Período: (1871-1877) (Temas relacionados: Guerra franco-prussiana, Napoleão I)
Um conflito entre o governo imperial alemão e a Igreja Católica Romana na Alemanha foi iniciado pelo chanceler imperial, Otto von Bismarck. Sua política de unificação nacional exigia que a autoridade da Igreja ficasse subordinada ao Estado. Que não consegue alcançar, principalmente devido a uma burocracia ineficiente e à resistência passiva eficaz mantida pela Igreja, apesar da intensa perseguição.
Local: Império alemão (agora Alemanha)
O "Kulturkampf", ou "conflito cultural", contra a Igreja Católica Romana na Alemanha ocorreu tendo como pano de fundo dois triunfos brilhantes - tanto no âmbito militar quanto na política externa - alcançados por Otto von Bismarck enquanto primeiro-ministro da Prússia. Ao longo de um período de cinco anos, entre 1866 e 1871, os exércitos de Bismarck infligiram derrotas esmagadoras à Áustria e à França, as principais rivais da Prússia pela supremacia na Europa continental. A vitória da Prússia sobre a Áustria na Guerra das Sete Semanas, em 1866, conferiu à Prússia o controle da Confederação da Alemanha do Norte, uma associação pouco rígida de cidades industriais e ducados na região da Renânia. Com base nessas conquistas, Guilherme I, rei da Prússia, assumiu o título de rei da Alemanha. O delicado sistema de equilíbrio de poder liderado pela Áustria — que havia preservado a paz na Europa por mais de meio século após a derrota de Napoleão I — foi definitivamente rompido pela Guerra das Sete Semanas.
Quatro anos depois, Bismarck provocou a França, levando à Guerra Franco-Prussiana de 1870-1871. No Tratado de Versalhes de 1871, que confirmou o triunfo da Prússia, o rei Guilherme I da Alemanha foi coroado imperador da Alemanha, por insistência de Bismarck. Dois ducados franceses e vários estados do sul da Alemanha, incluindo a Baviera, foram incorporados ao novo Império Alemão. O próprio Bismarck tornou-se chanceler imperial, o principal executivo do imperador no reino. Ele presidiria um sistema federal de estados e cidades efetivamente dominado pela Prússia. A reunificação oficial das terras alemãs, após mais de sete séculos de fragmentação, foi a maior realização de Otto von Bismarck, que logo passaria a ser chamado de Chanceler de Ferro.
Apesar de seus surpreendentes sucessos na política externa até 1871, Bismarck não desejava novas conquistas. Ele era um nacionalista conservador cujo objetivo principal objetivo como chanceler era consolidar a nova nação alemã que havia sido criada. Inicialmente, porém, Bismarck — um protestante condenado — via uma ameaça iminente vinda de uma Igreja Católica Romana em ressurgimento sob a liderança do dinâmico Papa Pio IX. O que mais preocupava Bismarck era a doutrina da infalibilidade papal, recém-promulgada, segundo a qual o Papa não poderia errar ao se pronunciar sobre questões de fé e morais católicas. Bismarck ficou convencido de que essa doutrina conferia a qualquer Papa, na qualidade de defensor da fé, o poder de intervir até mesmo na política interna de uma nação soberana. O chanceler alemão considerava tal possibilidade intolerável. Ele também acreditava que uma coalizão potencialmente letal poderia estar se formando contra ele — liderada, sobretudo, pelos austríacos e franceses, desejosos de vingança e possivelmente orientados pelo Papa.
De qualquer modo, Bismarck via a Igreja Católica Romana na Alemanha como o principal obstáculo ao seu sonho de uma nação alemã protestante e poderosa, sob a mão firme e orientadora de sua terra natal, a Prússia. Ele desconfiava profundamente da lealdade de uma igreja cujos membros representavam quase um terço da população do Império, deviam obediência religiosa ao Papa e desfrutavam de independência praticamente total em relação às autoridades estatais alemãs no que dizia respeito a questões religiosas.
Em sua campanha contra o perigo católico no Império Alemão, o pragmático Bismarck encontrou um aliado pronto no Partido Nacional-Liberal do parlamento prussiano. Fundado em 1867, o partido estava comprometido com uma agenda que incluía a unificação nacional da Alemanha, o controle estatal das escolas e a rigorosa separação entre Igreja e Estado. Seus membros buscavam promover os valores laicos dos alemães urbanos de classe média que constituíam a base do partido. Eles eram ainda mais hostis à Igreja Católica do que o próprio Bismarck. Embora Bismarck não compartilhasse da orientação laica geral dos nacional-liberais, ele considerava a posição majoritária que detinham no parlamento prussiano indispensável para obter a legislação necessária à implementação de sua "Kulturkampf".
