terça-feira, 31 de maio de 2011

Das Caixas-Pretas a Leuchter: demarcando a Ciência

A demarcação da Ciência sempre foi objeto de estudo de filósofos desde o século XVII. Os princípios que moveram essa distinção era trazer à tona um "fazer Ciência" de modo diferenciado a ponto de se poder distinguir conceitos científicos e não-científicos. Podemos citar alguns e discuti-los em torno do movimento que se deu à sua época de forma resumida:

John Locke e David Hume foram dois filósofos empiristas que tinham como argumento de que o processo de construção de conhecimento se dava através da experimentação. John Locke ia ainda mais longe alegando que quando o indivíduo nascia era desprovido de conhecimento como um papel em branco e ao longo da vida, e da experimentação, o conhecimento iria surgindo.

Porém, houve quem trouxesse um novo viés filosófico, refutando o empirismo de Locke e Hume: Immanuel Kant, com seu apriorismo, que trazia a idéia de que os indivíduos possuíam tipos de conhecimentos que não passavam pela experimentação e diferenciava esses tipos de conhecimento em a priori, que era o conhecimento que era inato (tal como Kant citava o exemplo da base de uma casa, se retirarmos sua fundação, a casa cai e este conhecimento não passou por experimentação) e em a posteriori, que era o conhecimento que passava pela experiência. Esses conceitos são fundamentais para se entender os termos que ainda são falados.

Anos mais tarde, Mach e Comte talvez tenham sido uns dos primeiros filósofos que tiveram uma noção da necessidade de se criar uma filosofia para a Ciência. Ambos trouxeram uma idéia positivista acerca do "fazer Ciência". Segundo Comte: "a Ciência é positiva e tudo que é positivo é testável" resumindo assim sua idéia acerca da Ciência. Ambos utilizavam, o que Bacon chamou de indutivismo que é a proposta segundo a qual uma idéia era pré-concebida e testada pelo método e que deveria confirmar a idéia já aceita a priori, ou seja, o método pelo qual a Ciência se auto-afirma era apenas um confirmativo da coisa-em-si e que além disso, o indutivismo previa uma generalização, de que quando houvesse uma teoria que fosse testada e aceita, ela deveria equivaler a teoria geral em si.

O positivismo científico teve mudanças com o atomismo lógico de Bertrand Russell, que foi base para um movimento filosófico na Áustria chamada de Círculo de Viena onde seu principal representante era Carnap, porém, importantes cientistas também faziam parte, como Einstein, e tinham interesse em discutir o melhor modus operandi que havia na proposta principal de unificar a Ciência através de um método e eliminar qualquer princípio metafísico de seus enunciados, tal qual já faziam Comte e Mach.

Em suma, o Círculo teve como idéia principal as mesmas adotadas por Mach e Comte em seu positivismo, porém, houve uma divisão entre idéias filosóficas e científicas utilizando como princípio demarcador os métodos pelos quais cada um tinha e que determinavam cada forma de conhecimento. Segundo Carnap, o único método que Ciência poderia utilizar era o método científico, método segundo o qual pensava-se no sistema linear: observação, problema, hipótese, experimento, resultado, conclusão e a filosofia não deveria ter outro método senão a lógica, dividindo a Ciência e a filosofia.

Entretando, houve quem trouxesse à tona um novo viés do modus operandi. O filósofo da Ciência Karl Popper trouxe uma visão distinta do que até então os positivistas tinham. A refutação de Popper se dava no seguinte:

- Era impossível fazer a unificação da Ciência pelo método científico proposto, já que cada Ciência possui suas particularidades;
- Era impossível haver uma mesma nomenclatura para todas as Ciências pela mesma obviedade;
- Não era possível retirar as metafísicas do enunciado, pois o enunciado em si já era metafísico, pois como dizia Popper: "não é porque é metafísica que não tenha sentido"
Desta forma, Popper via que o princípio de demarcação que trouxera o Círculo, era inadequado justamente pelas deficiências de conceito que haviam trazido, embora Popper gostasse da idéia da montagem do Círculo, pois segundo dizia em sua Autobiografia Intelectual, que o Círculo foi importante por trazer, pela primeira vez, racionalidade ao pensamento filosófico acerca da Ciência.

