quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dos perigos de se divulgar imagens sem contextualizar o problema - caso do poster de Hitler em Itajaí-SC

Pros leitores do blog de fora do país, a sigla SC é a sigla do estado de Santa Catarina, a cidade de Itajaí fica neste estado.

Feitas as considerações acima, vamos lá.

Primeira vez que eu vi a divulgação dessa foto foi através da página de uma revista, segue o link: link1. (Foto ao lado com o cartaz).

Até aí nada de novo no front, mas...

Como já vi outras tosquices nessas revistas nem quis ler o resto na ocasião pois já sabia que vinha bobagem (e veio), mas acabei lendo depois o "conteúdo".

Eu acho um desserviço ficarem divulgando de forma sensacionalista essas coisas sem comentarem detalhadamente sobre o problema do extremismo de direita no Brasil e como e porque isso se manifesta. Essa revista não fez isso em nenhuma das vezes que tocou no assunto.

Antes de prosseguir vou fazer uma aparte já que se você criticar uma publicação no país que é odiada por determinado grupo (de direita), com a mentalidade binária que se proliferou no país, vai chegar um "radicalzinho" ou outro querendo te empurrar pra direita ou esquerda sem nem saber qual tua posição política sobre isso e eu não ando com saco de discutir moderadamente com esse tipo de troll. Eu sou de esquerda, não sou sectário mas também não tolero muito gente que vem me "doutrinar" achando que me fará seguir cartilha/agenda política contrária ao que penso. Dispenso também os reducionismos em torno da esquerda querendo rotular todo mundo de autoritário, ditador etc, esse tipo de papo furado pode "emocionar" gente que acredita nesse tipo de idiotice mas discutir comigo nesses termos é o mesmo que pedir pra tomar toco (como os "revis" tomam).

Eu não gosto desse tipo de publicação, não só essa CC, como também de uma concorrente dela que não vou nem citar o nome daquele detrito que parece panfleto do PSDB (acho que dá pra fazer a associação e descobrir qual é a revista que se enquadra nessa descrição), exceto talvez a revista IstoÉ que ainda prima em fazer reportagem jornalística investigava vez ou outra, mas não é o tipo de publicação que me "comova". Eu já coloquei aqui textos da IstoÉ sobre lançamento de livros sobre segunda guerra, gostei do texto, não descambaram pro sensacionalismo 'desinformativo' dessas outras publicações.

Mas voltando ao assunto, lendo os comentários (tristes por sinal embora a maioria rechace a ideia em torno do nazismo, mas rechaçam sem uma leitura ou ideia precisa do que seja) a gente fica com uma pulga atrás da orelha com esse tipo de divulgação desses micro-episódios sem comentar detalhadamente o problema que citei acima, o extremismo de direita de cunho fascista.

Sinceramente, qual a relevância de uma porcaria de um cartaz pregado num poste, que poderia ter sido colocado em qualquer canto do país até como pilha, provocação? Fazerem divulgação disso dessa forma é sem propósito, é falta de reflexão mesmo. "Ah, mas eu fiquei chocado", caramba, e adianta ficar chocado? Isso vai resolver problema? A não ser ficarem "indignados" num determinado momento e 1 hora depois esquecerem de tudo. Francamente. Dá raiva ver um troço desses divulgado dessa forma.

A publicação deveria comentar "que grupos são esses", "quais os grupos de extrema-direita de cunho fascista atuantes no Brasil", etc, detalhar a extrema-direita brasileira, mas não, ficam simplesmente no senso comum rasteiro, no superficial, cultuando a imagem e o "aspecto simbólico" da coisa sem tocar em questões mais importantes como informar à população a origem do problema.

Eu já discuti (e até detalhei) isso aqui, na verdade é só um resumo pra orientar o povo sobre quais grupos atuam no país em torno disso: A extrema-direita brasileira. Mapeamento do fascismo no Brasil - Parte 01

E espero um dia fazer a sequência do post do link acima sobre a extrema-direita no Brasil. Pois estão criando um sensacionalismo escroto em torno de suásticas e simplesmente omitindo (por ignorância ou cinismo) os grupos que de fato são problemáticos no país (os mais organizados, numerosos, fascistas como o integralismo).

Adiantando o post que eu gostaria de fazer como sequência daquele primeiro do link acima, há duas extrema-direita no Brasil: uma tradicional alinhada com grupos de ideologia fascista (integralismo e afins, o integralismo é o mais relevante deles pois é um movimento nacional enquanto esses neonazis e imitadores de grupos White Power de fora não passam de caricatura política, são um bando de racistas que imitam o racismo de países como os EUA e do continente europeu). E há uma outra extrema-direita neoliberal ou liberal alinhada a revistas de tiragem nacional, à grande mídia em geral cuja a agenda política gira em torno de privatizações, entrega de patrimônio nacional (empresas nacionais relevantes), ataques à esquerda (demonização midiática) requentando propaganda da guerra fria, apologia da ditadura militar ou banalização disso etc. Esta última extrema-direita fomenta um público altamente alienado e agressivo discutindo, com um complexo de vira-latas (de inferioridade) atroz.

Mas voltando novamente ao assunto do post, há um problema visível de desvio de foco pra região Sul. Eu nunca vi estamparem com estardalhaço as agressões antissemitas e racistas em outros estados do país, há até um vídeo famoso de 1992 (isso mesmo, é antigo pra caramba) mostrando o cenário da extrema-direita em São Paulo (por sinal o documentário é formidável, o melhor já feito no Brasil sobre o problema), mas só miram numa direção.

Eu não estou negando nem pormenorizando que hajam fascistas e racistas nos estados da região Sul ou algo parecido, pra ser preciso, há racistas no país inteiro, de Norte a Sul, o que ocorre é que a manifestação do racismo varia de cidade pra cidade, adapta-se a uma realidade local etc, de região pra região. Negar isso seria cair na esparrela de criar outro tipo de negacionismo que cria mais desinformação em torno desses assuntos.

Só que pelo que eu noto, essa questão desses grupos no Sul (região) costuma ser supervalorizada ao extremo (principalmente na mídia) e nunca vejo esses mesmos sites de notícias (Carta Capital e afins) mencionarem os grupos políticos organizados de extrema-direita do Rio e de São Paulo. Omitem isso por quê? Qual a razão afinal disso?

Quem vê uma matéria dessas e não conhece nada sobre esse tipo de tema, pode achar que esses grupos que citei não existem, pois é nesses dois Estados que o grosso da coisa se concentra, por serem mais organizados e em maior número, ironicamente. Então por que esse sensacionalismo com um cartaz? Por que não fazem a droga de uma matéria citando o problema na sua totalidade?

Parece que essa questão da região Sul virou uma espécie de bode expiatório pra não citarem nunca (e eu toco nessa questão no post que fiz sobre isso) os grupos que atuam em outros estados (inclusive no estado onde essa revista fica sediada).

Eu não estou fazendo ataques a estados pois essas questões não podem ser tratadas na base do bairrismo, eu não tenho essa visão tosca de uma parte dos brasileiros residentes em outras regiões de criarem mitologias (por ignorância, pois a bem da verdade é que esse povo não lê nada que preste, ou quando leem só leem besteira) de superioridade em torno de Estados sem entender os processos políticos e econômicos que formaram o Brasil atual. Só que não sou trouxa de ignorar que muita gente neste país TEM esse comportamento espírito de porco.

Mas como eu dizia, eu avalio o Brasil num todo, estruturalmente, se você é adepto de mitologias, sinto te dizer mas se for discutir comigo com base em preconceitos e crenças eu irei triturar esse tipo de discurso em dois tempos e sem pena alguma. Faço inclusive questão de fazer isso pois considero uma afronta esses brasileiros ou pseudo-brasileiros repetindo essas asneiras supremacistas por algum complexo e/ou também por ignorância, alguns aliam isso à malícia (algo maldoso, sadismo, vontade de querer humilhar quem eles acham que são "inferiores" etc).

Mas voltando ao assunto (peço desculpas por sair do tema mas é que uma coisa sempre puxa outras questões em torno disso), embora a parte discutida acima faça parte dessa discussão (no fundo a discussão desse problema do "neonazismo" no Brasil se resume a problemas identitários brasileiros, gerados por algum problema de formação histórico ideológico, educacional e/ou econômico), é necessário apontar os focos do problema e as origens de cada grupo desse, a matriz dos grupos, como se formam, o que há por trás disso.

Mostrar cartaz de Hitler num poste pregado provavelmente por dois ou três gatos pingados racistas imbecis que pregam isso num país de maioria de descendentes indígenas, negros e com o maior grupo étnico europeu sendo do grupo ibérico (português), soa como asneira e piada involuntária. Curioso o fato de que quando eu leio esse tipo de assunto nessas publicações não vejo comentarem esses pontos que estou citando aqui. "Ah, mas você está sendo pedante", sem querer ser chato, mas o pessoal aqui do blog de fato não é o que se pode chamar de ignorante na questão do fascismo e segunda guerra, então cobrar informação correta, exata, é o mínimo que se espera de uma publicação, não é qualquer bobagem publicada que eu vou sair aplaudindo e elogiando. Eu uso as publicações de fora (que são boas) como referência, se publicarem bobagem, se for o caso, não pensarei duas vezes em criticar (apontando as falhas) a bobagem.

Em suma, pra não alongar a coisa, a Carta Capital fez um estardalhaço com essa foto, a meu ver desnecessário, que teria sido bom se houvesse uma matéria que detalhasse e comentasse 'o que são esses bandos', a origem do fenômeno etc, sem aquelas matérias caricatas dos "150 mil neonazis no Brasil" (pra quem não sabe da pendenga, leia esta matéria aqui com o hist. gaúcho René Gertz sobre essa questão) e coisas desse tipo. Eu já comentei em outro post o que penso disso, por essa razão fiz questão de publicar o texto com a entrevista do historiador gaúcho R. Gertz que vai direto ao ponto, penso e concordo bastante com ele com a crítica acerca do estardalhaço que estão fazendo em torno desse assunto.

E a questão mais importante: por que os integralistas são poupados quando se fala em extrema-direita no Brasil? Alguém vê esse grupos ser citado quando se fala em extremismo de direita no país nessas publicações? Esse "poupar" se dá por ignorância apenas ou pra não tocar no assunto já que iriam ter que falar da manifestação deles em outros centros?

Como disse acima, eu sei que rola um bairrismo pesado nessas redações em prol dos estados de origem das mesmas, esse papinho furado de "somos brasileiros" e bla bla bla é lindo mas é um refúgio pro bairrista mala sem alça se abrigar. Essas redações ao invés de denunciar o problema fica querendo "proteger a imagem" de determinada cidade e Estado. Já vi esse comportamento no Orkut. Tinha um cara de SP, bem tosco e sem noção (conhecimento histórico zero), que se metia nas comunas de discussão de negacionismo e toda vez que se tocava no assunto abordando algum grupo de SP o cara começava com o discurso vitimista, defensivo, negando ou diminuindo o problema porque achava que quando alguém discutia o assunto, a própria discussão seria um "ataque ao estado dele", o que beira o delírio e imbecilidade pois denunciar isso é uma defesa ao cidadão comum que vive nesses centros. Quem toma esse tipo de atitude histérica negando o problema no fundo está contribuindo com os extremistas e não os combatendo.

Uma das distorções da grande mídia que mais percebo (e considero isso coisa de gente burra mesmo, uma pessoa que não sabe geografia básica vai escrever matéria de jornal como?), é sobre a região Nordeste, que é só nome de região (ou ponto colateral, noroeste, sudoeste, rs) já virou "Estado da federação" em vários desses textos de jornais pretensamente "informativos".

Falam, com petulância e ignorância como se uma região fosse um Estado do país, ignorando as divisões históricas e os nomes dos Estados de fato, comportamento altamente babaca. Querem saber o que fomenta esse tipo de extremismo de direita racista? Essa questão que acabei de abordar, a própria mídia fomenta o monstrinho.

Mas se você pensa que para por aí o festival de besteiras que assola o país (FEBEAPA), até "etnia" a região "virou" no imaginário dessas pessoas. É algo tão ridículo e estúpido que chega dar nojo comentar isso.

Esses grupos extremistas se alimentam dessas informações toscas, distorcidas e enviesadas publicadas pela grande mídia do país, seriados toscos com estereótipos etc, ao longo de décadas formaram esses "monstrinhos" metidos a "White Power" país afora, por isso que toco nesse assunto já que isso não será abordado nessas publicações. Eu nunca vejo publicação falar de problema identitário no Brasil e regional, é como se isso não existisse e é o que mais tem desde a redemocratização do país. Curioso que já vi pilhas de textos estrangeiros abordando esse tipo de questões e no Brasil, quase nada.

