terça-feira, 26 de maio de 2009

São confiáveis as memórias de Hoess? - Parte 1 - Introdução

Por John C. Zimmermann
Professor Associado da Universidade de Nevada, Las Vegas

Uma das questões que tem surgido no âmbito do Holocausto é a confiabilidade do depoimento de testemunhas oculares. Os negadores do Holocausto estão sempre atacando as testemunhas como mentirosos ou pessoas propensas ao exagero. Não pode haver dúvida de que nem todos os depoimentos de testemunhas oculares são confiáveis. Além disso, é verdade que algumas testemunhas mentem ou exageram.

O principal problema com os testemunhos no entanto, é que muitas vezes, são inconsistentes no que diz respeito aos detalhes. Isso não é incomum. Qualquer advogado processual sabe que existem diferenças na maneira como as testemunhas vêem um evento. Mas, apesar das testemunhas poderem diferir quanto aos detalhes de um evento, raramente elas estão erradas quanto ao evento em si. Assim, as testemunhas para o número de pessoas que foram gaseadas na câmara de gás do Crematório I de Auschwitz informam montantes variáveis como: 600, 700, 900 e 1000.[1] Os negadores do Holocausto exploram as diferenças neste tipo de depoimento, alegando que se existem diferenças quanto ao número de pessoas que foram gaseadas, então deve haver dúvidas quanto a saber se o evento ocorreu.

Os historiadores do Holocausto não tem evitado a questão da credibilidade desses testemunhos. O falecido historiador do Holocausto Lucy Dawidowicz escreveu:
Milhares de histórias orais dos sobreviventes recontando suas experiências existem em arquivos de vários países ao redor do mundo. A sua qualidade e utilidade varia significativamente de acordo com a memória do informante, compreensão do evento, idéias e naturalmente precisão. Quanto maior o tempo expirado [entre o evento e os depoimentos], é menos provável que o informante mantenha fresca a recordação. Os depoimentos transcritos que eu examinei estavam cheios de erros de data, nomes dos participantes, locais, e são evidentes os equívocos aos eventos propriamente ditos. Para os pesquisadores incautos alguns relatos podem servir mais para atrapalhar do que ajudar.[2]
O negador do Holocausto Mark Weber citou incorretamente um relatório do diretor dos arquivos de testemunhos em Israel, declarou que mais da metade dos 20.000 depoimentos que estão nos arquivos não são confiáveis.[3] Um artigo atual citou o diretor dizendo que muitos testemunhos, não a maioria, são inexatos.[4] Weber não revelou que com raiva o diretor negou a declaração atribuída a ele. Schmuel Krakowski, o diretor escreveu: “Eu disse que existem alguns – felizmente poucos – testemunhos que se revelaram inexatos”.[5]

Como pode então a confiabilidade destes depoimentos serem avaliados? Um bom método consiste em comparar a outros testemunhos sobre o assunto. É o testemunho global, coerente quando comparado a outros testemunhos sobre o mesmo evento? Outro método consiste em comparar o testemunho a outras evidências corroboradas. Existe alguma prova documental que suporta o testemunho? Por exemplo, Miklos Nyiszli era um médico judeu que fez parte dos deportados húngaros que foram transportados para Auschwitz, de maio a junho de 1944. Suas memórias foram escritas em Março de 1946 e publicadas em Budapeste em 1947. Uma cópia original em húngaro está na biblioteca principal da UCLA. Eles foram traduzidos para o inglês em 1960. Nyiszli serviu como prisioneiro médico para o famoso [Dr.] Joseph Mengele. Ele testemunhou sobre os corpos de vítimas mortas por gaseamento e as cremações de corpos nos Crematórios. Ele também assistiu a cremações ao ar livre para eliminação das vítimas assassinadas. Como pode ser avaliado o seu testemunho? Seu testemunho pode ser classificado como depoimento de vítima, o essencial pode ser comprovado por outras vítimas. Perpetradores também comprovam os aspectos essenciais de seu testemunho.[6] Mas hà outras provas onde a veracidade de seu testemunho pode ser avaliado. Nyiszli escreveu que, quando ele estava em Auschwitz, havia 860 prisioneiros de comandos especiais [Sonderkommando] designados para dispor das vítimas assassinadas nos quatro crematórios.[7] Este é um número muito grande e é coerente com o que as autoridades do campo tinham para dispor das vítimas que estavam sendo assassinadas em massa. Uma lista de empregados do campo datada de 29 de agosto de 1944 mostra 874 trabalhadores especiais [Sonderkommando] atribuídos aos quatro crematórios. Eles são divididos equitativamente entre as instalações e divididos novamente em turnos, diurno e noturno.[8] Assim, o testemunho de Nyiszli é muito credível baseado nesta corroboração.