Entre 1871 e 1877, o Chanceler Bismarck, por meio de seus agentes e aliados parlamentares, conduziu um amplo programa de intimidação e perseguição aberta contra a Igreja Católica, especialmente na Prússia. O objetivo de Bismarck era reduzir a Igreja e seu aliado, o Partido Centrista Católico, a uma situação de total submissão ao governo. Após algumas medidas preliminares em 1871, Bismarck lançou uma série de leis hostis à Igreja, apresentadas por uma maioria parlamentar Nacional-Liberal dócil aos seus interesses. Seu principal agente na implementação dessas medidas foi um funcionário público prussiano chamado Adalbert Falk. Em janeiro de 1872, Falk foi nomeado "Kulturminister" — ministro da religião e da educação —, assumindo a chefia do departamento da burocracia prussiana diretamente responsável pela gestão das relações com as igrejas e as escolas religiosas do Estado. Falk, conhecido por suas convicções liberais e anticlericais, assumiu o cargo com entusiasmo.
De 1872 a 1874, o Ministério da Religião e Educação de Falk visou implacavelmente o clero e as escolas católicas. Os seminários foram assumidos pelo governo com o objetivo de incutir nos seminaristas os valores nacionalistas e amplamente seculares do Estado. Todas as nomeações eclesiásticas precisavam ser aprovadas pelo governo, especialmente as de professores que ministravam instrução religiosa em escolas católicas. Entre 1872 e 1875, cerca de 250 padres católicos foram presos na Prússia, a maioria por desobedecer os decretos do "Kulturkampf". Em 1875, todos os 11 bispos prussianos estavam presos ou no exílio. O Papa Pio IX declarou inválidas as leis do "Kulturkampf" e ameaçou excomungar quaisquer católicos que aceitassem a legalidade delas.
Outras leis atingiram antigos inimigos dos liberais, como os jesuítas. Suas escolas e residências foram fechadas em todo o Império Alemão, e os padres jesuítas foram forçados a deixar o país. Mais tarde, outras ordens religiosas sofreram o mesmo destino, assim como todos os mosteiros prussianos. Os leigos católicos também foram afetados. Cerca de 150 editores de jornais católicos foram presos, 20 jornais foram apreendidos e 210 membros do Partido do Centro Católico foram detidos em diversos momentos após 1871, principalmente por sua oposição pública à "Kulturkampf". Provavelmente a mais controversa das novas leis afetou tanto os leigos católicos quanto a sua Igreja. A Lei do Casamento Civil de 1875 estabelecia que apenas uma cerimônia estritamente civil, realizada sob a autoridade do Estado, tinha validade legal na Prússia. A partir de então, o Estado passaria a controlar os registros oficiais, retirando da Igreja mais uma de suas funções tradicionais.
Por volta de 1875, a campanha do governo contra a Igreja Católica enfrentava sérias dificuldades. Exasperado com a crescente oposição às suas políticas, Bismarck assumiu o controle pessoal da situação. Adalbert Falk foi deixado de lado e pressionado a renunciar. Um sinal claro da situação crítica do chanceler era o grande volume de propriedades da Igreja confiscadas pelo Estado em razão de multas não pagas. As autoridades eclesiásticas recusavam-se sistematicamente a cooperar com o "Kulturkampf". A resistência passiva revelou-se a tática mais eficaz para os católicos na Alemanha. Para muitos católicos, a reação não violenta à perseguição era personificada por Ludwig Windthorst, líder do Partido Centrista Católico. Muitos alemães protestantes, cada vez mais incomodados com a severidade e a crueldade de tantas das medidas impostas, passaram a simpatizar com a situação difícil de seus compatriotas católicos.
