionalistas. Voltam-se para a superstição, o esotérico, o ilógico, e estão dispostos a crer em varinhas mágicas capazes de transformar o chumbo em ouro e os sapos em príncipes. Cada vez são mais os cidadãos que se sentem ameaçados por uma modernidade tecnológica brutal e se vêem impelidos a adotar posturas receosas antimodernistas.”

É certo que enfrentamos uma situação paradoxal: por um lado podemos coletar numerosos indicadores da crescente importância (e necessidade) da ciência e suas tecnologias na sociedade atual, da cada vez maior relevância da chamada comunicação social da ciência (jornalismo, divulgação, museus ou centros de ciência, mundo educativo... que constituem as ligações atuais entre a pesquisa científica e os cidadãos); por outro, a avaliação ou apreciação social desta mesma ciência não se ajusta ao papel que ela tem na sociedade. Mas, além disso, podemos perceber um crescente irracionalismo, associado normalmente com o que neste trabalho denominaremos globalmente pseudociências (que definiremos por extensão e por exclusão no tópico seguinte).

O paradoxo consiste em que se agora mesmo removêssemos os produtos da tecnociência, a civilização humana entraria em colapso. Apesar de a desconhecermos ou subestimarmos, a ciência – atenção! também culpável de cumplicidade com os sistemas econômicos e de poder, não se creia em uma espécie de torre de marfim acima do bem e do mal –, a ciência, dizíamos, é o substrato base do nosso presente e a única via factível de futuro. O problema deriva para uma percepção da ciência como uma espécie de igreja com seus rituais e seus oficiantes: nós cidadãos chegamos, em geral, a desfrutar dos dons da ciência, mas sem chegar a compreendê-los nem a analisá-los. Que isto seja errôneo e equívoco não impede que algo assim suceda. Quando por uma razão ou outra se furta ou evita o debate, a livre crítica que está no fundo do método científico, fica a liturgia. E as pseudociências aproveitam este abismo entre ciência e sociedade para aparecer como ciências quando realmente não o são.

2. Pseudociências: para uma definição

Não podemos aprofundar mais a análise presente sem realizar algum tipo de definição das pseudociências. Certamente, não é um tema simples, ainda quando etimologicamente equivalha a “falsas ciências”: disciplinas, portanto, que se aparentemente se revestem do manto da ciência, não o são na realidade. O termo “falso” parece indicar, sendo ademais no geral correto, uma certa intenção de engano consciente: amiúde se tenta tal disfarce com o interesse de dar uma respeitabilidade que possuem os produtos da ciência, e abusar da marca científica na hora de silenciar as possíveis críticas.

Em outros casos, se usa o prefixo para como identificador de algumas destas disciplinas, como é o caso da parapsicologia, ou no genérico de “fenômenos paranormais”: se põe assim evidente o próprio interesse dos promotores de tais disciplinas em situar-se à margem da corrente principal da ciência. É muito normal nesses setores se caracterizar o conhecimento científico como “ciência oficial”, com o claro interesse de desprestígio que supõe adscrever a ciência a um certo establishment dogmático. Algo que encontrou certo eco no que se denomina pensamento pós-moderno ou relativismo cultural, segundo cujos postulados o conhecimento científico não é senão um dentre os possíveis, sujeito aos mesmos vaivéns e influências irracionais das outras atividades humanas. Levar-nos-ia fora do objetivo deste trabalho realizar uma crítica do pós-modernismo. Recomendamos, em qualquer caso, o trabalho de Sokal e Bricmont “Imposturas Intelectuais”.[2]

Epistemologicamente, não obstante, fica complicada a definição de pseudociências, por ser uma definição negativa: “o que não é, ainda que pareça, ciência”. Coloca imediatamente a questão sobre quem decide o que seja ou não ciência. Ou seja, nos submerge no tormentoso assunto da definição de ciência, e seus critérios de demarcação, um tema que ocupou uma boa parte da discussão filosófica do nosso século. Para uma análise desse tema em profundidade, recomendamos a leitura dos artigos de William Grey intitulados “Ciência e psi-encia: a ciência e o paranormal” [3]. O também filósofo Paul Kurtz [4] comenta que as pseudociências são matérias que:

a) não utilizam métodos experimentais rigorosos em suas investigações;

b) carecem de uma armação conceitual contrastável;

c) afirmam ter alcançado resultados positivos, embora suas provas sejam altamente questionáveis, e suas generalizações não tenham sido corroboradas por investigadores imparciais.

Podemos nos valer desta caracterização porquanto aponta traços que com suficiente informação se pode tentar avaliar. Assim, temos o assunto da armação conceitual, que poderíamos redefinir como “a existência de hipóteses não refutáveis ou não falsificáveis” (no sentido popperiano). Sem entrar em detalhe na questão da falsificabilidade, esta característica está presente em muitas pseudociências. Apresentemos uns exemplos:

A psicanálise é uma teoria da mente que impede a realização de experimentos que possam ser falseados. Uma afirmação clássica (e básica para o desenvolvimento de sua teoria psicopatológica) da psicanálise é que todos os homens têm tendências homossexuais reprimidas. Tentemos realizar uma prova que permita descobrir se esta hipótese é científica: um teste de conduta e tendência que elucide se o sujeito tem tais tendências. Se o teste falha, o psicanalista dirá que isto é assim porque as tendências estão reprimidas, e não saem à luz; se o teste resulta correto, o psicanalista o interpretará como uma comprovação de sua hipótese. Não há maneira, portanto, de saber se a hipótese pode ser falsa, e, portanto, não é científica.

Outro caso extremo é dado por uma teoria solipsista. Seja: “Eu, Javier Armentia, acabo de criar o mundo faz 25 minutos e meio, com tudo o que se pode ver nele agora, incluindo o leitor deste artigo”. Não há maneira de refutar esta tresnoitada teoria: se alguém diz que possui lembranças da sua infância, ou provas de que lá esteve, seus familiares, fotos, etc.... sempre lhe poderei contestar que eu acabo de criar tudo isso, inclusive a memória desse passado inexistente. Bem, algo similar afirmam os chamados criacionistas evangélicos, para quem a Bíblia está literalmente correta. Se alguém tenta explicar que é impossível que o mundo se criou há somente 6.000 anos, como afirmam, porque há fósseis e rochas mais antigos, porque agora nos chega a luz de galáxias mais distantes que 6.000 anos-luz, eles respondem que Deus, em sua infinita providência, criou tais provas falsas: criou a luz a caminhar para a Terra, e plantou os fósseis e rochas antigas...

Autor: Javier Armentia
Fonte: Paranormal e Pseudociência em exame
Original: Euskonews & Media #30
Fonte: ateus.net

Javier Armentia, Diretor deo Planetário de Pamplona(Espanha) e
membro da ARP-Sociedad para el Avance del Pensamiento Crítico

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