sábado, 5 de junho de 2010

Número de judeus húngaros gaseados na chegada a Auschwitz


(Esta é uma pequena atualização de um artigo anterior publicado por mim em outro lugar)

Tradicionalmente historiadores têm assumido que cerca de 400.000 judeus húngaros foram gaseados imediatamente após a chegada em Auschwitz, cerca de 90% de todos os judeus que foram deportados da Hungria.

No livro de 2002 Das Letzte Kapitel os historiadores alemães Christian Gerlach e Goetz Aly introduziram (mas não publicaram) um documento que nos auxilia a avaliar melhor o número de judeus húngaros que foram deportados para Auschwitz, mas que não foram gaseados imediatamente na chegada.

O documento está nos arquivos do Yad Vashem. E pode ser visualizado online aqui: HTTP://www.zchor.org/hungaria.htm.

É a “Lista de transporte (homens) para o campo de concentração Auschwitz II Birkenau, que chegaram entre 16 de Maio e Setembro de 1944” ("Zusammenstellung der in der Zeit vom 16.V. bis 20.9.1944 im Konzentrationslager Auschwitz II Birkenau eingetroffenen Transporte /Maenner/"). Segundo o documento, que foi emitido no dia 5 de agosto de 1945 em Lambach, e Leo Glaser, Diretor da Companhia Austríaca de Seguros em Viena ("Direktor der Versicherungsanstalt der österreichischen Bundesländer, Wien") confirmou a correção.

De acordo com carta de Glaser que está anexada à lista, esta foi enviada à autoridade americana em Linz, quando do julgamento de Belsen.

A página 6 do documento consiste no número de judeus homens selecionados para o trabalho que chegaram a Auschwitz nos transportes de maio a setembro de 1944. O seu valor consiste no fato de que as listas não têm só os judeus registrados, mas também o chamado “depósito de judeus” (Durchgangsjuden), que não eram mortos na chegada e nem registrados na chegada.

Quem foi Leo Glaser? Michael Mel, que escreveu uma nota nesta pesquisa online, atesta:

Eu deixei Glaser na véspera do Natal de 1944 em Auschwitz, na primeira marcha de evacuação para Loeslau (Wodzislaw Slaski). No período de 9 de julho a 24 de
dezembro de 1944 eu era um corredor (Laeufer) do Capo Kleiderkammer, ninguém
menos que Leo Glaser
.

Em pesquisa no DVD Der Auschwitz-Prozess.Tonbandmitschnitte, protokole und Dokumente (Berlim, Directmedia Verlag, 2004) podemos encontrar mais informações sobre Glaser. Na declaração de Wilhelm Boger feita em Ludwigsburg em 5 de julho de 1945, Leo Glaser foi identificado como uma pessoa que poderia dar informações confiáveis sobre o trabalho de Boger no campo e seu comportamento em relação aos presos; Boger deu vários detalhes específicos sobre a biografia de Glaser, paradeiro e família. Em uma declaração feita em Hamburgo, em 3 de dezembro de 1959, Kurt Knuth-Siebenlist alegou que Leo Glaser, um ex-Kapo do “Häftlingsbekleidungskammer em Birkenau”, que viveu em Viena, poderia fornecer mais detalhes sobre o comportamento de Pery Broad no campo. O Dr. Otto Wolken testemunhou durante o 20º dia do Julgamento de Auschwitz em Frankfurt (27 de fevereiro de 1964) sobre um determinado vienense, Kapo Glaser da “sauna” que lhe deu um par de sapatos certa vez.

Então, Leo Glaser estava em posição de fazer esta lista, uma vez que era o responsável por vestir os deportados que chegavam. No geral a confiabilidade de sua lista poder ser estabelecida em comparação com outras fontes conhecidas, como Auschwitz Chronicle de Danuta Czech. À partir dessa última comparação temos que os números de prisioneiros registrados correspondem exatamente ou muito perto de Czech, em muitos casos (ver tabela no final deste artigo). Por outro lado, muitos dos transportes constantes da lista de Glaser não são mencionados por Czech e vice-versa. Isso não prova que a lista de Glaser não é confiável, porque não devemos assumir que temos todas as informações sobre os transportes.

Como sabemos que Glaser não menciona os transportes efetivos em sua lista, podemos assumir que sua lista de transporte dos húngaros está completa? A lista mais completa até agora – lista de transporte dos húngaros passando por Kosice – contém 136 registros para o período de 14 de maio a 9 de julho. A lista de Glaser tem 142 registros para o período de 16 de maio a 11 de julho (Gerlach e Aly erroneamente declararam que 141 transportes estão listados; se desconsiderarmos dois registros que indicam que 3 e 5 judeus foram selecionados, então existem 140 transportes, se levarmos em conta, então temos 142 transportes). Assim, a informação de Glaser parece ser a mais completa informação disponível sobre os transportes húngaros.

