domingo, 17 de julho de 2011

Jan Gross, autor do livro "Vizinhos": "O nazismo pôs uma categoria de vítimas contra as outras"

Jan Gross, autor do livro "Vizinhos"
que desnudou a verdade dos fatos.
Vizinhos não foi o único livro de Jan T. Gross (Varsóvia, 1947) em provocar uma polêmica em seu país natal. Em 2006, sua investigação Medo. Antissemitismo na Polônia depois de Auschwitz havia contribuído com o debate. Centrado nos pogrons contra judeus uma vez finalizada a Segunda Guerra Mundial, Gross estima que, dos mais de 200 mil que regressaram à Polônia, uns 3000 foram assassinados. Em 2008, as autoridades judiciais polonesas interpretaram o livro Medo à luz do artigo 132 de seu Código Penal, que castigava até com três anos de prisão a quem "publicamente caluniasse a nação polonesa como partícipe, organizadora ou responsável pelos crimes nazis ou comunistas". Um artigo que inclusive foi chamado ironicamente de "Lei Gross", já que foi criada depois da polêmica em torno de "Vizinhos". Os promotores se recusaram a iniciar uma investigação e mais tarde o artigo foi vetado como anticonstitucional. Gross acaba de publicar outro livro irritante para o status quo polonês: Colheita Dourada, sobre o enriquecimento às custas dos judeus assassinados durante o Holocausto.

-Porque você crê que na Polônia não há um sentido de responsabilidade coletiva por esses crimes, sem prejuízo de que seja inegável que os poloneses também foram vítimas do nazismo?

-Na Polônia, a narrativa principal sobre as experiências da Guerra é a vitimização, e é correta, porque a ocupação nazi foi extraordinariamente brutal, especialmente nos países eslavos. Trataram-nos como escravos, para a escala racial nazi eram Untermensch, subumanos. E os judeus estavam na escala mais baixa. O nazismo teve sucesso em pôr uma categoría de vítimas contra a outra, apoiado em um antissemitismo tradicional na Polônia, e por isso seu incentivo em cometer atos como os de Jedwabne funcionou. Isto evidentemente não se adequa com a narrativa heróica dos poloneses, que é também correta: a resistência foi mais elaborada e complexa que qualquer outra na Europa sob ocupação. Como compatibilizar esta narrativa da resistência com o fato de que, quando os nazis de alguma maneira "instigaram" a população a se juntar à espoliação dos judeus, a população se juntou, inclusive até ocasionalmente assassinando-os? É muito difícil de admitir. Por outro lado, há que reconhecer que a Polônia é o único país do Leste Europeu em aceitar esta discussão. A população de outros países do leste se comportou em relação a seus judeus de maneira parecida ou inclusive pior, e lá não há uma intervenção historiográfica para discutir esta questão.

-Qual reflexão lhe inspira o 70° aniversário do massacre de Jedwabne?

-A Polônia é muito diferente agora que há dez anos atrás, creio que há uma maior consciência entre os historiadores, mas também em outros seguimentos da sociedade, de que as relações entre poloneses e judeus durante a Segunda Guerra não foram o que deveriam ter sido. Não há muito mais que fazer, exceto refletir e guardar algum tipo de luto pela morte de tantos compatriotas que nunca tiveram um duelo apropiado. E espero que, à medida que histórias como esta venham à luz e sejam melhor entendidas, que sejam reconhecidas como parte central da história polonesa: não como algo que se passou com "os judeus", senão com toda a população.

Fonte: lanacion.com(Argentina)
http://www.lanacion.com.ar/1389900-el-nazismo-puso-a-una-categoria-de-victimas-en-contra-de-la-otra
Tradução: Roberto Lucena

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