Acho que já detalhei o que penso sobre o caso acima. O espaço dos comentários serve pra discussão, se o povo lê e evita discutir não posso fazer nada. Digo isso porque pode haver gente que discorda e ao invés de comentar, discutir, fica remoendo raiva com idiotice.

Acho um erro o estardalhaço em torno desse cartaz num poste sem esclarecer as pessoas do que se trata, se for tratar "neonazismo" (que na verdade no Brasil é neofascismo) e racismo como tabu, dá nisso.

O povo ao invés de discutir e explicar racionalmente, sem pitis emocionais, o que se passa, quem são os bandos etc, fazem um estardalhaço puro e simples aumentando o "poder" de fato dessa meia dúzia de Zé Roelas querendo chocar. Não é por aí, essa postura defensiva e de "estou chocado" não resolve porcaria alguma.

O racismo no Brasil é muito, mas muito anterior a essas manifestações atuais de racismo repaginadas com uma suástica no meio pra chamar atenção (e conseguiram o que queriam). Esse tipo de manifestação tem ligação direta com o racismo histórico brasileiro e não com o cabo austríaco propriamente, coisa que não foi abordada pela revista.

Observação: a última, espero. O fato deu criticar o conteúdo dessa publicação (Carta Capital) não quer dizer que eu goste das outras publicações do tipo como já comentei lá no começo.

Digo isso pois há umas "inteligências raras" que acham (de forma oportunista e escrota) que quando a gente critica uma publicação que é odiada por certo seguimento (de direita/extrema-direita), acham (erroneamente, por presunção) que a gente "gosta" do seguimento oposto "automaticamente" que publica coisas "divergentes" desse tipo de publicação que citei, pensamento binário total dessas pessoas.

O curioso é que a Carta Capital tem a The Economist como parceira (link) e tem muita gente que se diz de esquerda no país que nem "repara" nesses detalhes. Pra quem não está entendendo a crítica, a The Economist é uma bíblia neoliberal britânica (link), chega a ser hilário ver o grau de demência e extremismo/polarização no país como por exemplo a outra extrema-direita liberalóide chiar chamando essa revista de comunista, e uma penca de gente que se diz de esquerda achando que a publicação é socialista ou coisa do tipo.

É por isso que eu fico uma arara quando leio essas coisas. O povo não fala por falar, fala cheio de "certezas" que adquiriram sabe-se lá onde já que não leem, pelo visto. E ainda vem gente me mostrar link dessas revistas sem nem ter ideia dos erros (e bobagens) que elas publicam, como se só existisse esse tipo de fonte de informação disponível. De besteira já chega o "revisionismo", me poupem de ficar lendo mais bobagens além disso.

Não quero mudar opinião de ninguém sobre isso, cada um lê o que quer etc, só fiz esses comentários porque infelizmente a gente é obrigado a explicitar a opinião/posição porque sempre chega gente repassando essas coisas querendo uma espécie de "bênção" da gente concordando com esses textos que A, B ou C segue a risca por alguma crendice ou sectarismo ideológico. Há pilhas de textos, em inglês principalmente, infinitamente melhores pra se entender nazismo e fascismo que essas publicações do país, infelizmente. Tanto que há pilhas de traduções no blog justamente POR essa razão.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Escritor gera polêmica ao questionar ‘paraíso’ escandinavo

Alvaro A. Ricciardelli
Da BBC Mundo
Atualizado em 11 de fevereiro, 2014 - 17:08 (Brasília) 19:08 GMT
Em artigo para jornal britânico, Michael Booth fez duas críticas aos países da Escandinávia
(Foto) Menina com bandeira da Noruega pintada no rosto | Crédito: Getty

Um escritor britânico levantou polêmica ao questionar publicamente um pensamento popular: o de que a Escandinávia é o melhor lugar do mundo para se viver.

Intitulado Terras Escuras: a Triste Verdade por trás do Mito Escandinavo, um artigo de Michael Booth, publicado na edição impressa do jornal The Guardian, critica duramente a região, que ostenta índices invejáveis de saúde e educação.

O assunto também é tema do último livro do autor, para quem a Escandinávia não é "o paraíso que parece".

"Queria fazer os leitores do jornal acordar do coma escandinavo", afirmou Booth à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Booth vive na Dinamarca e é casado com uma dinamarquesa. Apesar de assumir que gosta de morar ali, destaca que "nem tudo é cor de rosa".

No artigo, ele discorre sobre os problemas da Finlândia com armas e álcool, do giro à direita da tradicionalmente social-democrata sociedade norueguesa, do desemprego juvenil na Suécia e dos problemas de saúde dos dinamarqueses.

"Nos últimos dez anos, o jornal The Guardian só publicou artigos positivos sobre essa estranha utopia que é a Escandinávia. Por isso, fui deliberadamente provocador e mostrei apenas parte da verdade. Claro que fui um pouco selvagem e brutal, mas acredito que tinha de fazê-lo", assegura.

A "brutalidade" de Booth deu resultado. O artigo recebeu mais de 1 milhão de visualizações, foi comentado por mais de 3 mil pessoas e compartilhado 7 mil vezes.

Suicídio e depressão

Um dos mitos associados à Escandinávia diz respeito à alta concentração de suicídios na região.

Na verdade, porém, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, nenhum dos países escandinavos figura entre os dez com maior taxa de suicídios no mundo.

Booth lembra, no entanto, que são os escandinavos que consomem mais antidepressivos, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O britânico também revela outras verdades incômodas, como as de que as escolas dinamarquesas não têm grandes resultados – feito que se atribui aos resultados do teste Pisa (sigla em inglês do Programa para Avaliação Internacional de Estudantes); que a maior parte das mortes de homens na Finlândia está relacionada com o álcool, como indica o Sistema de Estatística da Finlândia; que a Suécia é um dos dez maiores exportadores de armas do mundo, segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo.

Além disso, Booth lembra que, entre todos os países escandinavos, o mais rico, a Noruega, que advoga por um ambiente mais limpo, continua sendo um dos principais exportadores de petróleo do mundo.

"Há uns dez anos, a gente no Reino Unido sonhava em ter uma casa na França, na Espanha ou na Itália. Mas, então, chegou a crise, e as pessoas olharam para a Escandinávia porque viu ali uma espécie de retorno a certos valores básicos: a segurança, a confiança e uma sociedade um pouco mais simples e funcional, tanto estetica quanto estruturalmente. Há uma menor diferença entre ricos e pobres, há um maior sentido de comunidade, uma maior coesão social", acrescenta Booth.
Andoni | Crédito: BBC

Morando na Suécia, o espanhol Andoni diz
ter ficado surpreso com segregação no país
"Mas a verdade é que provavelmente nem os britânicos nem os americanos iriam querer viver tanto tempo aqui se soubessem como realmente é", acrescenta o autor, que afirma que gosta de viver na Dinamarca, mas reconhece que se acostumou "a uma série de dificuldades".

Uma delas é óbvia, mas não menos importante: o clima.

"Isso é o mais complicado", assegura à BBC Mundo Óscar, um venezuelano que há mais de dez anos mora na Noruega.

"A diferença entre o verão e o inverno é enorme", acrescenta Montserrat, uma espanhola que vive em Copenhague há sete anos. "No inverno, todo mundo sai de cara fechada e ninguém se olha, mas no verão todo mundo é amigo de todo mundo".

Segregação

O espanhol Andoni, de um pequeno povoado perto de Sevilha, é outro estrangeiro que mora na Escandinávia.

Quando a crise atingiu em cheio a Espanha, ele arrumou as malas e rumou junto com sua família a Gotemburgo, na Suécia.

Segundo ele, pesaram em sua decisão a saúde e a educação pública de qualidade.

"O Estado te ajuda com tudo, e a ideia é que os dois pais possam trabalhar, por isso existe esse incentivo".

Os materiais escolares, a merenda e a creche são subvencionados. Apesar disso, Andoni se disse surpreso ao descobrir que, em alguns colégios, a segregação era assustadora.

"No primeiro colégio em que meus filhos estudavam, não havia nenhum filho de suecos ainda que o bairro não era precisamente exclusivo de imigrantes", assegura Andoni, que também afirma que antes de chegar tinha a ideia de que a sociedade sueca era mais multicultural.

A xenofobia também foi um dos temas abordados pelo artigo de Booth para o Guardian.

"Teve gente que me perguntou pelo Twitter como eu me atrevia a chamar os noruegueses de racistas, e a verdade é que não fiz isso, só falei do avanço de um partido claramente islamofóbico nas últimas eleições", afirma Booth.

O partido em questão é o Fremskrittpartiet, que forma parte da coalizão que governa o país, junto do partido conservador Hoyre ("direita", em norueguês).

A sigla acolheu durante muitos anos em suas fileiras o norueguês Anders Breivijk, que matou 70 pessoas no verão de 2011 e deixou o país em estado de choque.

"Nunca disse que os noruegueses eram racistas, mas sim que há certas forças políticas, como o Fremskrittpartiet, cujos líderes, em algumas ocasiões, fizeram declarações xenofóbicas e agora são forças políticas com muito poder", afirma Booth.

Por outro lado, os países nórdicos são um dos destinos mais tradicionais de refugiados, mas não são poucos os problemas de integração para os que vêm de fora.

"O imigrante precisa demonstrar que está disposta a fazer um verdadeiro esforço para se integrar", afirma Montserrat, que fala dinarmarquês fluentemente e é casada com um nativo.

Reações
Bandeira da Suécia | Crédito: AFP (Foto)

Professor sueco comparou declarações
de Booth às de Eisenhower
As reações ao artigo Booth foram tão acaloradas quanto suas objeções aos problemas da região.

Dois dias depois de sua publicação, o Guardian veiculou outro artigo dando voz à opinião de personalidades escandinavas.

O dinamarquês Adam Price, criador de Borgen, uma famosa série televisiva, classificou o texto de Booth como "divertido", ainda que afirmou que a sociedade dinamarquesa é muito mais homogênea do que o autor assegura.

Por sua parte, o ministro finlandês para a Europa disse ser difícil levar o autor a sério, "considerando que vem de um país com um sistema de encanamento que data da época vitoriana".

Já os islandeses reclamaram de ter sido ignorados pelo artigo, uma vez que o autor afirmou que só existem "poucos".

"Os noruegueses levaram o artigo a sério demais. Não estão acostumados à crítica nem a ser taxados como vilões, mas realmente ganham muito dinheiro com petróleo e todos sabemos que os combustíveis fósseis não são tão benéficos ao meio ambiente", acrescenta Booth.

"Muita gente me telefonou dizendo que o Reino Unido não é melhor. Mas eu não falei isso. Não criei uma competição entre países", afirmou o autor.

Os suecos foram um pouco além e viram tintas políticas no ataque. Lars Trägaardh, professor de história da Universidade Sköndal, em Estocolmo, disse que o artigo de Booth ia na mesma linha das declarações de Eisenhower, nas quais o ex-presidente americano criticava a "filosofia socialista" e a "falta de ambição" da sociedade sueca.

Trägaardh diz que "a coesão social não é um prato fácil de digerir para todos", apesar de reconhecer os desafios que a globalização e a migração apresentam.

"Meu artigo queria deixar claro que não há nenhum lugar perfeito. A Escandinávia é genial e ninguém aqui a está menosprezando. Veja, meu livro se chama "A gente quase perfeita", e é realmente isso que eu penso, que não são absolutamente perfeitos, mas estão próximos disso", conclui.

Fonte: BBC Brasil
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/02/140211_escandinavia_mitos_polemica_lgb.shtml

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sobreviventes do Holocausto protestam com desobediência civil (Hungria)

Húngaros, vítimas dos nazis ou descendentes, judeus ou não, escolheram a desobediência civil como forma de protesto contra um monumento que está a ser construído na Praça da Liberdade, em Budapeste. Representa a Hungria como vítima do nazismo e não como país aliado. Os cidadãos violam as barreiras de proteção para criar o que designam como “um monumento vivo” e atrasar a construção.

“Aqui a história é falsificada. Isto é algo que ninguém quer. Não entendemos por que estão a construir isto. Portanto, vimos todos os dias e destruímo-lo. Depois, eles reconstroem”, disse uma mulher.

O monumento representa a Hungria sob a forma de Arcanjo Gabriel, que é atacado por uma águia que simboliza a Alemanha. Durante a II Guerra Mundial, a Hungria aliou-se a Hitler. Deve estar acabado até 31 de maio, para comemorar o 70° aniversário da ocupação nazi da Hungria.

