sexta-feira, 17 de junho de 2011

O NSDAP no México: história e percepções, 1931-1940 - parte 1

O presente artigo se propõe a oferecer, baseando-se em documentação diplomática alemã inédita, uma análise histórica da função que cumpriu o Partido Nacional-Socialista alemão (NSDAP) no México, através de sua Organização para o Extrangeiro (AO), de 1934 até 1941. Abordaram-se algumas questões pouco estudadas, tais como em que medida o NSDAP teve êxito em conquistar ideologicamente as instituições culturais e sociais da comunidade alemã no México e a alinhá-las com o regime nazi do Terceiro Reich, e qual foi seu verdadeiro peso político em termos de afiliados e influência em todo o país. O trabalho também se propõe a indagar a verdadeira dimensão do perigo nazi no México e a estratégia do NSDAP no marco das conflitivas relações diplomáticas do México com a Alemanha nazi durante a presidência de Lázaro Cárdenas, do momento que eclodiu a Guerra Civil espanhola. O autor examina as medidas anti-nazis adotadas pelo governo mexicano antes do estouro da guerra mundial em relação a outros países latinoamericanos, e a atitude da Representação da Alemanha no México. Finalmente, apresenta-se uma descrição da atividade do NSDAP durante os primeiros anos da guerra e a reação do governo de Cárdenas, tomando em conta suas difíceis relações com os Estados Unidos até seu ingresso na conflagração mundial.

O partido

Em 1931 se fundou, sob o nome de Auslandsabteilung (Departamento para o Exterior), um departamento no Partido Alemão Nacional-Socialista (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, NSDAP) que reunia e gerenciava os membros do partido, cidadãos alemães em geral, que viviam fora da Alemanha. Até março de 1933 foi dirigido pelo deputado do Reichstag Hans Nieland, e depois por Ernst Wilhelm Bohle, nascido na Inglaterra e filho de um professor de universidade. A partir de fevereiro de 1934, o Auslandsabteilung passa a se chamar Auslandsorganisation (A0/Organização para o Extranjero). Em abril de 1935, a AO deixou de ser um departamento do NSDAP e se converteu em uma Gau (comarca) independente. Bohle ascendeu à posição de Gauleiter (chefe da comarca). No começo de 1937, Bohle deu outro passo adiante em sua carreira quando Hitler lhe nomeou Chefe da AO no Ministério de Assuntos Exteriores, com o status de StaatssekretÜr[1]. Tanto na hierarquia do partido como na do Estado, Bohle chegou a ocupar um segundo lugar[2].

Até 1930, só uns poucos alemães que se falavam no exterior entraram no partido nazi: 486 em todo o mundo, sete deles no México[3]. Os primeiros grupos foram fundados no início de 1931. O sucesso do NSDAP nas eleições de setembro de 1930 animou a muitos cidadãos alemães em todo mundo a se reunirem com simpatizantes e trabalhar para o partido[4]. No México, por falta de um líder apropiado - segundo lamentava a AO -, ninguém tomou a iniciativa e por isso se demorou na fundação de um grupo do partido[5]. Os membros do partido viviam isolados e sem contato entre si. A pedido da AO, os sete membros na capital fundaram o Ortsgruppe (grupo local) do México, D.F. em 10 de novembro de 1931, mas só uns meses mais tarde, com a nomeação do hábio e vivaz Wilhelm Wirtz como Ortsgruppenleiter (líder do grupo local), começou-se a desenvolver o partido no México. Em 1 de setembro, o Ortsgruppe contava com 52 membros, e em janeiro de 1933 já eram 68. A ascensão ao poder do partido Nacional-Socialista na Alemanha acelerou seu crescimento. Não obstante, diferentemente da Alemanha, onde a partir de maio de 1933 se impediu o ingresso de novos membros ao NSDAP, no exterior era quase sempre possível se tornar membro. Em janeiro de 1934 havia no México 191 membros, e em julho de 1935 eram 264. Nos anos seguintes o partido cresceu mais devagar; em junho de 1937 o número de membros ascendeu a 310, um ano mais tarde a 325, e no ano seguinte somavam 366[6]. Isso significava que aproximadamente 5% dos 6875 cidadãos alemães no México[7] pertencia ao NSDAP - um resultado promédio na AO.