Rudolf Hoess

Rudolf Hoess foi comandante de Auschwitz durante a maior parte da existência do campo. Suas memórias revelam que ele ocupava uma posição única na história da implementação nazista da solução final da questão judaica.[9] Ele era intermediário entre quem ordenou o assassinato dos judeus e os que executaram a política. Assim, ele pôde testemunhar a solução final de ambos os lados. Ele relata como Heinrich Himmler, segundo na autoridade global do III Reich, disse a ele (27-28) que Hitler tinha ordenado que todos os judeus dentro do alcance nazista deveriam ser aniquilados.

As memórias de Hoess são divididas em duas partes, que foram invocadas e citadas por historiadores desde a sua publicação em 1959. A primeira parte é intitulada A Solução Final da Questão Judaica e é datada de novembro de 1946. Aqui ele detalha como a maquinaria de extermínio de Auschwitz foi desenvolvida. Deve salientar que seu relato está de acordo com outros testemunhos de vítimas e de perpetradores.[10]

A segunda parte das suas memórias, datada de fevereiro de 1947, lida com a sua origem através da hierarquia nazista e de alguns problemas administrativos que enfrentou em Auschwitz. Aqui ele revela (142) uma ordem de 1941 que “[t]odos os judeus, sem exceção deveriam ser destruídos.” Existe um capítulo separado sobre gaseamento (155-164), mas não é dado muito detalhe como no capítulo da solução final.

Por razões óbvias, os negadores do Holocausto estão escoriando estas memórias durante anos, argumentando que elas não valem nem o papel em que foram escritas. O argumento típico é que Hoess foi torturado e falsamente confessou os crimes que não foram cometidos. Hoess escreveu estas memórias enquanto estava no cativeiro polonês. No entanto, sabemos que ele foi torturado por seus captores britânicos antes de ser entregue para os poloneses. O que os negadores nunca revelam é que sabemos disso porque Hoess afirmou isso em suas memórias. Se houve uma tentativa por parte de seus captores poloneses para falsificar essas memórias ou fazê-lo mentir, esta informação nunca apareceu. Hoess explica (179):

Durante o primeiro interrogatório bateram-me para obterem provas. Eu não sei o que estava transcrito, ou o que eu disse, apesar de eu ter assinado, porque eles me deram licor e me bateram com um chicote. Foi demais para que eu pudesse suportar.

Parece que o tratamento duro foi causado por sargentos judaicos cujos pais tinham morrido em Auschwitz. Um sargento judeu alegou que Hoess admitiu sem um pingo de remorso que ele havia sido responsável por cerca de dois milhões de mortes. No entanto esse mesmo sargento falou sobre as cartas de Hoess para sua esposa. “Às vezes um caroço vem na minha garganta. Havia dois homens diferentes em um homem. Um deles era brutal, sem respeito pela vida humana. O outro era ameno e carinhoso“.[11]

Hoess foi levado ao Tribunal Militar Internacional [NT.: Tribunal de Nuremberg] para depor, porque o advogado de defesa de um dos acusados de crimes de guerra Ernst Kaltenbrunner, o antigo chefe do Escritório Central de Segurança do Reich, queria-o como testemunha. Hoess escreve (180) que, comparado ao que tinha sido antes, “uma prisão como a do TMI foi como ficar em um SPA.” Ele então foi entregue aos poloneses para ser julgado em Cracóvia, na Polônia. Ele descreve (181) sua primeira semana na prisão como “bastante tolerável”. No entanto, as atitudes dos guardas mudaram para pior. Tanto ele como prisioneiros poloneses foram maltratados. O gabinete do Promotor interveio e as coisas mudaram. “Tenho de confessar abertamente que eu nunca teria esperado ser tratado de forma tão decente e gentil em uma prisão polonesa, como tenho sido desde a intervenção do gabinete do Promotor.” A surpresa de Hoess provinha, sem dúvida, do fato de que cerca de 300.000 poloneses, na sua maioria judeus, pereceram em Auscwitz.