“O governo tenta construir um monumento de pedra e ferro com este significado, nesta praça, negando a responsabilidade da Hungria, quando 437 mil pessoas morreram nos campos de concentração”, afirmou o historiador Istvan Rév.

A maior organização judaica da Hungria decidiu boicotar as comemorações do Estado, em parte por causa da estátua.

Para comemorar o 70° aniversário do início da guetização dos judeus húngaros, a 16 de abril, o presidente da Hungria e o vice-primeiro-ministro participaram numa homenagem, noutro monumento. Admitiram a responsabilidade nacional, tal como um antigo ministro que propôs o dia de memória.

“Não vemos o Holocausto como algo acontecido num país remoto, mas como parte da história húngara, uma vez que os assassinos foram húngaros e as vítimas também. Portanto, isto é um assunto nosso, não um assunto histórico distante”, realçou o ex-ministro da Educação, Zoltán Pokorni.

Os críticos do monumento em construção acusam o Governo de estar a fazer a corte aos eleitores da extrema-direita com este projeto.

Fonte: Euronews
http://pt.euronews.com/2014/04/16/sobreviventes-do-holocausto-protestam-com-desobediencia-civil/

Ver mais:
Nazismo Hungria recorda Holocausto, comunidade judaica desconfia (Notícias ao Minuto, Portugal)
Primeiro-ministro húngaro condena anti-semitismo mas evita críticas à extrema-direita

sábado, 19 de abril de 2014

"Há países onde os ciganos vivem pior que na II Guerra Mundial"

O Instituto de Cultura Cigana lhe homenageou por reivindicar a memória romani
José Marcos 11 ABR 2014 - 18:27 CET

A mãe de Sarguerá ajudou judeus a
escaparem para a Espanha
. / Álvaro García
Jean Sarguerá nasceu no pior dos mundos. Sua mãe, uma cigana espanhola, pariu-o em 1942, com a II Guerra Mundial no seu apogeu, no campo de internamento de Rivesaltes (Link2) (França). Ali, próximo de Perpignan, os párias da Europa compartilharam o confinamento durante três anos: republicanos que haviam cruzado a fronteira em 1939 fugindo de Franco, judeus e romanis. Até 20.000 se apertavam num recinto para menos da metade disto.

“Quando a guerra estourou pegou minha família em suas caravanas, fiéis ao princípio de 'hoje aqui' e 'amanhã no outro lado'. As autoridades lhes tiraram os cavalos, meteram meus pais e meus seis irmãos em vagões para gado e lhes enviaram para o campo de concentração", narra Sarguerá enquanto dá conta de um café expresso com um par de goles. Também conhecido como Tio Pipo, o filho de María e Baptiste foi homenageado esta semana pelo Instituto de Cultura Cigana, coincidindo com o Dia Internacional dos Roma, por toda uma vida dedicada à recuperação de sua memória histórica. Com um empenho especial: a recordação das vítimas no Holocausto.

"Desgraçadamente, há países na UE (União Europeia) onde vivemos pior que durante a II Guerra Mundial”, aponta Tio Pipo. Mostra-se especialmente crítico com a Eslováquia, onde "segregam" sua gente nas escolas. "Em muitos países do Leste nos tratam como se fôssemos retardados. Discriminam-nos na Romênia e na Bulgária... Dificultam que tenhamos acesso a um ensino decente", insiste Sarguerá. Ao par de que se mostra inquieto pelo auge na Hungria do Jobbik: anticigana e antissemita, foi a terceira força mais votada nas recentes eleições parlamentares.

"Em muitos países do Leste nos tratam como se fôssemos retardados"

“Hitler é culpado do assassinato de seis milhões de judeus, mas também da morte de meio milhão de ciganos", denuncia Sarquerá. A cifra exata de vítimas do Porrajmos ou "A Devoração", o equivalente cigano da Shoá, é desconhecido. Sim, está documentada, com detalhes, a obsessão do Terceiro Reich com a questão cigana ou Zigeunerfrage frente à pureza do sangue dos "arianos". "A esterilização de ciganos começou pouco após Hitler ganhar as eleições de 1933. Já nesses anos nos proibiram de nos casar com "arianos" na Alemanha, e inclusive se estabeleceu a Semana de Limpeza Cigana, nossa versão da Noite dos Cristais... Por fortuna, pouco a pouco estamos deixando de ser os grandes esquecidos daquele horror", mostra-se esperançoso Sarguerá, que se emociona quando conta como sua mãe ajudou vários judeus a escapar para a Espanha.

“Também conseguia alimentos trocando as mantas que colhia em Rivesaltes. Fugia-se constantemente”, acrescenta o Tio Pipo. Depois de outras peripécias, mãe e filhos fugiram quando, pouco tempo depois do nascimento de Sarquerá, Rivesaltes foi fechado e seus prisioneiros repassados para outros complexos da barbárie nazista. "Até o fim da guerra fugimos de um lado para o outro, evitando o front, dormindo debaixo de pontes... Nascer no inferno marca qualquer um", insiste Sarquerá. Enquanto parte, alguém cantoria o Gelem gelem, o hino internacional cigano. Ou o mesmo que: "Andei, andei".

Fonte: El País (ed. espanhola)
Título original: “Hay países donde los gitanos viven peor que en la II Guerra Mundial” ciganos
http://sociedad.elpais.com/sociedad/2014/04/11/actualidad/1397233656_151339.html
Tradução: Roberto Lucena

terça-feira, 15 de abril de 2014

Polícia procura ex-líder da Ku Klux Klan que matou três pessoas em ataque antissemita nos EUA

PÚBLICO. 14/04/2014 - 10:48. (atualizado às 15:32)

Atirador disparou sobre pessoas num centro comunitário e num lar de idosos judaico.

Duas das vítimas estavam no centro
comunitário judaico Dave Kaup/Reuters
Três pessoas foram mortas a tiro, neste domingo num centro comunitário e num lar de idosos judaico, em Kansas City, Estados Unidos. O autor dos dois ataques já foi identificado: é um ex-líder do grupo racista Ku Klux Klan, que já tentou concorrer à Câmara dos Representantes, em 2006, e ao Senado, em 2010.

O capelão do Departamento da Polícia de Overland Park, Herbert Mandl, confirmou à CNN que o primeiro ataque ocorreu no centro comunitário judaico às 13h locais (19h em Lisboa), quando decorriam as audições para o KC Superstar, um concurso para aspirantes a cantores, inspirado no conhecido programa American Idol.

De acordo com Herbert Mandl, o atirador, Frazier Glenn Cross, de 73 anos, com ligações conhecidas à Ku Klux Klan, perguntou a várias pessoas, das perto de 75 que se encontravam no local, se eram judeus, antes de efetuar os disparos. As duas primeiras vítimas foram William Corponon, que morreu no local, e o seu neto, de 14 anos, que no hospital acabou por não resistir à gravidade dos ferimentos

Posteriormente, Frazier Cross entrou no carro e dirigiu-se ao lar judaico Village Shalom, quinze minutos depois do primeiro ataque. Aí matou a tiro uma mulher, de 70 anos. O atirador acabou detido no local e, de acordo com a televisão local KBH, filial da NBC, enquanto era levado pelas autoridades gritou “Heil Hitler”. Os ataques aconteceram na véspera do feriado judaico de Pesach, cujas comemorações começam no pôr-do-sol de segunda-feira.

O Presidente norte-americano falou sobre o caso, afirmando que a violência religiosa não deve tem lugar nos Estados Unidos. "Ninguém deve temer pela sua segurança quando se junta com os seus companheiros de fé. Ninguém deve temer quando se junta a outros para rezar", declarou Barack Obama. "Enquanto americanos, devemos erguer-nos todos contra esta violência, que não tem lugar na nossa sociedade."

O Presidente apresentou as condolências às famílias e garantiu que sua equipe irá “manter um contato estreito com os parceiros federais, estaduais e locais, de modo a fornecer os recursos necessários para apoiar a investigação em curso”.

A organização de defesa dos direitos civis Southern Poverty Law Center, que se especializa em estudar e acompanhar grupos e indivíduos de extrema direita e supremacistas brancos nos Estados Unidos, conhece bem o percurso de Glenn Cross, diz a Associated Press. Foi forçado a sair do exército no final da década de 1970 devido à sua ligação ao Klan e a grupos neonazis. Pertencia a um grupo chamado A Ordem, que advogava o uso de violência contra negros e judeus.

Fonte: Público (Portugal)
http://www.publico.pt/mundo/noticia/ataque-antisemita-faz-tres-mortos-nos-eua-1632201

Comentário: ao que tudo indica ele já foi capturado (preso) conforme a matéria deste link. Como eu já havia colocado o texto acima resolvi manter mesmo assim.

Só que tem um dado que não saiu nessas edições (matérias) em português sobre o caso: é a ligação direta do atirador (assassino) acima com os negacionistas do Holocausto.

Curiosamente, ainda sobre o caso acima, pois muitos "revis" sempre mencionam a aliança política e militar Israel-EUA ignorando esses contradições do discurso "revi", e também por haver uma direita histérica no Brasil que só faltar dar pitis quando alguém critica ou aponta esses fatos ou qualquer coisa relacionada aos Estados Unidos (quem quiser dá uma olhada, deem uma lida em posts recentes sobre a crise da Ucrânia e a Rússia, eu confesso que duma próxima não serei tão "amistoso" discutindo pois não irei tolerar esse ataque ad hominem gratuito sem nunca ter tido discussão antes, não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas pra saírem xingando a esmo - sem que haja um ataque ou coisa parecida - quem não tem nem familiaridade), mas como eu dizia, eu fico perplexo quando chega gente idolatrando os Estados Unidos ou comentando certas bobagens sobre História desses países (geralmente com clichês ou pregação política idiota, rasteira) sem nem ter ideia de que um dos maiores propagadores de material antissemita, supremacista (racista, discurso de ódio racial em geral) e neonazista (refiro-me a países) são os Estados Unidos.

Eu não sou propriamente um anti-norte-americano, mas também não "morro de amores" pela política daquele país, pra não dizer de vez que rechaço (eu rechaço). Eu não precisa nem comentar isso mas sempre vem gente fazer acusações políticas sem ter ideia do que as pessoas pensam politicamente. Tenho todo o direito de ter essa opinião. Não sou obrigado a gostar ou idolatrar países porque uma parte dos brasileiros ficam delirando e idealizando nações e países por terem algum problema de identidade com o Brasil. Eu já deixei claro que não gosto desse comportamento de alguns brasileiros com o discurso de "eu odeio o país, odeio ser brasileiro", idolatrando países achando que irão suprir o seu problema identitário com o Brasil dessa forma, repetindo aqueles clichês cretinos contra o país que acho que a maioria que chegar a ler esse comentário já deve ter visto algum comentário assim. Se você odeia o país, dane-se. Simples assim.

Só estou externando esse tipo de opinião porque o que eu já tive que aturar (muito, mas põe muito nisso) de gente vindo encher meu saco achando que eu idolatro ou idealizo país A, B ou C é algo que passou dos limites faz tempo e cheguei a conclusão que só param de te encher o saco quando você escracha logo a opinião sobre essas questões. Até porque muitos dos que vem malhar/criticar não o fazem quando a gente faz um post e sim muito tempo depois se se esbarrar em alguma discussão. Ou seja, nem franqueza de virem criticar honestamente essas pessoas têm, ficam remoendo ódio (que não é bom) pra vir te atacar ou criticar depois, atitude covarde.
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Deixando claro que: o fato de não concordar (de rechaçar) com a política dos EUA, isso não me torna um sectário. Eu sei separar a política externa de um país dos seus cidadãos, principalmente os conscientes. Tenho muito mais antipatia por brasileiros idiotas deslumbrados com o exterior que qualquer pessoa de fora do país. Quem geralmente fomenta certa antipatia a alguns países no Brasil são esses brasileiros deslumbrados. O que ocorre? As pessoas rechaçando o comportamento ridículo deles acaba criando alguma aversão ou antipatia a alguns países (que eles idolatram). Há norte-americanos fora de série, no próprio Holocaust Controversies (blog) há pelo menos dois, e um deles eu sempre costumo traduzir os textos e colocar aqui. No Rodoh também há alguns, e gente de vários países. Por sinal, sou na grande maioria das vezes melhor tratado por essas pessoas do que muito brasileiro idiota cheio de preconceitos e com o problema que citei acima (identitário).

