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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Perdas civis soviéticas na Segunda Guerra Mundial (2aGM)

Na seguinte discussão do meu blog 5 milhões de vítimas não-judeus? (Parte 2), o nosso leitor "HLAPOT" observou que, no que diz respeito a perdas humanas da União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, há neste momento uma estimativa demográfica (a que foi apresentada por Michael Ellman e S. Maksudov em seu artigo de 1994 "Soviet Deaths in the Great Patriotic War: A Note)" ("Mortes soviéticas na Grande Guerra Patriótica: uma nota") que "carece de uma explicação satisfatória", ou seja, não é ou é insuficientemente apoiada por provas com base na contagem de mortos.

Isto aparentemente continua a ser verdade mais de 1 ½ décadas depois do artigo de Ellman e Maksudov. A desagregação científica sólida da enorme estimativa de quase 27 milhões de mortes na União Soviética durante a "Grande Guerra Patriótica", especialmente no que diz respeito aos componentes civis, ao meu conhecimento não foi fornecida até agora pela historiografia.

Para deixar claro, existem falhas como a de perdas civis soviéticas feitas por A.A. Shevyakov, apresentadas na Tabela 3 do referido artigo. Mas estas não podem ser levadas a sério, como Ellman e Maksudov apontam expressamente sobre os números de Shevyakov. O mais próximo que as publicações acadêmicas da historiografia chegaram, para confirmar a confiança do excesso de mortes entre a população civil soviética na "Grande Guerra Patriótica" ainda parece ser a seguinte nota de rodapé do artigo de Ellman e Maksudov:
De acordo com cálculos preliminares feitos por um de nós ('0 frontovykh ... ", pág. 119), as mortes pela ocupação alemã (matança de judeus, mortes no cerco de Leningrado, mortes de civis resultantes da luta, o excesso de mortes nos territórios ocupados decorrentes de uma degradação das condições de vida) foram de cerca de 7 milhões. Destas, cerca de 1 milhão ocorreram no cerco de Leningrado, e 3 milhões eram judeus. Destes últimos, cerca de 2 milhões eram judeus dos territórios recém-anexados, e 1 milhão de judeus do território da antiga União Soviética. O excedente de mortes pela deterioração das condições de vida nos territórios não-ocupados parecem também ter sido próximo dos 7 milhões. Pela repressão soviética (mortes em campos e entre as nações deportados), provavelmente,é dito que houve cerca de outros 3 milhões. Além disso, houve uma perda de população de cerca de 2 milhões como resultado da emigração, principalmente para a Polônia. Estas são estimativas preliminares ásperas sobre um tema que ainda aguarda uma pesquisa séria (mais detalhada).
Este desiderato da pesquisa histórica torna interessante olhar para o colapso feito em 1972 por um escritor britânico chamado Gil Elliot, sem o benefício de fontes que apenas se tornaram disponíveis quase 20 anos mais tarde após a dissolução da URSS. O texto a seguir foi transcrito das páginas 54-59 de livro Twentieth Century Book of the Dead de Elliot (1972, Charles Scribner's Sons, New York).
Leningrado 1941-3 foi a primeira cidade a se tornar uma cidade de mortos. Em Verdun em 1916, meio milhão de pessoas morreram nos primeiros quatro meses de ofensiva - de fome e de doenças como também contra bombas e balas - seguido de um ano de luta elevando o total de mortos para mais de um milhão.

Como Verdun, ou Somme e o resto eram metrópoles em uma área mais ampla de morte, para Leningrado havia uma concentração de um milhão, além de um total de dez milhões de mortes de civis difusos sobre a Rússia 1941-5.

As duas grandes guerras do nosso século tem um padrão amplo ou ritmo em comum, inerente à escala de operações: a primeira série de ataques trazem enorme perda de vidas; o período 'atolado' de combate que dura vários anos e causa uma maior luta de vida humana; e o período de recuo final e finalmente a retirada.

Podemos adaptar este padrão para o caso de a população civil da Rússia na Segunda Guerra Mundial.

Fase I. Avanço dos exércitos invasores. Seis meses, de junho a dezembro de 1941

O bombardeio das cidades fazia parte do ataque aterrorizante, assim como matar as senhoras idosas e outros refugiados na estrada com metralhadoras disparadas de aviões ('metralhar', como é chamado com alegria).