A demarcação de Popper se deu não apenas através da testabilidade dos enunciados, mas na refutabilidade dos enunciados, desta forma, o modo de ver do "fazer Ciência" era diferenciado não por trazer o indutivismo lógico, mas um método racional, hipotético-dedutivo, onde o método para Popper era fundamental do processo de construção de Ciência e do modo pelo qual cadateoria científica era mudada. Quando havia uma teoria que constratasse com a teoria vigente, esta deveria requerior os critérios de Popper, através da testabilidade (uma teoria científica deveria ser testável) e ser refutável (princípio pelo qual a refutação deveria ser por Modus tollens, ou seja, se negarmos uma conclusão de uma premissa, estaremos refutando a premissa) a que Popper demonstrou por analogia através dos cisnes negros e brancos. Se houver um cisne negro em um grupo de cisnes brancos, há um contrase e esse constraste deve ser verificável (empírico) e as hipóteses levantadas sobre a existência desse cisne negro deve ser refutável e testável (idéia conhecida como "Cisne Negro de Popper").

Anos mais tarde, o físico americano Thomas Kuhn, em um trabalho de doutoramento em história da Ciência, foi mais longe que o próprio Popper, discutindo o modo pelo qual uma teoria era substituída por outra, pois para Popper, o princípio que movia a mudança de conceito científico se dava pelo método essencialmente, discutindo outros fatores externos ao próprio método que influenciava nas mudanças do que Kuhn denominou de "paradigmas". Em sua principal obra "A Estrutura das Revoluções Científicas", Kuhn traz a idéia de que existem fatores externos ao meio que era também determinantes na mudança de paradigma (termo muito em moda) e não só o método em si como a questão financeira, a seleção dos artigos para publicação em revista indexada, aceitação de bolsas de pesquisa etc., eram ainda mais determinantes que o próprio método, embora Kuhn não refutasse a interferência do método como fator que determinasse uma mudança de paradigma científico, mas que este deveria ser aceito de acordo, também com os princípios morais, éticos, políticos, religiosos, em síntese, todos os fatores inatos no homem e que eram fatores que influenciavam inclusive a conclusão dos seus testes. Ou seja, o cientista não estava em uma bolha e isolado do meio, ele não só estava no meio, como também era fonte de influência na mudança de paradigma.

Assim, remete-nos a pensar em trabalhos de cunho pseudocientífico. Para Popper, uma pseudociência era aquela que embora pudesse ser testada, não era possível seu refutamento ou vice-versa. Popper citava a Astrologia: era possível saber a existência dos astros, mas não que estes tinham influência moral sobre nossas vidas e essa alegação era tautológica (numa tabela de verdade lógica, embora a premissa pudesse ser errada ou verdadeira, o resultado era SEMPRE verdade).

Pseudociências estão em moda nos dias de hoje. Parapsicologia (embora a AAAS a considere Ciência por convenção) que aceita a existência de espíritos a priori e que estes podem ser medidos por aparelhagens especiais, uma nova teoria que olhasse com outros olhos o processo evolutivo, proposto por Michael Behe e William Dembski, que propõe a existência de um ser inteligente (intelligent design) que promove e direciona o processo evolutivo, este, absolutamente tautológico.