Mas voltando de novo ao assunto... não deixa de ser um paradoxo esses casos, enquanto há uma aliança que hoje é contestada em quase todo mundo (Israel-EUA), e que sempre ressaltam um certo ufanismo de parte à parte entre esses países, os Estados Unidos são o país onde mais se difunde material antissemita e neonazista na rede.

Se não for o maior propagador desse tipo de material é um dos maiores. Fica a dica pro pessoal desavisado que vai pra esses cantos ignorando certos aspectos históricos locais porque vivem "florindo" o mundo, numa dessas vocês rodam. Há muita violência no Brasil, inclusive esse é um dos (ou o  maior) problema do país atual, só que a natureza da violência no Brasil ainda é de outro tipo (no geral), o povo tem ideia do tipo de violência que rola no país, não é uma violência movida por ódio ideológico-sectário e étnico embora o ódio sectário-político já anda flertando perigosamente no país entre a população. Mas violência com motivação política e étnica é algo mais difícil de se conter e imprevisível, se se formar um conflito étnico, sabe-se lá o que pode sair disso, um banho de sangue pesado, por exemplo. Um cara desses sozinho tem potencial pra fazer uma desgraça como aquele outro extremista de direita da Noruega que matou mais de 80 em um só dia (os que se enquadravam como alvos/inimigos políticos dele a serem exterminados), imagina um batalhão com esse tipo de perfil totalmente armado...

Pelo visto esse pessoal que idealiza países não têm a mínima ideia do papel da Klan na construção de identidade nacional nos EUA. Além de tratarem esses casos de forma banal, uma hora ficam dançando em cima de carniça em matéria sensacionalista de TV e coisas do tipo, noutra acham que o sangue não pinga de verdade quando esses extremistas de direita atacam dessa forma e ficam tentando negar a natureza política deles, sinceramente não sei por qual razão pois quem não se enquadra neste tipo de quadro extremista não costuma fazer negação da tintura política desses grupos.

Um caso desse tipo da matéria não chega a espantar pra quem já viu pilhas de textos e discussões de "revis" em fóruns estrangeiros, dá pra saber do grau de ódio desses caras (tem muito Klanboy nesses fóruns), e não é um ódio do tipo "eu tenho aversão", é um ódio mais profundo ligado a extermínio mesmo, quando eles cismam de partirem pro tudo ou nada, é "tudo ou nada" mesmo, e 'ai' de quem estiver na frente deles. Se eles tivessem poder bélico prum estrago maior eles não hesitariam em mandar dessa "pra melhor" quem eles julgam como inimigos de acordo com a "ideia de civilização" ("purinha") deles. Pra esses caras saírem do discurso pra execução de fato, basta pintar alguém mais afoito ou "suicida" (kamikaze) entre eles pra fazer uma desgraça dessas da matéria.

Em suma, não vou me alongar mais no comentário (pois já me alonguei muito, como de costume, mas tive que externar algumas opiniões pois estou bem de saco cheio desse pessoal fazendo pregação), mas quem quiser que tire suas conclusões do caso.

Reservo-me ao direito (como sempre) de não ter que concordar com quem chega com discurso pronto repetindo clichês de revistas/jornais brasileiros meia boca ou enviesados ao extremo, panfletagem rasa não tem conteúdo. Se ficarem repetindo clichê/discurso da Guerra Fria porque "viajam na maionese" pra entender a realidade atual do país e do mundo por sectarismo político, vão pregar isso (encher o saco) com quem prega esse tipo de sandice (porcaria), aqui não, pra mim, não. Não sou obrigado a aturar ou tolerar isso e já aturei demais gente vindo discutir bobagem que leram em sites extremistas ao invés de lerem algum livro/texto/artigo sério sobre essas questões pra se posicionarem melhor politicamente sobre isso.

Se ainda discutissem pra aprender, tudo bem, mas ficam querendo confirmação de suas crenças políticas ignorando a posição política dos outros (que pode não ser a mesma). Não irei chancelar sandice de terceiros, quer seja "revi" ou gente que se apresenta contra o "revisionismo" mas é tão sectário e intolerante como esses caras. Isso tinha aos montes no Orkut, com o declínio daquele site esse tipo de grupo migrou obviamente pra web (blogs, fóruns etc) e pro Facebook.

Mesmo assim esse episódio me surpreendeu em termos, não por não achar que não sejam capazes disso, mas apenas por não saber que havia acontecido isso. Vou ver se consigo fazer depois um post sobre a conexão desse escroque acima (o atirador/assassino) com o negacionismo.

Acho bizarro que no país ainda não tratem esse tipo de extremismo de direita como questão de segurança de Estado. Melhor remediar do que o país vir a ser pego de surpresa com um "maluco" desses, caso recente demonstra o tipo de estrago que pode ocorrer (Massacre de Realengo). Em todo caso, fica a dica sobre a conexão do atirador com o "revisionismo" caso alguém queira checar. Se algum site de notícias ler o blog e quiser detalhar mais sobre o atirador, taí a dica.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O Bund norte-americano. O fracasso do nazismo norte-americano (a quinta coluna)

O Bund (União) Norte-americano. O fracasso do nazismo norte-americano: a tentativa do Bund teuto-norte-americano de criar uma quinta coluna" estadunidense

Por Jim Bredemus

Muitos norte-americanos temiam a presença de uma "Quinta Colina" alemã antes da Segunda Guerra Mundial. No caso do desorganizado e mal conduzido Bund norte-americano, mas a maioria desses medos acabaram por se mostrar injustificados.

Após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, alguns norte-americanos descendentes de alemães formaram grupos de apoio ao partido nazista na Alemanha, na tentativa de influenciar a política norte-americana. O mais famoso desses grupos foi o "Bund teuto-norte-americano", que tentou se modelar como um braço norte-americano do Terceiro Reich de Hitler. Embora estes grupos usassem uniformes e ostentassem suásticas, na realidade, eles tinham poucos laços com a Alemanha nazista e o apoio recebido entre a grande comunidade teuto-norte-americana foi mínimo. No entanto, o grupo promoveu fortemente o ódio aos judeus e se esforçou para trazer o fascismo de estilo nazista para os Estados Unidos.

O suporte inicial para as organizações fascistas norte-americanos veio da Alemanha. Em maio de 1933 o Vice-Führer nazista Rudolf Hess deu autoridade ao imigrante alemão Heinz Spanknobel para criar uma organização nazista norte-americana. Pouco tempo depois, os "Friends of New Germany" (Amigos da Nova Alemanha) foi criada com a ajuda do cônsul alemão em Nova York. A organização tinha sede em Nova York, mas teve uma forte presença em Chicago.

A organização liderada por Spanknobel era abertamente pró-nazista, e engajada em atividades como atacar o jornal em idioma alemão New Yorker Staats-Zeitung com a demanda de que artigos simpáticos aos nazistas fossem publicados, e também na infiltração de outras organizações teuto-norte-americanas não-políticas. Spanknobel foi deposto como líder e posteriormente deportado em outubro de 1933, quando se descobriu que ele não tinha conseguido se registrar como um agente estrangeiro.

(Foto) Supostamente 22.000 apoiadores nazistas participaram de um comício do Bund norte-americano no Madison Square Garden, em Nova York, em fevereiro de 1939, sob a guarda da polícia. Manifestantes protestaram em frente (acima, à direita). Um desfile do Bund norte-americano pelo distrito de Yorkville, em Nova York, no Upper East Side de Manhattan (abaixo) atraiu ambos, os partidários e os manifestantes - e a imprensa.

A organização existiu em meados dos anos de 1930, embora sempre se manteve pequena, com uma adesão entre 5.000-10.000. Principalmente os cidadãos alemães vivendo nos EUA e emigrantes alemães que só recentemente haviam se tornado cidadãos compunham suas fileiras. A própria organização ocupava-se com ataques verbais contra judeus, comunistas e ao Tratado de Versalhes. Até 1935, a organização foi abertamente apoiada pelo Terceiro Reich, embora as autoridades nazistas logo perceberam que a organização estava fazendo mais mal do que bem a imagem dos nazistas nos Estados Unidos e em dezembro de 1935 Hess ordenou que todos os cidadãos alemães deixassem a "Friends of New Germany" (Amigos da Nova Alemanha); além disso, todos os líderes do grupo foram chamados para a Alemanha.

Não muito tempo depois dos "Friends of New Germany" (Amigos da Nova Alemanha) caírem em desgraçado por conta dos nazis e ser desmontada, uma nova organização com objetivos semelhantes surgiu no seu lugar. Formada em março de 1936 em Buffalo/Nova York e se autodenominando "German-American Bund" (Bund teuto-norte-americano) ou Amerikadeutscher Volksbund, esta organização escolheu Fritz Kuhn como seu Bundesleiter.

Como nativo de Munique, Kuhn lutou no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Depois de receber uma educação em engenharia química, Kuhn brevemente trabalhou no México antes de vir para os Estados Unidos e, em 1934, adquiriu a cidadania norte-americana. Kuhn foi inicialmente eficaz como líder e foi capaz de unir a organização e expandir seus membros.

Kuhn era a figura perfeita para a organização. A fachada de suásticas e "Sieg Heil" prevaleceu, mas na realidade Kuhn viria a se tornar visto simplesmente como um vigarista incompetente e mentiroso que dominava pobremente o inglês; até mesmo os nazistas tinham vergonha dele. O embaixador alemão Hans Dieckhoff o chamou de "estúpido, barulhento e grotesco".

A organização foi logo preenchida com aqueles que se autodenominaram de "Germans in America" (Alemães nos EUA) e sonhavam com o dia que o nazismo governasse os Estados Unidos. Apesar de terem sido instruídos a não aceitar cidadãos alemães em sua organização, eles não quiseram desligar todos os interessados e muitos imigrantes que haviam entrado. Estima-se que cerca de 25% dos membros do Bund eram cidadãos alemães - o restante era em sua maioria descendentes de primeira ou segunda geração de alemães. A pesquisa indica que a maioria dos membros do Bund eram de origem de classe média-baixa.

O Bund logo começou a realizar comícios cheios de suásticas, saudações nazistas e o canto de canções alemãs. O Bund criou acampamentos recreativos como o Campo Siegfried, em Nova York e em Camp Nordland, Nova Jersey. Também estabeleceu o acampamento Hindenburg em Wisconsin e o grupo reunia-se com frequência em Milwaukee e em cervejarias de Chicago.

O Bund criou uma versão norte-americana da Juventude Hitlerista em que crianças são educadas na língua alemã, com história alemã e filosofia nazista. Embora esta organização tentou se diferenciar da previamente vencida "Friends of New Germany" (Amigos da Nova Alemanha), o Ministério das Relações Exteriores alemão comentou que "Na realidade ... eles são as mesmas pessoas, com os mesmos princípios e a mesma aparência".

A organização impetuosamente promoveu o mesmo antissemitismo do Terceiro Reich: ele distribuiu panfletos "arianos" do lado de fora dos estabelecimentos de propriedade de judeus e fazendo uma campanha na eleição presidencial de 1936 contra Franklin Delano Roosevelt, que era acusado por eles de ser parte da "conspiração" judeu-bolchevique. O Bund mesmo gerou vários incidentes de violência contra judeus-americanos e empresas de propriedade de judeus. Numa pesquisa de opinião feita no final dos anos de 1930 rotulavam Fritz Kuhn como o líder antissemita nos EUA.

Em 1936, Kuhn e alguns de seus seguidores viajaram à Berlim para participar dos Jogos Olímpicos de Verão de 1936. Durante sua visita, Kuhn foi convidado para ir à chancelaria do Reich e ter sua foto tirada com o Führer. Isso dificilmente significava um endosso de Hitler, que fez muitas fotos cerimoniais no espírito dos Jogos Olímpicos, mas para Kuhn isto simbolizou seu batismo como Bundesführer dos Estados Unidos.

O Bund começou a atrair a atenção do governo federal no verão de 1937, com os rumores de que Kuhn tinha 200.000 homens prontos a pegar em armas. Durante este verão uma investigação do FBI sobre esta organização foi realizada, mas nenhuma evidência de irregularidade foi encontrada. Mais tarde, em 1938, Martin Dies, do Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara descontroladamente proclamou que Kuhn tinha 480.000 seguidores. Registros mais precisos mostram que no auge do seu poder, em 1938, Kuhn tinha apenas 8.500 membros e outros 5.000 "simpatizantes".