Provavelmente a maioria das mortes entre os refugiados eram dos efeitos imediatos da exposição e fome. Grandes grupos de pessoas encontravam-se em cidades estranhas sendo apanhadas pelos invasores, incapazes de seguir em frente, esperando em cativeiro além de grupos negligenciados onde a doença auxiliava os efeitos da fome e da falta de moradia.

Quando cidades foram ocupadas, e até mesmo alguns povoados, um pequeno número de potenciais agitadores era imediatamente fuzilado ou enforcado; esses "agitadores" eram, naturalmente, as pessoas — autoridades e comissários políticos — que mantinham a ordem antes da chegada dos invasores.

Todas essas formas de violência provavelmente resultaram em um total de cerca de meio milhão de mortes de civis durante o breve e avassalador avanço da máquina militar.

Fase 2. Ocupação pelo invasor. Entre dois e três anos, 1941-1944.

No período de ocupação, a lógica da máquina de guerra total se concretiza plenamente. Isso não ocorre por meio de atrocidades aleatórias que estampam as manchetes dos jornais, mas sim pela aplicação, à população civil, da mesma pressão que caracteriza a guerra militar: a estratégia de desgaste (guerra de atrito/exaustão).

A escala de devastação nas cidades e vilas soviéticas é evidenciada pelo fato de que, no momento da libertação, muitas delas abrigavam apenas entre metade e um terço de suas populações do pré-guerra. Considerando uma população urbana de vinte milhões de pessoas na área ocupada: cerca de dois milhões estariam nas forças armadas; provavelmente outros dois milhões deixaram as cidades — incluindo aqueles que fugiram da zona ocupada, os que se juntaram a unidades de guerrilha (partisans) e os trabalhadores que se deslocaram para o leste junto com suas fábricas. Quatro milhões de pessoas foram deportadas para a Alemanha para trabalho escravo. Ao todo, quarenta por cento, ou oito milhões de pessoas.

Cerca de quarenta por cento permaneceram nas cidades até a libertação, e algo em torno de vinte por cento morreram durante o processo de ocupação. Minha própria estimativa é de quatro milhões e meio.

Cerca de três milhões dessas pessoas — em sua maioria idosos, mulheres e crianças — morreram devido à escassez e ao abandono. As rações eram parcas e frequentemente sujeitas a reduções arbitrárias ou cortes totais por parte dos administradores da ocupação. Além da resistência debilitada a doenças comuns pela falta de alimentação adequada, as enfermidades muitas vezes atingiam níveis epidêmicos, e a fome frequentemente chegava a níveis de inanição generalizada.

Um milhão de pessoas foram mortas por serem judias.

Cerca de meio milhão de pessoas foi executado durante esse período por serem comissários políticos ou oficiais, sabotadores ou suspeitos de pertencerem a grupos de resistência ("partisans"). Houve também muitas mortes cometidas apenas pelo ato de matar. No sul da Rússia, milhares de idosos foram mortos sob o pretexto de "eutanásia".

É difícil estimar o número de mortes nas aldeias. Presumi que o desgaste lento causado pela fome não ocorria nessas localidades, partindo do princípio de que os produtores de alimentos precisavam ser mantidos vivos (um exemplo do idealismo nazista). Milhares de aldeias foram destruídas e incendiadas, e seus habitantes fuzilados como "represália" por atividades de guerrilha. Os próprios guerrilheiros eram executados quando capturados. É fácil exagerar o total acumulado de mortes ocorridas em uma infinidade de pequenos grupos. No entanto, parece provável que o número total de camponeses e guerrilheiros — mortos a tiros ou vitimados pela privação imediata decorrente da perda de suas casas — tenha chegado a pelo menos um milhão; a maioria era composta por camponeses em seus próprios lares, e não por guerrilheiros, sendo que a maior parte deles foi, de fato, fuzilada.

Os números se acumulam... sempre há incerteza quanto aos valores exatos em um cenário de morte de proporções gigantescas. No entanto, ao examinar as evidências disponíveis para cada tipo de morte, os números convergem para uma ordem de magnitude inquestionavelmente correta.