A confiabilidade destas memórias pode ser testada comparando-as com provas independentes que foram corroboradas. Todos os testemunhos das principais testemunhas oculares sobre Auschwitz corroboram as memórias de Hoess. Pery Broad, um homem da SS que servia em Auschwitz enquanto Hoess foi comandante, escreveu sobre as câmaras de gás e os crematórios, em suas memórias.[12] Do mesmo modo, são confirmadas também pelo diário que foi mantido pelo médico SS em Auschwitz Johann Kremer.[13] Os depoimentos do pós-guerra das vítimas e dos perpetradores no julgamento de Belsen em 1947 e de muitos guardas que serviram em Auschwitz são também provas corroboradas.[14] Houve também uma grande parte de testemunhos de vítimas e perpetradores no Julgamento de Auschwitz em Frankfurt, Alemanha, em meados dos anos 1960 e também de 20 réus que estavam servindo no campo. [15]

No caso de Auschwitz, hà também uma grande quantidade de provas documentais que sobreviveram, que sustenta as memórias de Hoess em todos os detalhes. A análise seguinte analisará esta documentação para testar a confiabilidade de suas memórias.

Notas desta parte:

[1] Franciszek Piper, "Gas Chambers and Crematoria" in Yisrael Gutman and Michael Berenbaum, Anatomy of the Auschwitz Death Camp (Bloomington: 1994), p. 177, fn. 18.
[2] Lucy Dawidowicz, The Holocaust and the Historians (NY:1981), pp. 176, 177, fn. 1.
[3] Mark Weber, "My Role in the Zundel Trial," 9 Journal of Historical Review No. 4 (Winter 1989/1990), p. 405.
[4] Jerusalem Post, August 17, 1986, p. 1.
[5] Jerusalem Post, August 21, 1986, p. 10. See also the Nizkor file http://www.holocaust-history.org/crosslink.cgi/http://www.nizkor.org/ftp.cgi/people/k/krakowski.shmuel/press/jerusalem-post.0886.
[6] The area of victim and perpetrator testimony in light of corroborating evidence in the Holocaust will be thoroughly examined in John C. Zimmerman, Holocaust Denial: Demographics, Testimonies and Ideologies, Chapters 5 and 6. Forthcoming.
[7] Miklos Nyiszli, Auschwitz: A Doctor's Eyewitness Account (NY:1993), p. 41.
[8] Danuta Czech, Auschwitz Chronicle (NY:1990), p. 699.
[9] Rudolf Hoess, Death Dealer: The Memoirs of the SS Kommandant at Auschwitz (NY:1992). Edited by Steven Paskuly and translated by Andrew Pollinger. Citations to this source will appear in the text smaller and in a different face, e.g.: (27-28).
[10] See the source cited in note 6 above.
[11] Rupert Butler, Legions of Death (Feltham:1983), pp. 237, 238.
[12] Text of Pery Broad's "The Reminiscences of Pery Broad," in Jadwiga Bezwinska and Danuta Czech, Eds., K L Auschwitz Seen by the SS (NY:1984). Abridged text in Bernd Naumann, Auschwitz (NY:1966), pp. 162-183.
[13] Text of Kremer's diary and his explanations of the entries in Bezwinska and Czech, ibid pp. 214-231. For a comprehensive analysis of Kremer's diary entries and denier portrayal of those entries see Chapter 4 of the source cited in note 6 above.
[14] Text of this testimony is in David Fyfe, The Belsen Trial of Joseph Kramer and Forty Four Others (London: 1949).
[15] For an analysis of all the testimony at the Auschwitz trials in the mid 1960s see Bernd Naumann, Auschwitz (NY:1966). Naumann was a journalist who covered the trial. This is the only comprehensive analysis of the trials in English. The transcripts of the hearings were published in Hermann Langbein, Der Auschwitz Prozess: eine Dokumentation (Wien:1965) 2 vols.

Fonte: The Holocaust History Project
http://www.holocaust-history.org/auschwitz/hoess-memoirs/; Link 2
Autor: Prof. John Zimmermann
Tradução: Leo Gott

Sequência:
São confiáveis as memórias de Hoess - Parte 2 - Hoess sobre gaseamentos e assassinatos em massa

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