Foi neste momento que o embaixador alemão para os Estados Unidos Hans Heinrich Dieckhoff começou a expressar sua desaprovação e as preocupações com o Bund. Dieckhoff escreveu aos funcionários em Berlim que o Bund nunca teria sucesso nos EUA porque nenhuma "minoria" alemã existia nos EUA no sentido europeu. Ele escreveu que a maioria dos movimentos de imigrantes nos Estados Unidos foram muito reprovados e que a organização estava apenas criando sentimentos anti-alemães entre os norte-americanos.

O ceticismo de Dieckhoff foi bem justificado. Muitos norte-americanos alemães eram indiferentes em relação à política e pesquisas feitas na época mostraram que alemães norte-americanos não eram muito mais simpáticos à Alemanha nazista do que os norte-americanos tradicionais. A maioria dos norte-americanos, incluindo a maioria dos norte-americanos alemães, viam Kuhn e o Bund como apoiadores da presença nazista sob comando de Hitler, quando de fato isto eram apenas percepções complicadas de Kuhn.

Embora tenha havido algum contato oficial entre os funcionários do Bund e os nazistas, para a maior parte do governo nazista era desinteressado na organização e não deu à organização nenhum apoio financeiro ou verbal. A maioria dos funcionários do Terceiro Reich desconfiavam de Kuhn e do Bund, e o próprio Adolf Hitler expressou seu descontentamento quando soube da organização. Em 1 de Março de 1938, o governo nazista - em parte para apaziguar os EUA, e em parte para se distanciar de um embaraçosa organização - firmemente declarou mais uma vez que nenhum cidadão alemão pode ser membro do Bund e, ainda, que nenhum emblema e símbolos nazistas poderiam ser utilizados pela organização.

Em março de 1938, Kuhn viajou à Berlim para recorrer da decisão que havia sido tomada. Ele se reuniu com o assessor de Hitler, o Capitão Wiedemann, que simplesmente disse a Kuhn que a decisão era final. Apesar de sua rejeição, Kuhn retornou para se gabar aos norte-americanos de suas reuniões com Goering e Goebbels e os laços que ele tinha feito com Hitler. Tudo isto eram fabricações (mentiras).

Em fevereiro de 1939, Kuhn e o Bund realizaram seu maior comício no Madison Square Garden - ironicamente, o comício que marcou o começo do fim da organização. Para uma multidão de 22.000 pessoas, ladeado por um retrato enorme de George Washington, suásticas e bandeiras norte-americanos, Kuhn atacou FDR por ser parte de uma conspiração judaico-bolchevique, chamando-o de "Frank D. Rosenfeld" e criticando o New Deal, que Kuhn havia considerado como o "The Jew Deal" (literalmente "O Trato Judeu"). Três mil membros da Ordnungsdienst, o braço militante do Bund, estavam preparados e brigas eclodiram no meio da multidão entre aqueles que haviam vindo para importunar Kuhn.

Após o comício, o Procurador do Distrito de Nova York, Thomas Dewey, prendeu Kuhn sob a acusação de apropriação indébita e falsificação. Ele não só foi condenado por essas acusações, mas ele também confessou ter sido preso várias vezes por embriaguez, envolvimento em casos extraconjugais e de ter embolsando 15.000 dólares do rali no Madison Square Garden. Após a guerra, Kuhn foi deportado para a Alemanha; ele morreu ali sem a menor cerimônia em 1951.

Após a prisão de Kuhn, o Bund lentamente secou, até sua dissolução em 8 de dezembro de 1941, após o ataque a Pearl Harbor. Depois que os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha, as autoridades federais começaram a prender funcionários do Bund. O sucessor de Kuhn Gerhard Kunze foi capturado no México e condenado a 15 anos de prisão por "atividades subversivas". Vinte e quatro outros oficiais foram condenados por conspiração por violar a Lei de Serviço Seletivo de 1940 e cumpriram pena na prisão. Alguns outros líderes do Bund cometeram suicídio antes que o FBI apanhasse eles. Embora alguns membros do Bund tenham tido sua naturalização revogada e alguns passaram um tempo em campos de prisioneiros, a maioria dos membros foram deixados em paz depois da organização ser dissolvida.

No final, o Bund de imigrantes alemães teve pouco poder, e com frequência fizeram com que norte-americanos médios se tornassem menos simpáticos com a Alemanha, como as visões extremistas antissemitas e pró-nazistas do Bund não circulavam bem entre o público norte-americano. Mesmo a Alemanha nazista percebeu isso e tentou distanciar-se do Bund. Apesar de todas as marchas, suásticas e comícios encenados pelo Bund, o prefeito LaGuardia de Nova York adequadamente descreveu isso como sendo simplesmente "uma agitação".

Fontes:

1. Bell, Leland. “The Failure of Nazism in America”. Political Science Quarterly. Vol 85(4). Dec. 1970, pág. 585.
2. MacDonnell, Francis. Insidious Foes: The Axis Fifth Column and the American Home Front. Oxford University Press, New York: 1995.
3. Remak, Joachim. “Friends of the New Germany: The Bund and German-American Relations”. Journal of Modern History. Vol 29(1). Mar. 1957, p. 38.
4. Smith, Gene. “Bundesfuehrer Kuhn”. American Heritage. Vol 46(5). Sep. 1995, p. 102.

Fonte: Texto do site traces.org
http://www.traces.org/americanbund.html
Título original: American Bund. The Failure of American Nazism: The German-American Bund’s Attempt to Create an American “Fifth Colum
Tradução: Roberto Lucena

A internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, diz Umberto Eco

Eu não irei colocar o texto todo com a entrevista dele pois é longo e o que achei interessante no texto foi mais a parte que toca num ponto crucial da internet. O Umberto Eco tocou num problema central da web: a internet é perigosa para pessoas que não possuem critérios sobre o que ler ou que não têm interesse em aprender. E há os que tem dificuldade inclusive em achar notícias.

Acho que foi isso que ele quis dizer com a frase ao usar o termo "ignorante" e "sábio". Infelizmente é uma verdade e uma triste constatação, ele conseguiu deduzir um problema corriqueiro (e sério) do uso da rede que muita gente tenta explicar e ele detalhou a questão em poucas linhas. Isso diz respeito não só à questão do "revisionismo" como de qualquer assunto referente à política e História.

Quem quiser ler a entrevista inteira pode conferir neste link. Como não achei edição dessa entrevista em algum site estrangeiro com algo similar a esta afirmação dele (a entrevista foi exclusiva pra revista), então o jeito foi colocar este texto da revista a contragosto.

Explico o motivo do "a contragosto": eu já comentei antes que ando evitando colocar coisas publicadas pela mídia brasileira sobre esses assuntos (extrema-direita, nazismo, Holocausto etc) por considerar que o nível de partidarismo da grande mídia do Brasil (salvo exceções) chegou a um patamar crítico que já beira o descrédito quase total da mesma, além de outras questões que não vou discutir neste post. A mídia brasileira (generalizando) vive numa "bolha", alheia à realidade, parece um personagem do Show de Truman (quem não assistiu o filme pode acessar o link anterior que tem um resumo do filme, mas vale a pena assistir pois só de ver o filme entenderão a analogia), onde ela acha que manipula todo mundo subestimando o senso crítico da população. É um mau hábito adquirido desde o tempo da ditadura (1964-1985) ou antes dela.

A mídia (generalizando) age assim por algumas razões óbvias, como por saber sobre o baixo grau de erudição do povo e de uma certa aversão de muita gente em discutir civilizadamente questões políticas pra aprender etc e chegar a um denominador comum, refiro-me as pessoas comuns e não a radicais políticos. Este comportamento "autista" da mídia não anula o fato de que esta mesma população esteja desenvolvendo um senso crítico do que leem e ouvem como noticiário (é o que está ocorrendo), de forma lenta, mas está, daí o descrédito cada vez aumentando diante de mídia manipulada.

Se eu conseguir achar alguma entrevista do U. Eco similar a essa em algum site estrangeiro, eu trocarei o texto, mas por considerar que essa informação é mais importante que minha "birra" (que não é birra, é opinião formada mesmo), abrirei mais esta exceção. Mas pretendo manter a política de evitar ao extremo textos da mídia brasileira, de forma indenida, até que (quem sabe) mudem de postura e deixem o partidarismo rasteiro e alienante de lado.

Mas alguém pode chegar e dizer: "Ah, você está sendo generoso ou ingênuo ao achar que irão mudar de postura", bom, primeiro que não se trata de ingenuidade e nem de generosidade adotar essa postura, da mesma forma que não mudarem, eu também não mudo de postura e mantenho essa política de evitar textos da mídia brasileira. Até que provem o contrário, as pessoas são livres no país pra ler e repassar o que quiserem, portanto... quem não gosta, paciência. O velho e bom "bateu, levou" muitas vezes costuma funcionar.

Mas sem delongas (só que infelizmente tenho que deixar registrado a opinião acima porque de fato estou colocando isso a contragosto), segue abaixo o trecho que destaco da entrevista do Eco com uma crítica ao uso da internet, e que cabe perfeitamente ao caso brasileiro (e de maioria dos países) e o quanto se vê gente lendo bobagem sem usar uma "peneira" (critério) pra filtrar informação, achando que estão aprendendo ao repetir como papagaios panfletos e informação distorcida.
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A internet é perigosa para o ignorante e útil para o sábio, diz Umberto Eco

Em 2011, aos 80 anos, Umberto Eco concedeu uma entrevista à revista Época onde comentou sobre os prós e contras da internet como ferramenta formadora de indivíduos leitores críticos e/ou analfabetos funcionais. E sobre a acessibilidade do conhecimento possibilitada pela mesma. Confira abaixo a reprodução desta entrevista e não deixe de compartilhar conosco a sua opinião sobre o assunto.

ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber?

Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura?

Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação?

Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

domingo, 13 de abril de 2014

Heidegger privado

Heidegger privado. A divulgação das cadernetas que o filósofo escreveu durante seus anos no partido nazista provoca polêmica
Luis Fernando Moreno Claros 11 ABR 2014 - 19:00 BRT

Martin Heidegger, identificado com um x, em um ato
de propaganda nazista em novembro de 1933. / Ullstein Bild
Três novos volumes pertencentes à monumental edição das obras completas de Martin Heidegger (1889-1976), aparecidos em março na Alemanha, chamaram a atenção para a personalidade e a obra do autor controverso de Ser e tempo, “protagonista supremo da filosofia do século XX” para muitos, “filósofo nazista” a secas e trapaceiro para outros. Tais volumes constituem as primeiras revelações dos chamados “livros pretos”, as cadernetas de capas de borracha preta que Heidegger usava para fazer anotações sobre seus pensamentos. Ele começou a usar este tipo de caderno em 1931 e continuou usando até pouco antes de sua morte.

Por vontade sua, as cadernetas só deveriam ser publicadas como epílogo de suas obras completas. Mantidas no Arquivo de Marbach, ninguém podia lê-las até então. O filho não-biológico de Heidegger, Hermann, proprietário do legado de seu pai, manteve um silêncio ciumento sobre o mistério do seu conteúdo; mas também deu a entender que, entre pensamentos muito valiosos para interpretar a obra de Heidegger, as cadernetas continham “respostas” que esclareceriam o seu envolvimento e ruptura com o Nacional-Socialismo. Além disso, revelaria alguma coisa a mais até então escondida? E uma pergunta candente: Heidegger era antissemita? A partir daí que os estudiosos do filósofo, e não apenas eles, esperavam com expectativa o aparecimento desses volumes. Será que vai atender a tantas expectativas?

Estes três volumes protegidos contêm a transcrição meticulosa de 14 livros negros intitulados “Reflexões”. Dos 34 conservados, ainda restam ser publicados mais 20 com títulos como “Anotações”, “Sinais” e “Noturno”, entre outros; mais 6 volumes devem sair para completar os 102 planejados para culminar na enorme “obra completa” de Heidegger. As mais de mil e seiscentas reflexões heideggerianas, a maioria numerada, que são agora são divulgadas pela primeira vez, datam do período entre 1931 e 1941; uma década maldita para os alemães e pouco encantadora para Heidegger. Hitler chega ao poder em 1933; neste mesmo ano, “o filósofo do ser”, o “rei secreto do pensamento” – era assim que os alunos chamavam o professor Heidegger – é nomeado reitor da Universidade de Friburgo. Em 1939, estoura a Segunda Guerra Mundial e, de fundo, a humilhação dos judeus, premonitória de seu extermínio.