Temos agora cinco milhões e meio de mortos nas cidades e vilarejos durante o período de ocupação; somados ao meio milhão de mortes no período da invasão e ao milhão que morreu em Leningrado. Sete milhões de mortes de civis nos períodos de invasão e ocupação.

Fase 3. Retirada e recuo do invasor. Um ano, 1943-1944

A violência do exército invasor contra a população civil foi mais severa na fase de retirada do que havia sido no período de avanço. No decorrer da guerra, oito milhões de casas russas foram destruídas, sendo que uma grande parte delas foi arrasada durante a retirada da Rússia. Plantações e rebanhos foram queimados em larga escala. Sistemas e máquinas especiais foram utilizados para destruir as sementes, e as culturas em desenvolvimento foram incendiadas, as de primavera e as de verão.

Antes de abandonar as cidades e vilarejos, os invasores costumavam executar os prisioneiros que mantinham em suas prisões. Esse não era um fenômeno novo. Em Moscou, em 1920, quando a pena de morte foi abolida, a polícia secreta executou, em uma única noite, uma grande parcela de seus prisioneiros, apresentando ao governo, na manhã seguinte, um fato consumado. Um escritor descreveu isso como "liquidação de estoque": um caso de "psicose profissional". Aqui, naturalmente, a psicose e as matanças ocorreram em escala muito maior.
É provável que cerca de um milhão de pessoas tenham morrido por conta da privação imediata causada por casas em ruínas, plantações e rebanhos destruídos e estoques de alimentos saqueados, bem como pelas execuções de despedida.
A palavra "aftermath" (consequências) — que designa o período ou as consequências que se seguem a um evento — remete a campos ceifados e celeiros abarrotados de grãos. No rastro dessa devastação — o cenário de morte criado ao longo de três anos pelo exército invasor e agravado pelos seus últimos golpes destrutivos —, é provável que pelo menos mais duas pessoas tenham morrido em cidades e vilarejos russos, ao longo do ano seguinte ou pouco mais, vítimas de uma lenta privação.

[…]

Os tipos de violência perpetrados contra civis russos na Segunda Guerra Mundial apresentam uma pirâmide semelhante à do período da Guerra civil russa:


Se as estimativas de Elliot parecem não passar de suposições fundamentadas, isso não as torna muito diferentes do que grande parte dos historiadores conseguiram apresentar até o momento sobre o assunto. No que diz respeito ao cerco de Leningrado e às categorias "presos políticos, funcionários e outros" e "represálias contra camponeses", Elliot não divergiu muito do que a historiografia recente estabeleceu. O historiador alemão Dr. Dieter Pohl (Link2) estima em mais de 1 milhão o número de civis soviéticos não-judeus que morreram em campos, em "operações de combate a bandidos" e em outros assassinatos — sendo cerca de meio milhão deles em operações antipartisans em áreas rurais. O historiador alemão Christian Hartmann escreve o seguinte na página 789 de seu livro "Wehrmacht im Ostkrieg. Front und militärisches Hinterland 1941/42" (Link2) (tradução minha):
Conforme cálculos demográficos, um total de 26,6 milhões de cidadãos soviéticos morreram na "Grande Guerra Patriótica" – entre eles, 3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 2,4 milhões de judeus soviéticos e outras 500 mil pessoas que pereceram em decorrência da guerra de guerrilha.

O número de judeus soviéticos apresentado por Hartmann (seu colega Hans-Heinrich Nolte fala em 2,6 milhões de judeus soviéticos assassinados, de um total de 2,7 milhões que ficaram sob domínio alemão) demonstra que a estimativa de Elliot quanto aos judeus "russos" assassinados era muito baixa, embora coincida com o número apontado por Ellman e Maksudov para judeus oriundos do antigo território soviético (em contraposição àqueles provenientes de áreas anexadas à União Soviética em 1939-40). Por outro lado, a enorme discrepância entre a estimativa demográfica (26,6 milhões) e a soma dos dados parciais de Hartmann (5,9 milhões) confirma ainda mais que Elliot estava correto ao apontar a predominância de mortes por privação em relação àquelas decorrentes do que ele denominou "violência dura/direta" ("hard violence"); confirma também que a historiografia permanece incerta sobre onde e por quais causas a maioria das vítimas civis soviéticas da guerra de 1941-45 (estimadas em 9 a 11 milhões por Elliot, e em 14 a 17 milhões por Nolte, bem como por Ellman e Maksudov) perdeu a vida. Embora a análise detalhada apresentada por Elliot em 1972 possa ter caráter conjetural, ela se mostra mais realista e minuciosa do que qualquer outra já oferecida em publicações acadêmicas de historiadores. A menos que algo me tenha escapado, a melhor contribuição da historiografia até o momento não se encontra em uma publicação acadêmica, mas sim no "Axis History Forum" — especificamente na postagem inicial (*OP*) do Dr. Nick Terry no tópico intitulado "Soviet Death Toll in WWII As A Whole" (O número total de mortes soviéticas na Segunda Guerra Mundial).

