sábado, 17 de janeiro de 2009

Auschwitz, anatomia de um campo de morte

Nota escrita por Arlynn Nellhaus na edição internacional do Jerusalem Post de 28/1/95*

O livro Anatomia de Auschwitz - Campo da Morte(Anatomy of the Auschwitz Death Camp) foi editado por I. Gutman e Michael Berenbaum (este último é Diretor do Instituto de Investigações do Holocausto dos Estados Unidos) e tem sido publicado pelo Museu Memorial do Holocausto, situado em Washington DC e pela Imprensa Universitária de Indiana. O que pode acrescentar este livro ao que já é sabido sobre os campos de extermínio? Gutman escreveu a introdução deste livro e disse: "Depois de 50 anos os fatos se converteram em história, mas o Holocausto retorna e retorna de vez em quando, e nos segue perturbando. Apresenta problemas e reflexões que nos implicam e comprometem. Define o modo em que visualizamos o mundo. Pensamos que já ouvimos tudo quando algo emerge, como por exemplo, uma informação nova sobre um alto oficial que foi Secretário Geral das Nações Unidas ou aparece um novo filme que nos mexe."

O título do livro é totalmente adequado. Seus vinte nove capítulos contém uma exposição lúcida e crítica sobre Auschwitz. Nathan Cohen, investigador que contribuiu com um capítulo de Anatomia de Auschwitz - Campo da Morte, assinala que é o primeiro livro escrito sobre este tema depois de finalizada a Guerra Fria. Os investigadores colaboradores do livro são provenientes de distintos países, incluída a Polônia, e se teve acesso à documentação até agora desconhecida. Alguns dos autores são desde muito tempo amplamente conhecidos no mundo da língua inglesa, tais como Raul Hilberg, Martin Gilbert, Robert Jay Lifton, David Wyman, Amy Hackett. Alguns dos colaboradores são, como Israel Gutman, sobreviventes.

Gutman destaca que Auschwitz não foi só para judeus: "De um lado estava o campo de concentração para prisioneiros poloneses e de outras nacionalidades. Do outro estava Birkenau, destinado a judeus, onde a humanidade não existia. Birkenau era o pior com seu crematório... Era o lugar mais terrível." Havia outro campo: Buna. Em outros quarenta campos satélites se trabalhava para a indústria alemã: Siemens-Schuckert, Hermann Goring. Em outros campos se trabalhava nas minas. 90% das vítimas de Auschwitz foram judeus. O livro fala sobre a vida dos "prisioneiros", o modo de se relacionar na vida diária, os problemas cotidianos e sobre como um ser humano pode sobreviver em Auschwitz. A aparente falta de resistência com frequência confunde os judeus que não passaram pela experiência do Holocausto. Gutman destaca que num mundo carente de regras humanas, a palavra resistência cobra um significado distinto. Existiam duas linhas de resistência. Uma passava pela ajuda mútua. Para uma pessoa se comportar como um ser humano nessas circunstâncias já era uma expressão de resistência. A outra forma de resistência consistia em obter informação proveniente do mundo exterior. Para os judeus escaparem era algo especialmente dificultoso, dado que eram obrigados a vestir vestimentas distintivas. Na mudança os poloneses tinham acesso ao mundo exterior. Estavam em contato com a Resistência e tinham possibilidades de escapar.

Mas a verdadeira revolta foi a que foi realizada pelo "Sonderkommando" (judeus que trabalhavam no crematório), os que se destacaram num crematório e conduziram a uma fuga. Gutman fala com tom doutoral e que pese a ser ele mesmo um sobrevivente, fato este que por muitos anos ele não mencionou a seus estudantes. Aos 71 anos tem um olhar travesso e generoso de um avô, que o é, de uma pequena neta.