"O pensador se emocionou com Hitler, acreditou que simbolizava uma nova era que levaria os alemães à verdade e ao orgulho"

Surpreendentemente para muitos de seus conhecidos que não viam nele um “nazista”, Heidegger comungou com os novos detentores do poder na Alemanha; não revelou nem farejou o perigo, mas muito pelo contrário. Enquanto o filósofo Jaspers, amigo de Heidegger, e muitos jovens “heideggerianos” seguidores de seus seminários – Karl Löwith, Hans Jonas, Günther Anders, Herbert Marcuse ou Hannah Arendt – ficaram chocados por aquele revés político, o novo reitor desfilava aqui e ali vestindo a águia alemã sobre a lapela; ou posava para a foto oficial da Universidade com bigode estilo Chaplin-Hitler, rosto severo de führer e olhos iluminados. Em conversa com Jaspers, que expressou que Hitler não era um homem de cultura e muito pouco se poderia esperar dele, Heidegger lhe respondeu: “Isso não importa, o senhor apenas observe suas mãos bonitas”. O “filósofo do começar” se emocionou com Hitler, acreditou que seu advento simbolizava o início de uma nova era que iria encaminhar os alemães à verdade e ao orgulho de sua existência.

Heidegger, bombástico e vazio em sua gravidade política, agiu como um pequeno ditador durante o ano em que atuou como reitor: surpreendeu a universidade. Acreditando ser um novo Heráclito, um filósofo fundador e único, conclamou os alunos a pensar tudo de novo, a “decidir” estabelecer a sabedoria e a cultura como valores absolutos que deveriam ser consagrados com fanatismo. Os outros professores e autoridades nacional-socialistas não concordavam com esse desejo tão temerário de renovação e isolaram Heidegger. Seus anseios de führer universitário, talvez até mesmo de nazista iludido, entravam em confronto com a verdade do que estava acontecendo em todos os lugares, o que não demorou a advertir, assim como confiou a suas cadernetas. Na verdade, o triunfo era do partidarismo e a bruta cultura imposta pelos vencedores – uma “cultura” de corte “popular” –; triunfavam o “ruído” e a “propaganda” (“arte da mentira”) – anotou ele. A Universidade se encontrava tomada por estudantes em uniforme das SA; era preciso medir as palavras naquela instituição transformada em “escola técnica”. Em suma, Heidegger ficou desiludido.

Em 28 de abril de 1934, ele escreveu: “Meu cargo foi posto à disposição, já não é possível uma responsabilidade. Que viva a mediocridade e o ruído!”. Heidegger estava irritado com os nazistas, embora em privado. Logo viu que o grande perigo que estava à espreita na Universidade e, por extensão, na Alemanha constituía “essa mediocridade e essa nivelação que dominam sobre todas as coisas”. Para ele, era insuportável que “professores de escolas grosseiros, técnicos desempregados e pequenos burgueses complexados se colocassem como guardiães do povo”. Em outras anotações posteriores – críticas, como todas as suas – se interrogava sobre a valentia do perguntar, tão cara à sua filosofia. “Por que falta agora no mundo a disposição de saber que não temos a verdade e que devemos perguntar de novo?”. Na época em que vive, escreve novamente, as ciências do espírito se veem submetidas a “uma visão política do mundo”, a medicina se converte em “técnica biologicista”, o direito é “supérfluo” e a teologia “carece de sentido”.

Após o fracasso de seu mandato como reitor, afastado da política (“a real política, uma prostituta”), Heidegger continuou com suas palestras e seminários. Em 1936, começou suas palestras sobre Nietzsche e a interpretar a poesia de Hölderlin. Nos livros negros de 1938 e 1939, os dois autores são onipresentes; o filósofo os via como portadores de “verdades” que os alemães não entendiam. Incompreendidos e solitários, sentia-se próximo a seus destinos: Alemanha, “povo de pensadores e poetas”, não sabe como “povo” apreciar os seus pensadores e poetas. Entretanto, começa a guerra. Heidegger, confinado à sua cabana alpina de Todtnauberg, se concentrou em suas especulações sobre a "existência" ou Dasein imerso nos entes e jejum do “ser”. Em suas notas jamais vemos um eu pessoal que expresse sentimentos; Heidegger é frio e dramático, sem um pingo de humor; só abstração e torção das ideias que saíam de sua caneta.

Algumas anotações de 1941, com ecos antissemitas, causaram polêmica na imprensa internacional. Heidegger, que nunca falou sobre o Holocausto, rejeitava as teorias raciais classificando-as de “mero biologicismo”, mas também escreveu que “... os judeus, dado o seu acentuado dom calculista, vivem desde há muito tempo segundo o princípio racial; daí que agora se opõem com tanto afinco à sua aplicação”. Outras reflexões sustentam que “judaísmo”, “bolchevismo”, “nacional-socialismo” e “americanismo” são estruturas supranacionais que fazem parte do poder ilimitado de uma “trama universal” – “Machenschaft” – a qual só move “interesses” que causaram a guerra mundial. A guerra é a consumação da “técnica”; seu último ato será a “explosão em pedaços de terra e o desaparecimento da humanidade”. Tal resultado não seria uma “desgraça”, escreve o filósofo, “porque o Ser ficaria limpo de suas profundas deformidades causadas pela supremacia das autoridades”. Em outra nota, Heidegger sentencia: “Só restam duas possibilidades ao homem espiritual ativo: estar na ponte de comando de um caça-minas ou voltar o barco do mais extremo perguntar em direção à tempestade do Ser”. Ele escolheu a segunda opção.

No fim da guerra, em 1945, Heidegger é inscrito nas milícias populares para a defesa de Friburgo, mas o Reich capitulou antes que ele pudesse travar combate; sua luta particular se seguiu depois. Rotulado de nazista, os aliados o proibiram de dar aulas. O que mais irritou a comissão que julgou a sua adesão ao nacional-socialismo foi a ausência de arrependimento por parte do famoso professor. Ele se mostrou distante, mudo. Quando voltou a ficar famoso, em vez de dizer algo contundente sobre seu passado ou os crimes nazistas, continuou guardando silêncio. Hannah Arendt atribuiu o seu silêncio enfatizando sua falta de caráter e covardia. Mas havia algo substancial por trás de semelhante silêncio? Um filósofo tão abstrato podia dar respostas claras? (“Toda pergunta, um prazer; toda resposta, um desprazer”, escreveu). Será necessário um estudo profundo dessas cadernetas negras para determinar se as reflexões trazem luz à escuridão de Heidegger. Para começar, uma frase iluminada do próprio Heidegger: “Errar é dom mais escondido da verdade”.

Fonte: El País (edição brasileira)
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/04/09/cultura/1397054643_204960.html

Ver mais:
Heidegger privado (El País, ed. espanhola)

sábado, 12 de abril de 2014

Pausa Musical - Aula Espetáculo de Ariano Suassuna

Como eu coloquei o nome nesse "off topic" de "Pausa Musical" não irei alterar o nome pra adaptar pra outro assunto pois é melhor que todos esses posts "off" fiquem na mesma tag. Em todo caso, essa "pausa musical" não é sobre música e sim sobre uma aula-espetáculo dada pelo escritor, e imortal da ABL, Ariano Suassuna. Vale a pena assistir.

Uma aula da boa e autêntica literatura e cultura brasileira.

Pra quem não conhece (pois o blog é acessado por gente de vários países e podem não conhecê-lo), Ariano Suassuna é paraibano mas passou a maior parte da vida no Recife (chegou ainda adolescente). Suponho que provavelmente ele deve se identificar mais com Pernambuco que com o estado natal, embora nunca tenha renegado sua terra natal. Pra quem não conhece geograficamente e historicamente, há uma certa "simbiose" entre Pernambuco e Paraíba, principalmente na parte litorânea, embora haja diferenças, como por exemplo, nós (pernambucanos) torcemos clubes de nosso Estado e não pra clubes de outros Estados, enquanto na Paraíba a maioria da população torce pra times do Estado da maior emissora do país que ascendeu na Ditadura Militar (não vou citar o nome, quem lê dá pra deduzir qual é). O Ariano Suassuna torce também pro meu time, o que é um grande motivo de orgulho ("mal aê" pro resto de vocês, rsrsrsrs).

Sua peça mais famosas é o Auto da Compadecida, que já foi adaptada pra cinema e TV e é bem conhecida em todo o país. Ele também foi idealizador do Movimento Armorial, acho que dos anos setenta, no Recife. Dá um clique aqui e aqui pra ter uma ideia do que é Movimento Armorial.

Eu não irei discutir aqui no post minha "birra" com o termo regional pois já disse o que penso sobre isso (link) em outros posts mas falta ainda um post pra tratar do livro "A Invenção do Nordeste", ainda farei um post só tratando do assunto (algum dia, quem sabe, 2015, por aí, rs). Esses regionalismos forjados do Brasil (e esse foi criado na Ditadura Vargas) criam mais problemas do que "soluções", mitologias típicas de ideologia fascista, além de atacar a identidade de Pernambuco como Estado com significativa história e trajetória única no Brasil. Não irei abrir mão dessa identidade porque A, B ou C não gosta disso e quer massificar uma identidade oriunda de alguns Estados passando por cima até dos nomes de cada Unidade da Federação Podem ralhar e chiar pois não é algo incompatível com o Brasil (o fato de alguém se identificar com seu Estado e ser brasileiro), pelo contrário, historicamente o Brasil como nação surge em PE (Batalha dos Guararapes) (a ideia de Nação no Brasil), então dá quase no mesmo, mas fica a discussão pra outro post.

Isso não tira o mérito artístico e estético do movimento acima e da literatura criada em torno dessa ideia regional, embora não morra de amores pela ideia de divisão regional (eu detesto mesmo, por se tratar de uma imposição alheia e invenção). Essa melancolia rural tentando forjar um "bom selvagem" mitificado em contraposição a outras regiões do país (criadas na mesma época), em cima de locais que foram núcleos de colonização do Brasil (eram estados e cidades fortes) até a mudança disso em 1808 com a vinda da Coroa Portuguesa pro Brasil fugida de Portugal é um dos maiores deformadores de identidade nacional que já criaram.

Mas deixem essas divagações de lado e confiram a aula-espetáculo abaixo. Taí um Ariano que a gente deve gostar, rs.

P.S. último recado pros que ficam enchendo o saco choramingando citando as porcarias que são passadas na TV aberta brasileira (os canais com maior audiência): ao invés de ficar de choro reclamando e enchendo o saco alheio, podem ir atrás de informação sobre literatura e artes pois há cultura boa no país. Ninguém tem culpa de você não saber disso, então não reclame com afirmações de "não tem nada nesse país" por simplesmente ignorar as coisas. Agora se você espera que isso caia do céu? Continue esperando pois não vai cair, e chorando (longe). Pra quem quer algo impactante em literatura, música etc, irá encontrar sempre coisas boas, quem geralmente reclama é porque só assiste TV e fica bitolado naquele "circuito" alienante, então desligue a TV se a programação não presta. Menos choro e procurem se informar mais a respeito da cultura (literatura, música) já produzida no país.

Post começado em: 05.09.2013

Aula Espetáculo Ariano Suassuna

terça-feira, 8 de abril de 2014

O primo do antissemitismo (filossemitismo) e a mixórdia sobre cristãos-novos e a "concessão" de nacionalidade espanhola

O que significa o "palavrão" mixórdia (confira no link). O assunto dos cristãos-novos será tratado após o assunto do "primo do antissemitismo", embora haja correlação entre eles no que se refere a essa divulgação de sobrenomes de cristãos-novos em sites da web, por isso coloquei os assuntos juntos. O post fala sobre filossemitismo e divulgação errônea de coisas sobre cristãos-novos e procura da nacionalidade espanhola.
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Eu havia lido sobre isso (filossemitismo) há muito tempo, justamente porque vi postura (criando problemas, pra variar) desse tipo no Orkut, e sempre deixava a ideia pendente pra tentar postar em alguma ocasião porque o tema é delicado já que quem se enquadra no rótulo provavelmente não quererá carregá-lo, mesmo com o problema existindo. Quem nutre idolatria achará que não faz "nada demais"

O filossemitismo seria um primo não muito reconhecido do antissemitismo. Por que chamo os dois de "primos"? Um é o extremo oposto do outro, teoricamente, só que o filossemitismo acaba, conscientemente ou não, provocando reações de antissemitismo pelo ato de idolatria ou exaltação em relação a judeus. As pessoas em geral não veem com bons olhos idolatria a países e grupos sem qualquer motivo relevante aparente. A etimologia (definição do termo) de filossemita literalmente seria: filo (partidário/amigo)+semita (relativo a judeus, embora o termo seja mais amplo a "povos semitas", mas é mais usado em relação a judeus nas Américas e Europa). O "filo" também pode se comportar como sufixo como em americanófilo (em relação a norte-americanos), germanófilo (em relação a alemães), francófilo (a franceses), anglófilo (a ingleses) etc, que são os correlatos do filossemitismo só que em relação a outras nacionalidades.