Fonte: Holocaust Controversies
https://holocaustcontroversies.blogspot.com/2011/09/soviet-civilian-losses-in-world-war-ii.html
Texto: Roberto Muehlenkamp
Título original: "Soviet Civilian Losses in World War II"
Tradução: Roberto Lucena

sábado, 5 de setembro de 2026

Alfred Rosenberg sobre represálias

Parece-me claro que a anotação em seu diário de 12 de Setembro de 1941 (pdf publicado por Irving** aqui), só pode significar que Rosenberg desejava que os judeus da Europa Central fossem mortos em represália pelo “assassinato” dos alemães do Volga. Observe também que Rosenberg vê claramente a Sibéria como um lugar de assassinato para deportados e não de reassentamento:
12.9.41 Als die Mitteilungen eintrafen, dass Stalin nun auch die noch verbliebenen 400 000 Wolgadeutschen nach Sibirien verschleppen, d.h. morden lassen wird, da ist in uns allen der Hass gegen Moskau erst recht wieder emporgestiegen. Ich gab Anweisung, für eine sehr scharfe Stellungnahme u. Sandte sie formuliert an den Führer. Der sie noch verschärfte. Gesternliess ich einen Vorschlag ausarbeiten, durch Rundfunk nach Russland, England u. EUA mitteilen zu lassen, dass wenn dieser Massenmord durchgeführt werden sollte, Deutschland die Juden Zentraleuropas dafür büssen lassen würde. Dies mit vollster Berechtigung, da soeben noch der Jude Schertok auf einer Palästinakonferenz erklärt habe, an dem Bündnis zwischen Moskau – London – Washington hatten die Juden besonderen Anteil, da sie stets dafür gearbeitet hatten.
Tradução pro português (do alemão):
12 de setembro de 1941. Quando chegou a notícia de que Stalin iria deportar, ou seja, assassinar, os 400.000 alemães do Volga restantes na Sibéria, nosso ódio por Moscou aumentou ainda mais. Dei instruções para uma declaração muito forte e a enviei, já em versão preliminar, ao Führer, que a intensificou. Ontem, mandei elaborar uma proposta para ser transmitida à Rússia, Inglaterra e EUA, afirmando que, se esse assassinato em massa fosse realizado, a Alemanha faria os judeus da Europa Central pagarem por isso. Isso era totalmente justificado, visto que o judeu Schertok acabara de declarar, em uma conferência sobre a Palestina, que os judeus desempenharam um papel especial na aliança entre Moscou, Londres e Washington, pois sempre trabalharam para isso.

Fonte:
Holocaust Controversies
https://holocaustcontroversies.blogspot.com/2014/04/rosenberg-on-reprisals.html
Texto: o autor do texto apagou o perfil, acredito que tenha sido o Jonathan Harrison, mas há várias palavras em alemão (geralmente o R. Muehlenkamp fazia textos assim também).
Título original: "Rosenberg on Reprisals"
Tradução: Roberto Lucena ("revisão" da "tradução de IA" do Google, mas tenho que ler tudo, ponto a ponto pra ver se "bate" e corrigir)*

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*Tem um trecho em alemão que acredito que seja dos "Os Diários de Alfred Rosenberg 1934-1944", saiu no Brasil com esse título (eu tenho um exemplar), tudo hoje em dia a gente chama de "IA" mas sempre usei o "tradutor" do Google, a versão acima bate com o conteúdo em questão, se houver erro e o Roberto (Muehlenkamp) puder corrigir (ou quem lê alemão, o Stephano), podem corrigir à vontade, mas acredito que está correto. Sobre Alfred Rosenberg, acho que já citei no post ligado a esse quem era, pros que desconhecem, foi o principal ou um dos principais ideólogos do nazismo (https://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Rosenberg).

