sexta-feira, 1 de abril de 2011

Quase 60% dos espanhóis são antissemitas

A crise faz disparar o ódio antijudaico na Espanha

58,4% dos espanhóis são antissemitas, muito acima da média europeia, segundo o Relatório sobre Antissemitismo de 2010
JUAN G. BEDOYA - Madrid - 30/03/2011

Cerimônia de consagração da Torá
na Sinagoga Maior de Barcelona, em
2006.- MARCEL.LI SAENZ MARTINEZ
"Não estão fazendo os deveres e a consequência é um perigoso crescimento do antissemitismo e do ódio racial na Espanha". Esta é a queixa da Federação de Comunidades Judaicas da Espanha e do Movimento contra a Intolerância. Um detalhado relatório apresentado hoje em Madrid não deixa lugar a dúvidas: a Espanha figura no topo da União Europeia em atos violentos e manifestações de ódio racial e de desprezo a judeus, com um incremento constante pela crise econômica.

Os resultados de uma pesquisa encarregada no outono passado pelo Ministério de Assuntos Exteriores e Cooperação não deixam dúvidas: 58,4% da população espanhola opina que "os judeus têm muito poder porque controlam a economia e os meios de comunicação", e mais de um terço (34,6%) têm uma opinião desfavorável ou totalmente desfavorável dessa comunidade religiosa, que na Espanha somam apenas 40.000 pessoas. O estudo foi realizado com 1.012 entrevistas entre cidadãos maiores de 15 anos.

Estes dados do entitulado Relatório sobre Antissemitismo na Espanha em 2010 avalizam outros de uma pesquisa oficial entre escolares realizada há um quinquênio, segundo a qual mais da metade dos estudantes não queriam ter um garoto judeu como companheiro de carteira escolar, em que pese não poder reconhecê-lo fisicamente.

Curiosamente, é a extrema-direita a que menos rechaço tem pelas comunidades judaicas (uns 34%), frente a 37,7% entre pessoas que se declaram de centro-esquerda. "Se esses dados estão corretos, a Espanha seria um caso único na Europa, e o país tem um verdadeiro problema", destacou o presidente da Federação de Comunidades Judaicas da Espanha (FCJE), Jacobo Israel Garzón.

O responsável pelo Movimento contra a Intolerância, Esteban Ibarra, sublinhou a seu lado esta percepção, com uma queixa severa ante o Governo, por não haver executado o compromisso de reformar o Código Penal para punir a incitação e apologia do ódio racial ou antissemita em suas diversas manifestações. O mandato da Comissão Europeia para reformar o artigo 510 do Código Penal que se refere a esses temas concluiu em 28 de novembro passado, sem a Espanha tê-lo cumprido.

Há outros dados chamativos neste Relatório sobre o Antissemitismo, o segundo que se realiza na Espanha. Por exemplo, a extrema-direita tem uma opinião menos desfavorável dos judeus (34%) que a centro-esquerda (37,7%), e a simpatia ante os judeus na extrema-direita (4,9 numa escala de 0 a 10) é superior à média da população (4,6)".

A crise econômica tem agravado a situação, pelo suposto poder econômico que a pesquisa atribui aos judeus espanhóis em que pese significar apenas 1% da população total nacional. Dois terços (62,2%) dos 58,4% que opinam que dizem que "os judeus têm muito poder porque controlam a economia e os meios de comunicação", são universitários. A percentagem sobe até os 70% entre os que afirmam "ter interesse por política". Quer dizer, "os mais antissemitas são supostamente os mais qualificados e informados", lamenta Jacobo Israel.

Entre os que reconhecem ter "antipatia com os judeus", só uns 17% disse que isto se deve ao chamado "conflito do Oriente Médio". "Não podemos associar o ódio aos judeus com o Estado de Israel ou suas políticas", sublinhou o presidente da FCJE. Não procede assim que os meios de comunicação, onde o auge do antissemitismo se dá em função desse conflito.

Outro conjunto de motivos alegados pelos pesquisados (com uma soma de 29,6%), tem a ver com "a religião", "os costumes", "sua forma de ser" etc. A estes se somam outros como "antipatia em geral", ou às percepções relacionadas "com o poder". Outros 17% dizem ter antipatia a judeus ainda sem saber os motivos."

Os insultos através da Internet, as pichações em sinagogas, a banalização do Holocausto ou frequentes concertos racistas são alguns dos problemas que se contemplam no relatório, elaborado por um Observatório de Antissemitismo que apenas tem três anos. Seu objetivo é centralizar, catalogar e analizar os incidentes de caráter antissemita, identificando seus promotores e fomentar a reflexão através da análise e de publicações.

"A infecção neonazi é crescente e em sua maioria é antissemita. Não se pode separar a luta contra o nazismo da luta contra o antissemitismo", sublinha Esteban Ibarra. O relatório documentou 4.000 casos de incidentes de ódio antirreligioso e violência xenófoba, entre os que estão incluídos os atos de antissemitismo. Por exemplo, existem mais de 400 websites de caráter xenófobo e antissemita.

Fonte: El País(Espanha)
http://www.elpais.com/articulo/sociedad/crisis/dispara/odio/antijudio/Espana/elpepusoc/20110330elpepusoc_12/Tes
Tradução: Roberto Lucena

Ver mais:
Los judíos españoles denuncian un aumento del antisemitismo (Xornal.com, Galícia)

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