Os links que coloquei acima não citam o termo como idolatria, mas eu cito o termo filossemitismo neste sentido porque é como vejo o comportamento de quem nutre isso se manifestar, não só referente ao filossemitismo como a outros países. A própria germanofilia é muito semelhante a esse comportamento (uma idolatria pela Alemanha), e muitos "revis" são germanófilos e não afirmam ou "acham" que são, chegando a confundir nazismo (ideologia política) como se fosse sinônimo de "nacionalidade alemã", não conseguindo avaliar de forma fria o papel político-histórico da Alemanha, não só no período nazista. Esse tipo de idolatria lembra aqueles fãs de banda de rock endeusando seus "ídolos", os comportamentos são bastante semelhantes.

Mas feita essas considerações, traduzo abaixo um trecho onde dois autores, totalmente distintos ideologicamente, concordam em relação a este problema que citei acima, e cito os dois pois concordo integralmente com eles neste ponto. A citação deste trecho, se eu não estiver enganado, encontrava-se no verbete da Wikipedia em inglês e foi removido dela, mas como eu lembro do trecho mais ou menos decorado, consegui achá-lo facilmente. Então segue abaixo o comentário do N. Finkelstein concordando com o Daniel Goldhagen sobre o que representa o filossemitismo pra eles:

Tirado daqui: Counterfeit Courage: Reflections on “political correctness” in Germany

Texto original:
Such venomous attacks on a Jew and the son of Holocaust survivors are altogether unique in German public life which is otherwise ever so tactful and discreet on all things Holocaust. One can’t but wonder what accounts for them. In fact, the Holocaust has proven to be a valuable commodity for politically correct Germans. By “defending” Holocaust memory and Jewish elites against any and all criticism, they get to play-act at moral courage. What price do they actually pay, what sacrifice do they actually make, for this “defense”? Given Germany’s prevailing cultural ambience and the overarching power of American Jewry, such courage in fact reaps rich rewards. Pillorying a Jewish dissident costs nothing – and provides a “legitimate” outlet for latent prejudice. It happens that I agree with Daniel Goldhagen’s claim in Hitler’s Willing Executioners that philo-Semites are typically anti-Semites in “sheep’s clothing.” The philo-Semite both assumes that Jews are somehow “different” and almost always secretly harbors a mixture of envy of and loathing for this alleged difference. Philo-Semitism thus presupposes, but also engenders a frustrated version of, its opposite. A public, preferably defenseless, scapegoat is then needed to let all this pent-up ugliness ooze out.
Minha tradução:
Tais ataques venenosos contra um judeu e filho de sobreviventes do Holocausto são absolutamente únicos na vida pública alemã, que é de outra maneira sempre tão delicada e discreta em todas as coisas sobre o Holocausto. Não podemos deixar de pensar o que pesa sobre eles. Na verdade, o Holocausto provou ser uma mercadoria valiosa para os alemães politicamente corretos. Ao "defender" a memória do Holocausto e as elites judaicas contra toda e qualquer crítica, eles conseguiram uma atuação de coragem moral. Qual o preço que eles realmente pagam, que sacrifício eles realmente fazem por esta "defesa"? Dado o prevalecente ambiente cultural da Alemanha e o abrangente poder global dos judeus norte-americanos, tal coragem, de fato, colhe recompensas. Desqualificar um dissidente judeu não custa nada - e fornece uma saída "legítima" para o preconceito latente. Acontece que eu concordo com a afirmação de Daniel Goldhagen no livro "Os carrascos voluntários de Hitler" de que filossemitas são tipicamente antissemitas em "pele de cordeiro." O filossemita assume que os judeus são de alguma forma "diferentes" e quase sempre secretamente abrigam uma mistura de inveja e de ódio para esta alegada diferença. O filossemitismo pressupõe, portanto, mas também forma uma versão frustrada disso, do seu oposto. Um público, de preferência indefeso e bode expiatório, é então necessário para deixar toda essa feiura reprimida escorrer pra fora (extravasar).
Não preciso comentar de novo que não concordo com todo posicionamento do Finkelstein (tem posts sobre ele no blog) mas acho que as acusações que fazem contra ele, por exemplo, de antissemitismo, sendo ele filho de sobreviventes do Holocausto, é politicagem grosseira. O Goldhagen também é atacado porque o livro dele, "Os carrascos voluntários de Hitler", faz uma acusação dizendo, de forma resumida (você pode ler umaa crítica do livro aqui) que qualquer alemão na Alemanha nazi seria um potencial carrasco antissemita.

Pois bem, e onde entra o filossemitismo e os cristãos-novos nisso?

Saiu recentemente uma matéria no El País, edição brasileira, que toca nesse tipo de assunto (filossemitismo) sem citar o termo filossemitismo. Antes de prosseguir, adianto que não acho que tenha havido qualquer má fé na matéria e a matéria foi informativa (cumpriu o que pretendia), mas há alguns erros sobre essas questões e há uma não citação do que ocasiona esse problema do filossemitismo no Brasil no texto e da disseminação dessa ideia em torno de sobrenomes na internet, pois ficou incompleto comentar o fato na matéria (a procura de nacionalidade espanhola por descendência sefardita), sem apontar de onde surgiu esse "interesse" dessas pessoas. Mas isso poderia ser tratado noutra matéria.

A matéria a que me refiro é essa: Seu sobrenome também está na lista (falsa) para obter o passaporte espanhol? .O assunto circulou muito no Facebook, não propriamente esta matéria do El País mas matérias correlatas (com o mesmo assunto).

Por curiosidade, quando a gente procura por genealogia na web ou mesmo o assunto cristãos-novos, logo de cara se depara com sites evangélicos (alguns até se passam por "judeus", são o que chamam ou se autodenominam como "judeus messiânicos", mas são seitas evangélicas) com sobrenomes supostamente de cristãos-novos (sobrenomes portugueses e espanhóis, alguns sobrenomes são comuns aos dois países) relatando erroneamente que quem tem sobrenome tal pode ser ou é descendente de judeus, cristãos-novos etc. Sem nem contextualizar a História. Da primeira vez que vi isso havia muitos sites religiosos (evangélicos) com isso, agora a coisa se proliferou.

A procura em demasia em torno disso se deu por conta dessa divulgação na web de forma equivocada desses sites. Isso não foi mencionado na matéria. Como eu disse acima, não era tema central dizer a origem do problema por isso pode ter sido deixado de lado essa informação que estou citando. Como a gente sabe disso? O que chegava de gente enchendo o saco no Orkut com esse bla bla bla era algo bizarro. É esse o problema da web, não dá pra se ter uma estimativa do alcance de um boato até surgir algo que atice a reação das pessoas em torno disso. Pela quantidade de procura (narrada na matéria) dá pra ver que o percentual de gente que andou lendo isso não é tão pequeno, leem e disseminam.

Há pilhas de erros nestes sites, além de raramente surgir um esclarecimento bom ao alcance de muita gente, daí a perpetuação do boato. Um dos erros desses sites é o de não comentar que muitos cristãos-novos que se converteram, ficaram de vez no cristianismo (a maioria) não retornando ao judaísmo. Sentiam-se portugueses ou espanhóis ou nativos das colônias onde se alojaram e estavam totalmente assimilados culturalmente a esses países não retornando ao judaísmo e nem se denominavam marranos, porque não seguiam o judaísmo escondidos.

Curiosamente este erro é repetido por antissemitas e neofascistas "revis", com a distorção habitual deles vendo "judeus" em tudo. Não preciso repetir que "revis" são obcecados com judeus e com as crendices antissemitas em torno desses mitos cultuados pelos "revis".

Mas voltando ao assunto. Qual a razão pros cristãos-novos ou convertidos não retornarem ao judaísmo? A principal seria: qual o interesse de uma pessoa, numa época de perseguição intensa a judeus, por motivos religiosos predominantemente, de continuar a seguir um credo religioso só por tradição, quando estas pessoas poderiam se integrar a esses países totalmente se tornando um cristão numa sociedade profundamente cristã (carola)? É isto que ocorre em Portugal e Espanha na época da expansão marítima e na colonização das Américas quando eram Impérios mercantis e marítimos (militares).

A mudança de visão de boa parte das pessoas (brasileiros) sobre judeus e judaísmo em relação a essas questões (cristãos-novos) é algo recente, não é algo antigo, por sinal, antes da internet esse tipo de assunto não devia causar qualquer "fascínio" no povo. Passaram-se séculos reprimindo a história por conta da própria assimilação, por isso é errado dizer que esse assunto era algo oculto, apenas não chamava atenção. Boa parte das pessoas não tinha acesso ou interesse nisso porque não via nada de relevante em ser ou não judeu.

Eu só ouvi falar nessa questão desses grupos evangélicos explorando esse assunto na própria internet. Assusta a abordagem dele em torno disso pois há uma mistura de crença religiosa (já citei isso em outro post) com história, o que acaba mitificando as coisas já que essas pessoas não têm interesse histórico nos assuntos e só querem "confirmar" suas crendices através da História. Essa postura deles vem de uma pregação que ocorre nos EUA dessas denominações que misturam apoio político (com destaque a Israel) com credo religioso, alguns rotulam isso nos EUA de sionismo cristão. A meu ver uma mistura bem perigosa pois se este mesmo grupo que apoia ou idolatra judeus hoje, amanhã se enfezar por algum motivo banal qualquer (quem pensa que controla fanatismo religioso quase sempre quebra a cara), tornarão-se os inimigos mais cascas-grossas que poderão se deparar.

Voltando ao assunto, a presença de cristãos-novos nas Américas, não só no Brasil, é um fato. Acabei lendo sobre isso paralelamente, pois quando a gente lê sobre Holocausto acaba checando temas correlatos pra tentar entender a razão do ódio a judeus, sendo que esse assunto tem a ver com a formação do Brasil e acho relevante que o povo entenda a história do país pra não sair propagando abobrinha fascista datada da segunda guerra. A meu ver o ódio religioso (antissemitismo religioso) teve e tem um peso considerável (a maior parte dele) na propagação do antissemitismo e estereótipos racistas até hoje.

Já vi textos de cristãos-novos no México, Peru, Venezuela, Brasil, de memória me lembro disso. O autor antissemita integralista Gustavo Barroso adora fazer firula do assunto em livros dele como "História secreta do Brasil" como se fosse algo "escondido" ou que só ele soubesse disso (mais uma desonestidade intelectual dele) distorcendo pra criar um bode expiatório (judeus) pra "explicar" com coitadismo os insucessos do país. Não é algo original, os próprios nazis faziam isso pra alimentar o ódio, mediante crenças, entre o povo.

Voltando de novo ao assunto cristãos-novos, alguns desses conversos acabavam aderindo de vez à religião nova (catolicismo) e outros mantinham a crença no judaísmo de forma oculta, uma minoria, tanto que o grupo que se denomina como marranos até hoje é muito pequeno (eu pensei que nem existiam). Os que continuavam seguindo o judaísmo ocultamente eram rotulados de cripto-judeus e/ou marranos. Mas marranos eram os que continuavam seguindo o judaísmo (escondido) não os que deixaram de vez o judaísmo, são coisas distintas. Sempre "esquecem" deste "detalhe" quando fazem matérias sobre esses temas, pelo menos das que eu já li e lembro.

Caso alguém tenha preguiça de ver o link do El País: o que acaba ocorrendo e é citado na matéria do jornal espanhol é a procura exacerbada por passaportes espanhóis (nacionalidade espanhola), por brasileiros, por conta dessas abobrinhas (bobagens) espalhadas na internet sobre conversos e sobrenomes.

Esses sites apologéticos evangélicos sobre sobrenomes de cristãos-novos, difundem de forma errônea, como já comentei, esse tipo de assunto e acabam causando mais confusão com essa questão do que esclarecendo as pessoas, que hoje, pelo antissemitismo não ser o mesmo de décadas, séculos atrás, acham que ter alguma origem judaica ao invés da portuguesa causa algum tipo de distinção, o que é uma bobagem. Pelo menos eu considero.

Este comportamento de "vergonha de ter algo com Portugal" não é um fenômeno exclusivo de brasileiros descendentes de portugueses no Brasil, há um comportamento oriundo do complexo de vira-latas onde boa parte do povo parece que tem vergonha de se dizer ou ser descendente de português e eu diria que também em relação à ascendência espanhola, só que esse em menor escala. É um comportamento que beira a idiotice (e é um complexo de inferioridade) mas existe, a matéria do El País não errou quando comentou sobre esse comportamento.