** O "Irving" em questão é o negador David Irving (britânico) que apesar do viés político de negação, é bastante conhecedor de história do III Reich (viveu na Alemanha pesquisando isso), então as pessoas usam links da figura sobre documentos, pra esclarecer o link acima (do texto original do HC). O Rosenberg em questão é Alfred Rosenberg, da cúpula nazista, um dos principais (ou principal) ideólogo do nazismo junto de Hitler.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Extermínio biológico ("biologische Ausmerzung")

Na página 118 da "Crítica" (aqui também), eu citei o informe de Rosenberg de 18 de novembro de 1941, extraído da exposição apresentada por Christopher Browning no julgamento Irving-Lipstadt. Rosenberg falou da necessidade de "um extermínio biológico de toda a população judaica da Europa" ("eine biologischen Ausmerzung des gesamten Judentums in Europe") por medidas que os "expulsariam para além dos Montes Urais ou os erradicariam de alguma outra maneira". Mattogno respondeu a isso afirmando que o "sentido era puramente figurado de *Ausmerzung des Judentums* (extirpação do judaísmo)... designava a eliminação do judaísmo do solo do Reich e do solo europeu". No entanto, isso pode ser refutado com base em dois pontos.

Em primeiro lugar, um negacionista nativo de língua alemã, Staeglich, reconhece que "eliminação biológica" ("biologische Ausmerzung")... em uso comum, tem praticamente o mesmo sentido que "matar". Staeglich argumenta, portanto, que o relatório é "muito provavelmente... apenas mais uma falsificação" ou que "poderia se atribuir essa escolha peculiar de palavras ao fato de Rosenberg ser um báltico e, por isso, talvez nem sempre tivesse certeza sobre o uso correto do alemão!" Embora essas afirmações sejam absurdas, elas pelo menos — ao contrário de Mattogno — evitar de mentir sobre o significado de palavras em alemão.

Em segundo lugar, Rosenberg já havia equiparado a deportação ao assassinato, como demonstrado aqui (e aqui), quando escreveu, em 12 de setembro de 1941, que "Stálin agora também iria expulsar os 400.000 alemães do Volga restantes para a Sibéria, isto é, assassiná-los" (para evitar alegações de tradução duvidosa, utilizei aqui a versão preferida por David Merlin, do CODOH aqui). Rosenberg até repetiu a palavra "assassinato" três frases depois, na palavra *Massenmord* (assassinato em massa), embora Merlin opte por traduzi-la como "slaughter" (massacre/carnificina) — que, acredito, implicaria que Rosenberg tivesse usado o substantivo *Schlachtung*.

Conectar as declarações de 12 de setembro e 18 de novembro leva a apenas uma conclusão plausível: a de que Rosenberg via as deportações — tanto a dos alemães do Volga por Stálin quanto a dos judeus pelos alemães — como atos de assassinato em massa, e não de reassentamento. Pode ser que Rosenberg soubesse ou não que os métodos de extermínio dos judeus incluíam câmaras de gás; Browning observa que Rosenberg se reuniu com Himmler por quatro horas em 15 de novembro, mas seria forçar a interpretação presumir que métodos de assassinato foram discutidos ali, em vez de apenas o fato de que os judeus seriam mortos. O fato principal é que, naquele momento, Rosenberg compreendia claramente é que os judeus deportados para a URSS estavam destinados à morte, fosse ela imediata (como em Kaunas, no final de novembro) ou posterior (como na Rutênia Branca, durante o verão de 1942).

Fonte: Holocaust Controversies
https://holocaustcontroversies.blogspot.com/2015/06/biological-eradication-biologische.html
Texto: o autor apagou o perfil, o texto similar foi do Jonathan Harrison, mas há várias palavras em alemão (geralmente o R. Muehlenkamp fazia textos assim também).
Título original: "Biological eradication (biologische Ausmerzung)"
Tradução: Roberto Lucena (na verdade "revisão" da "tradução de IA" do Google, mas tenho que ler tudo, ponto a ponto pra ver se "bate" e corrigir...)