Probably the most important single factor in the failure of the Kulturkampf was the inability of the sluggish, tradition-bound Prussian bureaucracy to compel compliance. Bismarck could not correct this problem. He had also badly underestimated the resiliency of the Catholic Church to weather systematic persecution. In the process, German Catholics had built a more cohesive and committed religious community and had even experienced a notable spiritual renewal. By 1878 Bismarck, ever the pragmatist, had determined to cut his losses and move on to other pressing problems, such as the economy and the challenge of socialism. Falk became the scapegoat for Bismarck’s failure, while most of the Kulturkampf measures were repealed outright or allowed to languish. Only the laws on civil marriage and the state control of education remained permanently on the books.
Provavelmente, o fator isolado mais importante para o fracasso do "Kulturkampf" foi a incapacidade da burocracia prussiana — lenta e presa a tradições — de impor a obediência às medidas. Bismarck não conseguiu corrigir esse problema. Ele também havia subestimado gravemente a resiliência da Igreja Católica em resistir a uma perseguição sistemática. Nesse processo, os católicos alemães construíram uma comunidade religiosa mais coesa e engajada, chegando a vivenciar uma notável renovação espiritual. Por volta de 1878, Bismarck — sempre pragmático — decidiu minimizar as perdas e voltar-se para outras questões urgentes, como a economia e o desafio do socialismo. Falk tornou-se o bode expiatório pelo fracasso de Bismarck, ao passo que a maioria das medidas do "Kulturkampf" foi revogada ou deixada cair no esquecimento. Apenas as leis sobre o casamento civil e o controle estatal da educação permaneceram em vigor de forma permanente.
Significado
O *Kulturkampf* na Alemanha fez parte de um conflito europeu mais amplo entre o catolicismo e o liberalismo durante o final do século XIX. Na Alemanha, esse conflito foi complicado pela presença de um sólido segmento protestante conservador liderado por Bismarck. A maior realização de Bismarck foi transformar o Império Alemão em uma potência mundial. Entre os seus piores reveses, figurou o fracasso em reduzir a Igreja Católica alemã à condição de serva do Estado. Ele constatou que havia limites severos para os meios que podia mobilizar com esse objetivo. Em suma, a genialidade de Bismarck na política externa não encontrou paralelo na sua compreensão do poder da fé religiosa. Ele perdeu prestígio com esse episódio, embora não tenha sido um fracasso total. As leis do "Kulturkampf" sobre o controle estatal das escolas e o casamento civil obrigatório permaneceram em vigor, ainda que de forma modificada.
Bibliografia
Anderson, Margaret Livinia. Windthorst: A Political Biography. Oxford, England: Clarendon Press, 1986. Sympathetic, scholarly assessment of the career of the German Catholic politician who most effectively opposed Bismarck’s Kulturkampf.
Lerman, Katherine Anne. Bismarck. New York: Pierson and Longman, 2004. Places the Kulturkampf within the context of Bismark’s overall political motives and goals.
Ross, Ronald J. The Failure of Bismarck’s Kulturkampf: Catholicism and State Power in Wilhelmine, Germany. Washington, D.C.: Catholic University of America Press, 1998. Contends that Bismarck’s Kulturkampf failed largely because of the government’s inability to enforce its laws and decrees
Smith, Helmut W. German Nationalism and Political Conflict, 1870-1912. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1995. First section describes the impact of the Kulturkampf on the national unification of Germany.
Fonte: site de pesquisa EBSCO
https://www.ebsco.com/research-starters/history/kulturkampf-against-catholic-church-germany
Título original: "Kulturkampf Against the Catholic Church in Germany"
Revisão: Roberto Lucena
3 comentários:
Não querendo comparar a figura de Bismarck com essa "coisa" filho de Bolsonaro (que pode sentar na cadeira de presidente...), metido em corrupção, suruba, fundamentalismo evangélico e cia... seria escárnio com a figura de Bismarck (a quem goste ou não) comparar uma figura daquele porte a um entulho de milícias do Rio, mas puxei o assunto da perseguição a católicos na Alemanha, porque mesmo que as medidas citadas no texto tenham sido assimiladas depois (no Estado moderno), na implementação disso (tentativa) por Bismarck não mirava só a "reforma" do Estado recém formado da Unificação alemã do século XIX, e sim fazer um "expurgo" da parte católica da Alemanha sob tacão da "nova ordem protestante liberal"...