As idéias de Behe, em seu livro "A Caixa-Preta de Darwin", sugere que o processo evolutivo não se dê gradualmente, ao contrário, ele é direcionado exatamente por não haverem evidências de um salto e os faz analogamente a um salto em um buraco. Podem haver plataformas para explicar o salto e que podem ser observadas, mas e quando não houverem plataformas para esse salto? Behe sugere que algo os tenha transportado até o fim e utiliza essa analogia com eventos bioquímicos que necessitam de intermediários para se chegara um fim, como a coagulação sanguínea. Existe um emaranhado de vias bioquímicas através de enzimas, proteínas que aceleram reações químicas ou metaboliza, e que na falha de uma enzima, o restante do processo também falha, o que Dembski chamou de "complexidade irredutível". Segundo as idéias darwinistas, cada enzima teria evoluído no processo a partir de pressões do meio, onde mutações espontâneas seriam selecionadas pelo meio e adaptadas às resistentes (este processo já foi obsrevado em laboratório pela descobera do RNA autoduplicante), porém, o meio pode ser influenciador no mecanismo genético diretamente, chamado de epigenética, que Behe faz questão de não mencionar. Ao contrário do pensamento darwinista, Behe sugere que o processo tenha sido direcionado por um agente inteligente. Este pensamento foi absorvido rapidamente pelos fundamentalistas religiosos norte-americanos e por efeito bola de neve, no Brasil com as igrejas neo-pentecostais, sempre cometendo a falácia argumentum ad verecundiam ou de apelação à autoridade (ele é cientista então ele está certo)

Existe uma série de problemas com a propostade de Behe:
- Admissão rápida da existência de um ser existente que direcione o processo evolutivo, o próprio Behe diz que isso não é testável, "mas os ancestrais também não" (esquecendo-se de que houve o genoma do Neandertal refutando a idéia de que tenha sido um ancestral, mas uma espécie paralela há 200.000 anos) remetendo à falácia "tu quoque" e de petição de princípio (admissão da tese sem testá-la);

- Leva a mais perguntas que respostas: qual a motivação do agente inteligente? quem ele é? do que é feito? (todas não podem ser testadas e Behe admite isso);

- O fato de uma estrutura irredutivelmente complexa existir, não quer dizer que tenha sido direcionada a tal fato e aliás, não se pode testar (tautologia);

- Convencionismo: o fato de que uma estrutura ser irredutivelmente complexa SÓ PODE ser por um agente inteligente (chamamos de "wishful thinking")

- Behe esquece-se da relação da ancestralidade comum, embora não a negue, infere a não-ancestralidade, visto que trabalhos posteriores demonstram o erro de Behe frente à algumas estruturas, como o flagelo bacteriano, que teria funcionado sem algumas partes e além disso, a coagulação sanguínea, tão comentada por Behe, teria algumas enzimas ausentes em macacos, mas que funcionaria perfeitamente também.
As idéias de Behe foram rejeitadas a posteriori pela comunidade científica. As ideologias trazidas por Behe não fazem parte do escopo científico por serem abolutamente tautológicas, tal como faz o revisionismo histórico.

As idéias principais acerca do revisisionismo são:
- Questionar o número de vítimas do Holocausto;
- Questionar o modus operandi de eliminação sistemática dos judeus nos campos;
- Questionar a posição dos nazistas frente ao Holocausto e dos próprios judeus como vítimas do processo, embora não neguem o Holocausto (sic);
- Questionar a solução final.
As idéias que foram amplamente difundidas na Europa e EUA por Rudolf, Leuchter, Irving, Mattogno tiveram repercursão no Brasil a partir dos anos 90, onde a liberdade de expressão começou a fluir após o fim do regime militar (1985). As idéias foram divulgados por S.E. Castan(pseudônimo de Siegfried Ellwanger) através da sua editora Revisão (que foi fechada por apologia ao nazismo).