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Observação 1: há um texto complementar a esse texto que eu traduzi antes, os links abaixo (pro original e pra tradução)

"Mais sobre "Erradicação biológica (biologische Ausmerzung)"
https://holocausto-doc.blogspot.com/2017/12/mais-sobre-erradicacao-biologica-biologische-ausmerzung-rosenberg-nazis-russos.html
"More on "Biological eradication (biologische Ausmerzung)"
https://holocaustcontroversies.blogspot.com/2017/12/more-on-biological-eradication.html

Observação 2: eu resgatei esse texto antigo porque as pessoas acessando o blog foram ler a tradução de 2017, como sempre digo, mesmo que o povo não comente nos posts recentemente, ainda assim ajudam quando acessam os links sobre segunda guerra e cia (muita gente lê conteúdo sobre segunda guerra ainda no blog). A "IA" do Google colocou como "info" quando coloco por busca desse blog (coloquem por "holocausto doc" ou "holocausto-doc" que aparece ao menos o link de acesso à página no topo das buscas) colocam que o blog estaria "inativo", informação falsa ou 'errada', pros que "gostam" de "IA", isso é a tal "Inteligência artificial"... uma tosquice cheia de erros... propositais ou não. Eu traduzi o complemento antes desse primeiro texto do Holocaust Controversies.

Observação 3: como comentei acima, sobre a autoria do texto, dois membros (eu acho) saíram do Holocaust Controversies e os posts que fizeram ficaram como "anônimo", eu suspeito que esse seja do Jonathan Harrison também, embora o Roberto Muehlenkamp fazia muitos posts sobre documentos em alemão ou com palavras em alemão.

E vou atualizando os links depois pois tenho que resgatar vários via o "archive.org" (que arquiva milhões de páginas na web, mas não consegue salvar tudo que foi publicado na rede apesar do esforço monumental) porque os links expiraram, "sumiram", caducaram etc. Problema sério a "memória" em coisas publicadas na web/rede, a Lise alertava sobre o problema ainda no Orkut (caso ela leia, foi ela quem primeiro chamou atenção sobre a coisa entre a gente) da memória da rede ir "pelo ralo" e como historiadores (a Lise é historiadora) poderiam reconstituir as coisas recentes dos países com esse problema?

Como vão estudar as publicações "apagadas" do Facebook no período de "golpe branco", deposição da presidente Dilma Rousseff, textos das olavetes urrando por golpe de estado e cia?... O Orkut está em um limbo, o Google não libera acesso aos arquivos (não sei como algum historiador poderá checar isso pra reconstituir o passado recente do Brasil e cia)... é um problema bem sério essa questão da "memória digital" e o "mundo orwelliano" de "apagar os registros" do que é dito... e ao contrário do que os anti-comunistas pregam... quem está fazendo isso são "empresas privadas" dos Estados Unidos (multinacionais) em "pleno livre mercado"... é essa a tal "liberdade" que pregam?... tá mais pra "controle social" e histórico...

E queria alertar o pessoal do Holocaust Controversies há tempo (eu só acesso meu email pelo Gmail, o brasil.doc@gmail.com pra contato com o blog, o Yahoo! detonou minhas contas antigas) porque há pilhas de links expirados pelos posts antigos, tirando o sentido de leitura, e pra consertar item a item será "nó cego"... (no sentido que eu uso o termo e muita gente no Brasil, Portugal e cia, "nó cego" é algo difícil de resolver, de lidar...).

Observação 4: e técnica, eu vou ter que arrumar outro óculos (lente etc), por isso vai ser complicado corrigir certos "pontos" do texto (aumentei o tamanho da fonte da letra), apesar dessa lente ser da "Zeiss" (descamando...), tá bem complicado de ler, embaçando direto, descamando etc, uma porcaria, pros que "adoram marca"... fiz essa observação pra escrachar a marca mesmo, rs, e porque o problema está atrapalhando. Brasileiro "médio" não adora marca? Taí a tranqueira, e só uso porque se acredita que virá algo de qualidade pelo menos, apesar de que nada dura "mais pra sempre" (esses produtos), e acho que já faz tempo pra trocar lente mesmo. Triste usar óculos, pra quem passou quase uma vida toda sem óculos.

domingo, 5 de julho de 2026

"Maior denominação presbiteriana dos EUA nomeia a guerra de Israel contra Gaza como genocídio e insta os EUA por um embargo de armas"

Reverendo palestino, EUA
Notícia divulgada pelo "Democracy Now!", canal/site alternativo (mídia alternativa) dos EUA, que passou batido (como de costume...) pelas mídias aqui do Brasil... que não acredito nem que tenham lido a matéria e se leram não entenderam a dimensão da coisa...