Pra frustração dessas pessoas "adeptas" do complexo de vira-latas, é bom elas entenderem o Brasil como um "Grande Portugal" (culturalmente falando), pro "bem ou pro mal". Podem ralhar e chiar à vontade, essa falta de entendimento sobre o que seja o Brasil gera esse tipo de complexo doentio e auto-depreciativo com os famosos dizeres de "Eu odeio o Brasil" etc, algo que enche o saco, essa auto-piedade não "comove" ninguém. Há mais semelhanças entre o Brasil e Portugal do que muita gente pensa, não é só pelo idioma e pela cultura herdada e pelos milhões de brasileiros descendentes de portugueses, mas isso não é assunto do post, citei a questão pra mostrar o quão é tosco essa mentalidade alienada de parte do país procurando por "raízes nobres" pra ver se levantam a "auto-estima", algo ridículo. O outro extremo desse complexo de vira-latas é o ufanismo exacerbado, dois comportamentos repulsivos e idiotas.

Voltando ao assunto (de novo), nem toda pessoa que possui algum sobrenome nessas listas tem necessariamente um ancestral judeu (converso) pois os conversos adotavam algum sobrenome de "cristãos-velhos" pra esconder a origem judaica. Havia uma distinção de grupos cristãos na época em que ocorreu essas divisões, uma espécie de preconceito que deu origem a ideia de "pureza de sangue" que os nazis séculos depois adotaram, que era a divisão entre cristãos-velhos e cristãos-novos (agora entendem porque o termo surgiu). Os cristãos-novos acabavam sendo assimilados à sociedade como cristão caso adotassem de vez o catolicismo.

Esta "busca" por retorno ao judaísmo só vai interessar a quem de fato sente alguma "necessidade espiritual/cultural" ou "identitária" de procurar raízes judaicas em épocas remotas (na colonização do Brasil etc), não creio que a maioria das pessoas sinta isso. Grupos evangélicos que cultuam o filossemitismo acabam espalhando esse tipo de informação totalmente distorcida como comentei acima.


Como dizia acima, com o tempo as pessoas esqueciam a origem judaica, até porque o biotipo das pessoas (judeus, portugueses, espanhóis), dos ditos "povos do Mediterrâneo" (da região que abrange o Mar Mediterrâneo) é próximo/semelhante e ajuda nessa assimilação étnica (pelo biotipo, aparência física). Não é tão difícil que uma pessoa vinda dessa região se assimile a qualquer país do Mediterrâneo hoje ou numa época mais remota, um italiano não teria dificuldade em "virar" português e vice-versa, um judeu ou libanês idem. Fisicamente esses povos possuem biotipos semelhantes.

Então, resumindo, as pessoas que procuraram de forma tresloucada nacionalidade espanhola por conta desses leituras enviesadas de sobrenomes supostamente de "judeus convertidos", que leram nesse tipo de site evangélico, vão em geral quebrar a cara.

Eu acho essa procura algo repulsivo pois a maioria dessas pessoas só está indo atrás da nacionalidade espanhola, porque adquirindo a nacionalidade daquele país acabam tendo acesso à União Europeia (como é dito na matéria). O interesse é meramente mercantil/material e não de busca de raízes de antepassados sefarditas (judeus ibéricos) e bla bla bla.

Não acho só a demanda/procura por isso algo repulsivo, a própria "oferta" da Espanha não é algo que eu chamaria de 'louvável' ou "nobre", parece que está se prestando um favor ou um "ato nobre" quando não há favor ou ato nobre algum, não há reparo histórico algum com essa atitude (e nem creio nisso, a meu ver estão dando por outras razões) pois as vidas tiradas de pessoas por questões religiosas e de preconceito no passado (e põe passado nisso, mais de 500 anos) não serão recuperadas com um gesto com um "atraso" de mais de meio milênio. Demoraram muito pra "reparar" erros do passado, era melhor que ficasse num discurso de perdão e uma mudança de postura com o preconceito (que há também contra brasileiros), que já estaria de bom tamanho.

Essa questão de dupla-nacionalidade também ocorreu quando a Itália e outros países nos anos oitenta ou antes, atrás de mão-de-obra no Brasil (de gente "etnicamente semelhante"), começaram a fazer esse "resgate" dos descendentes daqueles (imigrantes) que foram "expelidos" desses países por serem o "excedente" da sociedade (ou seja, a sobra, o resto, o estorvo, eram um "peso" pra esses países lá pelos idos do século XIX e até século XX).

Essas questões sempre são curiosas pois acabam discutindo aspectos da nossa própria identidade como povo. Vê-se no Brasil muita gente com "orgulho" de ter origem em "país tal" (geralmente dos que estão em boa condição social e econômica hoje, pois quando não estavam ninguém sentia "orgulho" e queriam só ser "brasileiros"), ignorando o fato de que o vovô ou tataravô (ou avó, ou tataravó) foi "expelido" desses países como "excesso ou sobra". No lugar dessas pessoas eu teria asco ou nojo de um país desses que expulsou um antepassado meu como lixo se viessem "oferecer" esse "pacote de bondades", só por uma questão biológica (de cunho racista) por alguém ser descendente de alguém vindo desses países. Essa oferta de "excesso de carinho e bondade" é no mínimo algo repulsivo (opinião pessoal). É uma questão de orgulho, não vejo com bons olhos isso, até porque o intuito disso é meramente econômico, estão atrás de mão-de-obra "etnicamente" parecida com esses países pra evitarem choques culturais por não terem muita tolerância com imigrantes de outros países.

Há um erro na matéria quando cita um caso sobre procura de nacionalidade da Polônia como se houvesse uma comparação com essa busca pela nacionalidade espanhola (decorrente do caso dos cristãos-novos etc). São coisas distintas.

Não existiu a questão dos cristãos-novos/marranos e cripto-judeus na Polônia ou no leste europeu ou mesmo em outros países europeus, esta questão dos cristãos-novos é uma questão portuguesa e espanhola por conta de suas inquisições, formação de Estado-nação (nacionalismo exacerbado) e formação de Império transnacional quando judeus acabaram sendo expulsos desses países e os que se converteram foram assimilados (a grande maioria) e só uma minoria ínfima manteve ocultamente o credo judaico. Poucos países colonizaram as Américas, o destaque fica por conta de Portugal mas mais ainda a Espanha que tinha terra do Sul até a grande parte territorial do que hoje são os Estados Unidos.

O fenômeno dos marranos/cristãos-novos e cripto-judeus são parte da História de Portugal e Espanha e principalmente de suas respectivas colônias nas Américas. Alguns grupos de conversos também fugiram pra Turquia e Norte da África, caso alguém queira ler sobre isso e algum outro país, mas sem serem algo expressivo numericamente.

O fato é que a cultura judaica na Espanha e em Portugal praticamente se extinguiu. Não houve um extermínio físico em massa, mas houve um "extermínio" cultural. É tanto que se tem a impressão que esses países nunca tiveram judeus.

Outro trecho da matéria que destaco é esse:
"“Há uma crença, de que todos os judeus são gente culta e exitosa. Isto é: ter uma origem sefardita é muito valorizado, mais ainda se a isso se soma a possibilidade de adquirir a nacionalidade europeia [...] Há como que um sentimento de orgulho em se imaginar descendente de cristãos-novos". O professor adverte ainda, que se confunde ser sefardita ou descendente de sefarditas com ser descendente de cristãos-novos que assumiram o cristianismo enquanto professavam o judaísmo em segredo (os cripto-judeus), o que pode ter aumentado o alcance da proposta."
Isto é outro estereótipo reproduzido e perigoso, sendo que não há uma distinção por parte do povo de asquenazis e sefarditas, pro povo em geral (senso comum) são "tudo uma coisa só" (judeus).

Mas vou citar 'causos' que vi no Orkut que põe em cheque totalmente esse tipo de visão. Boa parte dos judeus que vi no Orkut participando de comunidades de discussão não eram "cultos" como diz o trecho acima, pelo contrário, era o extremo oposto disto. Não chega a ser algo que me espanta pois não dou a mínima pra estereótipos, sou cético com estereótipos mesmo, não acredito em mitificações sobre pessoas. Houve uma vez uma discussão entre mim e o ex-dono de uma comuna sobre Oriente Médio (o cara era pró-Israel e chegou a dizer que iria se converter ao judaísmo) em que ele desabafando atordoado porque só via os caras tomarem "toco" dos pró-palestinos na rede (quem puxou a discussão foi ele), isto se dava pelo fato de que essas pessoas não liam praticamente nada sobre Oriente Médio pra discutirem e mesmo assim iam pra discussão, eram "vidradas" nisso mas não liam nada a não ser folhetos e sites com viés político declarado. A maioria só repetia discursos que saem em sites ligados a essas questões e fica por aí, não vão muito além disso.

Essa afirmação dele procede? Infelizmente sim. O pessoal no site do Google (Orkut) meio que se escorava em quem rebatia, no geral ficavam nisso. Não liam nada de relevante sobre o assunto a não ser cartilha ideológica de jornais ou revistas manjadas (de alinhamento à direita) e um ou outro lia algum livro mas pra reforçar pregação política, não pra discutir de fato o assunto pois quem ignora os problemas do conflito não está discutindo e sim tentando criar uma nuvém de fumaça sobre o assunto.

O que se via é que as pessoas em geral não se interessavam em se aprofundar nos assuntos, ficavam em pânico com qualquer crítica a alguma "verdade" estabelecida (na cabeça deles) enquanto o lado pró-palestino geralmente lia boa parte dos livros que saia no Brasil sobre essas questões, sendo em grande maioria composto por alguns descendentes de árabes e outros não (engajados na coisa). Ou seja, a parte intelectualizada da "peleja" era do lado pró-palestino. Por isso que toda vez que leio algo com esse tipo de afirmação de "crença de que todos os judeus são cultos" isso e aquilo, fico perplexo como levam a sério estereótipos.

Esse mito de "judeus são cultos" (de forma genérica), é mito mesmo, o certo seria dizer "alguns judeus são cultos", como existe gente culta em todo tipo de grupo. Essa exacerbação de grupos como "especiais" acaba fatalmente provocando algum preconceito. Esse tratamento como "algo especial" resvala no filossemitismo que é o problema inicial citado no post. Quase toda a discussão e citações do post são atreladas à questão do filossemitismo e os problemas derivados dele no Brasil (principalmente), apesar deu não citar o termo muitas vezes no decorrer do post após a explicação inicial.

Vejam o problema que a disseminação de informações falsas ou distorcidas (com meias verdades) podem causar. Como já disse acima, acho vergonhosa a demanda de gente atrás desses passaportes ou nacionalidade como já comentei acima (não irei repetir o comentário).

E discordo de uma parte da matéria que fala da "vontade do brasileiro em ganhar uma nacionalidade europeia", eu não tenho vontade alguma disso. E já que falaram no assunto, eu não sou muito favorável e simpático à questão da dupla nacionalidade que há no Brasil (posso estar enganado, mas acho que foi a bancada fluminense que fez isso no congresso por conta das ligações de vários deles com Portugal e da mudança que houve quando Portugal passou a ser parte da União Europeia), mas isso só pode ser mudado com outra constituição. Encontrei o ano da modificação disso, 1994, governo Itamar Franco, ler a parte de dupla nacionalidade.

Acho um absurdo haver tratamento diferenciado (discriminatório) favorável a portugueses na Constituição/legislação como se fossem nacionais, brasileiros. Não é nada contra os portugueses ou a qualquer grupo estrangeiro, a culpa não é deles, quem fez essa legislação bizarra e étnica foram brasileiros, mas se trata de uma legislação racista feita por governos de caráter nacionalista de direita (Vargas e mantida após a saída dele do poder) e mantida na constituinte de 86-88 ou acrescentada depois (ler o caso da dupla nacionalidade acima), algo com um forte apego étnico/eugênico pois ao darem privilégios a um povo em detrimento de todos os outros, há uma conotação étnica implicada nisso.

O país costuma vender como imagem no exterior a imagem de "nação multiétnica" etc, tudo balela, basta ver esses "detalhes" pra ver como a História do Brasil, principalmente quando há o deslocamento do eixo econômico do país pro Rio e depois São Paulo (séculos XIX e XX), é muito apegada a essas questões étnicas (racistas), mais do que a população em geral pensa (a maioria no fundo tem noção sobre isso).

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