Apesar de suas vivências, Gutman vê o Holocausto como "um sucesso universal decisivo no desenvolvimento da sociedade humana: é importante se dar conta que algo assim é possível que ocorreu na desenvolvida Europa; que Auschwitz foi implementado por uma sociedade desenvolvida, por uma nação com um grande nível cultural. Para o desenvolvimento espiritual do homem, o Holocausto é uma experiência devastadora para o gênero humano." Creem que a recente proliferação de Museus do Holocausto em quase todo o mundo é para o bem. "São intentos de se tratar de entender o que ocorreu, de se tratar de entender o comportamento de uma sociedade organizada em períodos de crises, desde os pontos de vista dos cidadãos e dos políticos. Há que alentar todos os intentos de aprendizagem e por isso há que se alentar a fundação destes Museus."

Israel Gutman é Diretor de Yad Vashem e opina: "Yad Vashem encarna a primeira e mais profunda expressão da tragédia judia, o centro de investigação por excelência." Gutman se educou na Polônia e pertenceu ao Movimento Sionista. Tinha 16 anos quando estourou a Segunda Guerra Mundial e quase em seguida foi confinado no Gueto de Varsóvia. Sobreviveu ao levante do Gueto e, aos 21 anos, foi enviado à fábrica metalúrgica em Auschwitz. Apesar dos perigos, tomou parte da revolta organizada pelos Sonderkommando. Somente a atitude audaz dos que foram capturados, torturados e executados os salvou de sofrer esse mesmo destino. Em 18 de junho de 1945 os alemães começaram a evacuar Auschwitz, e ele foi enviado em marcha forçada na neve até Mathausen, o campo de concentração da Áustria. Ao finalizar a guerra se uniu aos integrantes da aliá "ilegal" e viveu durante 20 anos num kibutz. Quando decidiu completar sua educação na Universidade Hebraica sua vida mudou. Tal como antes da guerra, voltou a se sentir atraído pela História Judaica Moderna, e em especial pela temática do Holocausto

E esta se converteu em sua área acadêmica específica. É um renomado especialista no tema do Holocausto. Seu livro "Os Judeus de Varsóvia 1939-1942", foi publicado pela Universidade de Indiana. Em 1993 publicou "Resistência, a história do levante do Gueto de Varsóvia." Como historiador, Gutman regressou à Polônia mas "por pouco tempo e depois de tantos anos" a agrega com um sorriso amargo, mas a Polônia de minha juventude bate em meu coração. É um verdadeiro milagre quando você pensa em como, desde a profundidade da tragédia e da destruição, pudemos reorganizar nossas vidas. "

Em tom conciliatório diz: "Milhares de poloneses também morreram em Auschwitz, a elite intelectual e religiosa. A maioria das vítimas foram judias, mas também foi lugar de tragédia para pessoas de outras nacionalidades. Até 1942 Auschwitz foi um campo de concentração para poloneses. O capítulo judeu de mortes em massa começou a partir de 1942. Assim que, como você pode ver, em Auschwitz há 2 capítulos." O jornalista pergunta a Gutman: "Como o Sr. pôde se dedicar a investigação do Holocausto, havendo estado envolvido e tendo perdido sua família, sem entrar num estado de depressão?" Sua resposta é decepcionalmente simples: "Não comecei a investigar até depois de um período de reabilitação. Recentemente quando senti que não era diferente de outro cidadão, quando estabeleci uma família, quando fiz amigos, comecei a estudar; pois foi possível criar dentro de mim uma distância emocional. Claro que isto é artificial pois estou envolvido, mas meu dever como judeu é relatar o que se passou. Não tenho grandes planos para o futuro, senão um pequeno: escrever a história dos judeus entre as duas guerras mundiais." Seguramente, como historiador, sei que cada sucesso constitui um tijolo indispensável na construção da história judaica. E nessa história está a sua própria.

*Tradução Ing. Noemí Rychte

Fonte: Fundación Memoria del Holocausto
http://www.fmh.org.ar/revista/3/ausanatomia.htm
Tradução(espanhol): Noemí Rychte
Tradução(português): Roberto Lucena

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