O link em espanhol da matéria: "La Iglesia Presbiteriana de EE.UU. declara la guerra de Israel contra Gaza como un genocidio e insta a un embargo de armas" ("A Igreja presbiteriana dos EUA declara a guerra de Israel contra Gaza como um genocídio e insta a um embargo de armas" https://www.democracynow.org/es/2026/7/2/titulares/presbyterian_church_usa_declares_israels_assault_on_gaza_a_genocide_urges_arms_embargo).

Várias igrejas protestantes (protestantismo histórico) já vinham se rebelando contra Israel desde 2023, mas é a maior congregação protestante presbiteriana nos EUA a fazê-lo.

Palavras do reverendo/presbítero Fahed Abu Akel, palestino-estadunidense e ex-moderador da Igreja Presbiteriana que sobreviveu à Nakba, um acontecimento ocorrido em 1948 no qual milhares de palestinos foram expulsos de seus lares durante a criação do Estado de Israel:
"Reverendo Fahed Abu Akel: “Temos guardado silêncio ante a destruição da maioria dos hospitais, escolas, universidades, mesquitas e igrejas [em Gaza]. Entre as igrejas havia uma ortodoxa, uma católica e uma batista. Toda essa destruição se levou a cabo com armas fabricadas nos Estados Unidos e com dólares estadunidenses. Irmãos e irmãs em Cristo, em nome do Cristo vivo, já não podemos seguir calados sobre esse assunto" (tradução minha).
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Primeira grande ruptura de grupo do Protestantismo histórico nos EUA com Israel, em geral, primeira grande ruptura de grupo significativo do Protestantismo nos Estados Unidos.

Quem imaginava algo do tipo em outubro de 2023?... Eu já fiz post sobre isso: ""Apenas um terço dos judeus norte-americanos dizem se identificar como sionistas". A Hasbará "rodou" nos Estados Unidos..." (https://holocausto-doc.blogspot.com/2026/06/apenas-um-terco-dos-judeus-norte-americanos-dizem-se-identificar-como-sionistas-a-hasbara-rodou-nos-estados-unidos.html).

Apesar dos esforços de gente na "filial reacionária" (do Brasil) em propor censura pro país, em cima da inércia e desmobilização (desunião) de setores da esquerda brasileira (vale ressaltar isso), a coisa toda está "fazendo água" (pra valer) na "Metrópole" (EUA)...

sexta-feira, 5 de junho de 2026

"Apenas um terço dos judeus norte-americanos dizem se identificar como sionistas". A Hasbará "rodou" nos Estados Unidos...

Essa matéria saiu em começo de fevereiro desse ano (2026) e a "turma da surdina" que "copia e cola" (sem dar os créditos) não deu a mínima (na verdade nem leram...).

Antes de prosseguir deixa eu situar a coisa, o Stephano perguntou no "Post 25" de "Gaza" sobre "a quanto ia a Hasbará" nos EUA e Europa... eu disse que faria um post comentando a questão, porque são os dois espaços onde a disputa política em relação a Israel realmente ganha maior peso (peso decisivo), não que o resto do mundo "não exista", mas a pressão "mundo afora" desagua, ganha impacto real nesses dois locais, mais nos Estados Unidos (mas tem peso grande na Europa/União Europeia também), porque se soma a voz dos descontentes nos dois locais, que é muito grande.