Muita gente tem tratado o "caso da Santa" (do ataque à Santa, padroeira do Brasil) como se fosse uma discussão sobre "idolatria e imagem" e passa longe disso, há uma tentativa de subverter o país em uma Teocracia fundamentalista neopentecostal sob tacão desse bando bolsonarista, que irá promover perseguição religiosa ostensiva (já fazem sem nem ter o poder que querem) dentro do país e provocar conflito civil, porque a parte católica e de minorias atacadas irá reagir à repressão promovida por essa gangue.
Em um país normal, certas figuras do Supremo que misturam fundamentalismo religioso com Estado, sequer deveriam assumir tais cargos ou ser banidos.
Teve jornalista "chocada" (Dani Lima) com a coisa, com a descrição da Igreja católica dos fatos, o Vaticano é um Estado, há certo serviço de "Inteligência" na coisa (melhor que o de vários países...) e não estão ignorando a perseguição a católicos promovida pela parte neopentecostal no Brasil...
Eu sempre aviso aos conhecidos que um dia o "tempo fecha", mas o caráter "brincalhão em excesso" de certa brasileirada, fazem-nos achar que esse tipo de coisa só estoura na Alemanha, nos EUA e cia... o Brasil? "É algo à parte"... e não é...
A você católico, que não gosta do Lula e cia... questão de voto aqui não se trata de "gosto pessoal" e sim de não atirar no pé, até porque várias alas dos católicos (olavetes e toscos anti-comunistas) alimentaram essa hidra neopenteca olavista anos a fio, achando que serão "poupados" de um ataque, se não virarem a casaca (já que já cheiram a bandeira dos Estados Unidos há tempo).
Catolicismo no Brasil não é só questão meramente religiosa, é questão de identidade nacional, de formação do país, quem quiser ignorar essa parte vai ficar boiando na discussão desses temas.
"Mas quero tirar o corpo fora"... problema de quem tirar, quem tirou não será poupado de uma ofensiva dentro do país, se é nessa besteira que creem (agir como covardes pro resto da vida).
Não brinquem com a ofensiva dos Estados Unidos com os setores entreguistas desnacionalizados dentro do Brasil...
O ataque à padroeira, à santa, é um ataque simbólico, que visa impor uma humilhação simbólico-política à parte católica, e católicos/Igreja católica é tratada como entulho dentro desses grupos fundamentalistas, simbologia católica e cia, "mas há evangélicos moderados" etc e tal, sim, que também serão atingidos em um governo/ditadura do tipo (autocracia, o nome da moda), eles que se cuidem com os "pastores" radicalizados deles também, se houver juízo...
Bannon, o cabeça do MAGA, da lixarada trumpista queria derrubar o Papa anterior (e consequentemente o atual), e o lixo é batizado católico (escroque norte-americano), como o entulho Vance, o "convertido" que mais parece um neopenteca (sai dos neopentecas mas continua do mesmo jeito):
"Bannon escreveu para Epstein: “Derrubaremos o Papa Francisco”" (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/662539-bannon-escreveu-para-epstein-derrubaremos-o-papa-francisco)
(https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/14/bannon-emails-epstein-papa-francisco-mostram-mensagens-divulgadas-pelos-eua.ghtml)
O "trumpismo" quer dominar a Igreja Católica e conter os católicos pra impor uma ordem neoliberal-neopenteca sobre os países e subverter as outras denominações, credos, minorias religiosas a seu tacão.
Bannon, Trump, Vance, Big Techs, Peter Thiel... a horda do "Anticristo"... (https://pt.wikipedia.org/wiki/Anticristo)
"Peter Thiel, o bilionário que conecta Trump, anticristo e IA" (https://www.dw.com/pt-br/peter-thiel-o-bilion%C3%A1rio-que-conecta-trump-anticristo-e-ia/a-79378649)
Nicolelis (https://www.youtube.com/watch?v=8q55thIFZAM).
"Mas não sou religioso pra seguir isso"... nem precisa, a figura do "Anticristo" é alguém que encarna a figura que representa o oposto do que simbolicamente a figura de Cristo (do cristianismo) representa pro cristianismo e cia. É uma figura simbólica e política tb, além da questão religiosa.
Essa gente do Vale do Silício é muito perigosa, fanática e odeiam a humanidade, querem destruir parte da humanidade pelo caos, com verdugos/títeres no poder dos países.
Se você é católico ou não (praticante ou não), desobedeçam qualquer "ordem abusiva", autoritária vinda tentando coibir expressão, denúncia dos ataques religiosos dessa turba. O país não pertence a essa turba "made in USA".
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