O revisionismo, como movimento, também tem problemas sérios frente as suas propostas que são todas a priori:

- O número de vitimas AINDA é desconhecido, muito pela ausência e destruição de arquivos e documentos sobre os judeus na Alemanha;
- É impossível negar não só as câmaras de gás, que foram amplamente discutidas pelo relatório Pressac, inclusive de pedidos que remetessem às câmaras, tanto quanto o Instituto Forense da Cracóvia que encontrou vestígios de CN, íon base do ácido cianídrico (HCN), base do pesticida Zyklon-B;
- Tentar mudar a visão de que o nazismo "não foi bem assim" não é apenas uma afronta aos estudos, é desonestidade das mais baixas, visto que há autores que já inferem a idéia de que "se os judeus foram presos, a culpa é deles" ou das teorias conspiratórias de que os judeus bolaram um plano maquiavélico onde teriam forjado/mentido provas para incriminar os nazistas;
- O quarto item já está colocado no terceiro.
Observa-se, portanto, que os revisionistas não têm interesse de construir uma nova história. Eles querem construir uma "nova história" sim, mas refutando, sem provas, todas as alegações anteriores e contruir uma nova baseada em evidência nenhuma. Ainda assim, houve uma oportunidade com os trabalhos de Leuchter, dignos de um amador, que nem sequer sabia fazer uma coleta e mesmo assim utilizou, através de uma empresa terceirizada, a análise das amostras que não encontraram vestígios de CN. O problema foi o método utilizado: "azuis de prússia" ou também chamado "azuis de ferro" onde se verificava apenas o CN estável, mas não o total. O trabalho foi refutado pelo Instituto Forense da Cracóvia e pelo químico Richard Green.

Se for feito uma análise sob à luz da refutabilidade de Popper são notados problemas sérios:

- Tautologia vigente e falácia de petição de princípio: as alegações sugeridas não foram postas à prova e são admitidas a priori, e mais além, não podem ser refutadas por falta de dados existentes.
- Também são rejeitadas pela comunidade científica.
Deve-se frisar que: ideologias não fazem parte do escopo da Ciência mas TEORIAS que foram propostas e mudadas ao longo do tempo, o que não acontece nem com o criacionismo de Behe e nem com o revisionismo histórico. Fora isso, são apenas tautologia e falácia.

Referências:

Kant, Imannuel. Crítica da Razão Pura. São Paulo: Martin Claret, 2009.
Popper, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 1972.
--------------. Autobiografia Intelectual. São Paulo: Cultrix, 1972.
Kuhn. Thomas. A Estrutura das Revoluções Científicas: São Paulo: Perspectiva, 2009.
Norris, Christopher. Epistemologia: conceitos-chave em filosofia. São Paulo, ArtMed, 2009.
Mortari, Cézar A. Introdução à lógica. São Paulo: Editora Unesp, 2001.
Tilghman, B. R. Introdução à filosofia da religião. São Paulo: Loyola, 1996.
Schopenhauer, Arthur. Como Vencer um Debate sem ter Razão em 38 estratagemas. Rio de janeiro: Topbooks, 2003.
Bastos, Cleverson Leite e Candiotto, Kleber B. B. Filosofia da Ciência. Rio de Janeiro, 2008.
Relatório Pressac: http://www.holocaust-history.org/auschwitz/pressac/technique-and-operation/
Greend, Richard. The Chemistry of Auschwitz. Visto em: http://www.holocaust-history.org/auschwitz/chemistry/
------------------. Leuchter, Rudolf and teh Iron Blues. Visto em http://www.holocaust-history.org/auschwitz/chemistry/blue/
sem autor. O que é revisionismo?. Visto em: http://www.vho.org/aaargh/port/vhocortada.html
Markievitz, Jan. A Study of the Cyanide Compounds Content In The Walls Of The Gas Chambers in the Former Auschwitz and Birkenau Concentration Camps. Visto em: http://www.holocaust-history.org/auschwitz/chemistry/iffr/report.shtml
Leuchter, Fred A. The Leuchter Report: the end of a myth. Visto em: http://www.ihr.org/books/leuchter/leuchter.toc.html

Autor: Ramon Diedrich

Observação: artigo sobre ciência e pseudociência
Ver mais:
Pseudociência 1
Pseudociência 2

Um comentário:

Leo Gott disse...

Muito bom esse artigo do Ramon.

Boa contribuição ao blog.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Ocorreu um erro neste gadget