O partido já não estava limitado à capital, e se extendeu por todo o país. Fundaram-se novos grupos, por exemplo em Mazatlán (20 membros), Veracruz (16), Monterrey (16) e Puebla (5)8, mas uma alta porcentagem dos membros, cerca de 40%, vivia na capital. Por seus méritos ao haver promovido o grupo local da capital, Wilhelm Wirtz se converteu em líder do Landesgruppe (grupo regional) do NSDAP do México e ocupou esta posição até início de 1940. Estando na Alemanha, o começo da guerra tornou impossível seu regresso ao México. Wirtz foi um dos poucos líderes da AO que permaneceu em seu cargo sem ser deposto. Nisto, o grupo regional do México mostrou uma rara estabilidade na história da AO, já que, em muitos casos, os grupos no exterior não cumpriam os requisitos da AO. Enquanto que outros líderes não tinham autoridade sobre os militantes, ou simplesmente não eram capazes de dirigir uma organização nacional, Wirtz conseguiu a unidade do partido e impediu querelas internas[9].

Dado o número de membros, o Landesgruppe do México era um dos menores grupos regionais da AO. Por exemplo, em 1939 tinha 1569 membros na Argentina, 2990 no Brasil - sendo ambos dois dos maiores grupos da AO - e 921 no Chile. Por isso, o grupo no México não tinha a mesma importância para a AO que tinham outros grupos: enquanto que em 1932 um enviado da AO visitou os grupos na Argentina, Brasil e Chile para inspecioná-los e apoiá-los em sua propaganda, ninguém foi ao México[10]. Do mesmo modo, nos primeiros meses de 1933, quando a AO intensificou o contato com os grupos na América Latina, os partidários no México se sentiram abandonados[11]. Finalmente, quando políticos e periódicos atacaram os grandes grupos nazis na América Latina, a AO defendeu com afindo os direitos dos alemães no exterior, até provocar atritos diplomáticos inclusive no México, e por conta disso, cedeu ante as pressões[12].

Os fundadores dos partidos nazis no exterior eram, em geral, homens nascidos em fins de século ou poucos anos depois. Experimentaram sua socialização política nos últimos anos da época do Kaiser e, quando lhes foi possível, participaram da Primeira Guerra Mundial. Rechaçaram a República de Weimar e, em mais de uma ocasião, uniram-se a tropas irregulares (Freikorps) e/ou entraram em grupos ou partidos de extrema-direita. Emigraram nos anos vinte por motivos econômicos, porque não conseguiram se integrar na vida civil da Alemanha e consolidar sua existência ali. O país de destino dependia mais da casualidade que de projetos concretos. Poucos emigrantes conseguiram se estabelecer rapidamente. Costumavam mudar muitas vezes de trabalho, para finalmente encontrar, depois de vários anos, um posto que lhes permitisse viver sem problemas de subsistência[13]. Um exemplo deste tipo de pessoas é Artur Dietrich[14]. Nascido em 1900, por sua juventude não pode combater na guerra até finais de 1917. Em 1921 esteve numa tropa irregular na Silésia. Seu diploma em agricultura, obtido em 1922, possibilitou-lhe aceitar uma oferta para ir ao México em 1924. Depois de uma série de falidos intentos na administração fazendária, em 1930 começou a trabalhar como empregado de um comerciante de artigos dentais, emprego que desempenhou nos anos seguintes. Dietrich ingressou no partido em novembro de 1931, quando se fundou o grupo local na capital. Em 1933 foi nomeado líder do Ortsgruppe e, pouco mais tarde, aceitou substituir a Wirtz e - para o Ministério de Propaganda de Goebbels, que também tinha sob seu encargo a propaganda no exterior - foi conselheiro de imprensa da Representação da Alemanha no México.

Fonte: El NSDAP en México: historia y percepciones, 1931-1940
Autor: Jürgen Müller; Universitdt Kóln
Tradução: Roberto Lucena

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