quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Tão liberal e tão amigo de Salazar. (Hayek, Liberalismo)

Tão liberal e tão amigo de Salazar.
O lado obscuro e "oculto" da relação entre Fascismo e Liberalismo


Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, é um liberal, dizem os jornais de todo o mundo. Prova de liberalismo, além da não irrelevante ação como primeiro-ministro da Polônia: escreveu, nos seus anos de formação, ensaios a incensar o liberal Friedrich Hayek. Como o mundo é pequeno…

Esta genealogia de Tusk convida a que estudemos os pergaminhos do liberalismo moderno para o perceber. E Hayek é, de facto, Tusk tem razão, um dos mais qualificados guias para esse percurso: foi uma das figuras marcantes do renascimento de uma estirpe especial do neoliberalismo do século XX, muito marcada pela Guerra Fria, e aliás muito pouco liberal no que diz respeito às liberdades.

Que o liberalismo é ou pode ser pouco liberal, é um facto bem conhecido dos historiadores. Um saboroso episódio pouco conhecido em Portugal revela essa ambiguidade essencial: Friedrich Hayek, esse guru do liberalismo moderno, escreveu em 1962 uma carta a Salazar, explicando a motivação para o envio anexo do seu livro The Constitution of Liberty, que o devia ajudar “na sua tarefa de desenhar uma Constituição que previna os abusos da democracia”. Mesmo considerando o prestígio a que Hayek se veio a alcandorar mais tarde, em particular depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Economia (em 1974, ex-aequo com Gunnar Myrdal, por um óbvio efeito de balanceamento político), este episódio revela uma atitude perante a liberdade e o Estado, incluindo uma ditadura, que é mais expressiva do que qualquer distinção honorífica.

Hayek voltou a este tema numa carta ao diário The Times em 1978, registrando que, na sua opinião, tem havido “muitas instâncias de governos autoritários em que a liberdade pessoal está mais segura do que em muitas democracias. Nunca ouvi nada em contrário quanto aos primeiros anos do governo do Dr. Salazar em Portugal e duvido que haja hoje em qualquer democracia da Europa Oriental ou nos continentes da África, América do Sul e Ásia (com a exceção de Israel, Singapura e Hong Kong) uma liberdade pessoal tão bem protegida como acontecia então em Portugal”. Estas relações entre várias ditaduras e Hayek, incluindo a de Salazar, foram estudadas por autores como o economista Brad DeLong ou o cientista político Cory Robin.

Das demonstrações desta virtude, há no entanto um episódio ainda mais conhecido, a relação entre Hayek e Pinochet. Tendo visitado o Chile quando a ditadura estava bem estabelecida – e os seus desmandos estavam demonstrados e eram públicos e notórios – Hayek expressou a sua adesão à nova ordem numa entrevista ao principal jornal do regime, o El Mercurio, a 19 de abril de 1981 (em que volta a falar de Salazar, para lamentar que ele não tenha prosseguido o que fora um “bom começo”). Nela declarava sem ambiguidades que “a democracia precisa de uma boa limpeza por um governo forte”. Uma boa limpeza. A sua atitude não deixou dúvidas e as palavras foram cuidadosamente escolhidas: “Como compreenderão, é possível a um ditador governar de modo liberal. E também é possível a uma democracia governar com total falta de liberalismo. Pessoalmente, eu prefiro um ditador liberal a um governo democrático a que falte liberalismo.”

Estive no Chile pouco tempo depois desta entrevista e os resistentes com quem trabalhei sabiam bem o que queria dizer Hayek: “uma boa limpeza por um governo forte” começava na tortura no Estádio Nacional e nas masmorras da Marinha. A preferência era indiscutivelmente elegante, Hayek gostava de uma “boa limpeza” à Pinochet. Nos mesmos anos, isso não impediu Margaret Thatcher, chefe do governo britânico, de considerar Hayek o seu guia espiritual (e ela governou quando o homem ainda vivia e visitou Pinochet).

Passaram décadas e, tudo esquecido, temos Tusk, homem do mundo, que começou por Hayek e agora preside ao Conselho Europeu. Merkel tem os seus peões no sítio e, sabendo que nada a liga a este passado hayekiano a não ser a ideologia econômica, não deixa de ser revelador tal facilidade de identificação com quem teve sempre tanto desinteresse pelas liberdade.

Fonte: Público (Portugal)
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2014/09/02/tao-liberal-e-tao-amigo-de-salazar/
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Atualização e revisão: 04.09.2014

Ler o comentário aqui:
Tão liberal e tão amigo de Salazar (Complemento)

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