Gerlach e Aly verificam a confiabilidade de Glaser de outra forma. Eles se referem ao testemunho de Otto Robicsek, que foi expulso de Oradea em 26 de junho de 1944, e em seguida, foi selecionado para trabalho forçado em Auschwitz juntamente com um grupo de 106 homens. Na verdade, um comboio com 206 homens aparece 3 dias depois na lista de Glaser (3 dias representa o tempo médio do trânsito dos trens). Existe também uma correspondência entre a lista de Glaser e as listas de Kosice. Por exemplo, ha uma pausa nas deportações entre 16 de junho e 25 de junho, nas listas de Kosice e entre 18 de junho e 27 de junho na lista de Glaser.

Segundo Gerlach e Aly, 55.937 judeus homens da Hungria foram selecionados para o trabalho entre 16 de maio e 11 de julho. Após examinar o documento, fica claro que os autores estão errados, apenas cerca de 52.000 judeus húngaros estão listados para esse período.

Glaser afirma em sua carta que “o número de mulheres que chegaram é quase o mesmo que os homens, se não for um pouco mais alto.” Os autores argumentam que, se os homens judeus constituíam 50% de todos os judeus húngaros selecionados para o trabalho, cerca de 110.000 judeus húngaros foram selecionados para o trabalho.

Eles provam que a sua hipótese é razoável, referindo-se a um relatório de Oswald Pohl para Himmler de 24 de maio de 1944, segundo o qual 50% dos judeus selecionados para trabalhar eram mulheres. Eles também listam outras evidências, apoiando sua tese. Por exemplo, eles se referem a uma declaração apresentada por Dieter Wisliceny, que afirmou que 458.000 judeus húngaros foram deportados para Auschwitz durante a ação húngara (este número é muito alto) e que 108.000 deles foram selecionados para o trabalho. Segundo os autores, tanto Hoess e Wisliceny estimaram no pós-guerra que de 25 a 30 por cento dos judeus húngaros foram selecionados para o trabalho.

Gerlach e Aly citam que os 4 transportes redirecionados para Strasshof consistiam em cerca de 15.000 judeus húngaros. Presumindo que o número de Veesenmayer de 437.402 judeus está correto, e subtraindo os 15.000 que foram para Strasshof e 104.000 judeus não gaseados na chegada, e arredondando o resultado, podemos concluir que cerca de 320.000 judeus húngaros foram gaseados na chegada, e não cerca de 400.000, como tem sido assumido pelos historiadores até recentemente.

Claro que, muitos judeus selecionados para o trabalho morreram mais tarde por causa das condições cruéis em outros campos. E muitos dos Durchgangsjuden também não escaparam das câmaras de gás vindo de Staerkemeldungen, , em que o Sonderbehandlung também foi aplicado para o “depósito de judeus”.


Diante do exposto, o total de judeus mortos em Auschwitz está mais perto de 900.000 e o total de mortos está mais perto de 1.000.000. O Prof. Robert Jan van Pelt profeticamente escreveu em seu relatório de 1999, como perito no Julgamento de Irving X Lipstadt:

Como um acadêmico sobre a história de Auschwitz, eu revi a metodologia do
Dr.Piper e suas conclusões, tanto na conversação, através do estudo dos seus
escritos, e por considerar as provas que apresentou, e estou plenamente convicto
de aderir ao consenso acadêmico que ele matou o assunto. E enquanto não é
impossível que em algum momento futuro, eles poderão ser revistos, se, por
exemplo, tivermos mais informações disponíveis sobre o número de
Durchgangsjuden, eu não espero que essa revisão vá além do alcance de cerca de
10 por cento. Mesmo se o número total de vítimas judias de Auschwitz se
aproximar dos 900.000 ou 1.000.000, Auschwitz irá permanecer no centro do
Holocausto, e como tal, o provável foco dos negadores do Holocausto.

Para maiores informações sobre a lista de Glaser, ver as notas de pesquisa de Michael Honey.

(Ver tabela original no link da fonte)

Fonte: Holocaust Controversies

Ver também:
Números do Holocausto - Ciganos (Estimativa do número de mortos)
Números do Holocausto - Estimativa de judeus mortos
Números do Holocausto por Raul Hilberg
5 milhões de vítimas não judias? (1ª Parte)
5 milhões de vítimas não judias? (2ª Parte)
Auschwitz e os números de mortos (por Robert Jan Van Pelt)
Números de vítimas do Holocausto por país em relação aos números da populaçao de 1937

2 comentários:

Julia disse...

Eu adorei esse blog.Vai me ajudar muito no trabalho de história, que tenho que fazer sobre o Holocausto.
Parabéns, pelo blog. Espero que continue assim.

Roberto Lucena disse...

Julia, primeiramente em nome de todos muito obrigado pelo elogio. Pode vasculhar o blog à vontade que vai achar algo pro trabalho de História sobre o tema.

Sugiro que dê uma olhada também no canto esquerdo dele que é onde ficam os links fixos como o Sumário, só que falta uma atualização mais ampla nele. Tem a atualização dos principais posts de 2007 e uma parcial dos de 2008 (com os números do Holocausto). Abs.

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