Até cheguei a comentar nos posts sobre o conflito (tem Post contínuo desde 2023, uma sequência, no caso) que há mais movimento político organizado anti-imperialista nos Estados Unidos e na Europa do que no Brasil... pra nossa vergonha... muito da inação, inépcia de certa "esquerda ilustrada pavoa" (a fêmea do "pavão", adjetivo atrelado à "gente vaidosa", mas eu chamaria de "exibicionistas", "individualistas", apesar de uns se declararem "socialistas"... que por não dialogar com setores amplos do país, não conseguem articular nada pralém da crítica ao sionismo/Israel em canal de Youtube e cia.

Esse é o quadro brasileiro, ou até da América Latina, apesar da maioria das pessoas reprovarem o genocídio de Gaza, o imperialismo dos EUA, Israel e cia, mas não há um "movimento organizado" (articulado) com esse teor, essas características no Brasil. Há pessoas que se posicionam nessa linha, mas não é algo organizado como há na Europa/União Europeia e Estados Unidos (com marchas volumosas de rua e pressão contínua nas esferas de poder desses países).

Mas pra não me perder, voltando ao tema inicial, alguém se declarar sionista ou "pró-Israel" nos EUA e Europa de Outubro de 2023 pra cá (quando Israel começa a matança deliberada em massa de palestinos, maioria mulheres e crianças, fora os ataques letais no Líbano, Irã, Iêmen e cia, junto com os EUA e apoiados pela Europa na "surdina", apesar das dissidências emergindo: Irlanda, Espanha...), se alguém se declara sionista ou pró-Israel nos EUA, pode sofrer constrangimento público pesado.

A maior parte da comunidade judaica dos EUA (principalmente) está rompendo com Israel (vou colocar trecho da matéria mais para baixo), e isso coloca abaixo a Hasbará (https://pt.wikipedia.org/wiki/Hasbar%C3%A1), o apoio a Israel nos EUA etc, de forma definitiva.

Também já coloquei aqui, acho que não em Post exclusivo, uma pesquisa do Pew Research Center (dos EUA) onde indicava que 60% do público adulto dos Estados Unidos rejeita Israel, o link da pesquisa (https://www.pewresearch.org/short-reads/2026/04/07/negative-views-of-israel-netanyahu-continue-to-rise-among-americans-especially-young-people).

Traduzindo os números da pesquisa em questão, e os números são maiores dependendo do espectro político (Democrata maior x Republicanos menor, mas alta), que um norte-americano hoje na casa dos 35 anos, que decidirá a vida política dos EUA não dará a mínima pra questão israelense na próxima década. O apoio a Israel é maior entre os mais velhos, que pegando as pessoas com 65 anos, em 10 anos terão 75 anos, saindo da vida política (a maior parte), e assim sucessivamente.

O resultado é devastador pra Israel do regime sionista, a ponto disso já respingar em um esporro público vazado essa semana do Presidente dos EUA (Trump) sobre Netanyahu (primeiro-ministro de Israel), onde Trump afirma que seu "colega" só não foi preso por conta dele (Trump)... algo inédito na relação "EUA-Israel"... já reflexo do conflito longo no Oriente Médio.

A quem não viu a coisa, matéria (https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/06/03/trump-reconhece-ter-falado-com-netanyahu-de-forma-raivosa.ghtml).

Ser chamado de "louco" por Trump e não ir pra cadeia por conta dele é "fim de linha"... Netanyahu, "pede pra sair de fininho"... e se "esconde"... (conteúdo irônico, obviamente, mas...).

Mas voltando a outro ponde onde eu parei, sobre a manifestação das pessoas nos EUA a quem se declara sionista, a quanto anda a coisa. Não se trata de movimento de civis não-judeus e cia, como também boa parte da comunidade judaica nos EUA (e Europa) já rejeita Israel ou a política israelense, o "regime sionista".

O "regime" leva o termo "sionista" porque se baseia na "doutrina política" do "sionismo", movimento começado por Theodor Herzl (judeu austro-húngaro, de um país que nem existe mais, seria mais austríaco).

Ressalto isso porque há gente no Brasil que crê que quando alguém comenta usando termos que isso é "coisa de esquerdista", de "extremistas" ou coisa do tipo, pra ver o "nível" (baixo nível) político, de discussão histórica que o país vive mergulhado desde junho de 2013 com aquelas malditas "jornadas de junho", quando certa direita emergiu e provocou um revés político violento no Brasil (e em várias partes do mundo onde rolou coisa parecida com a ascensão desse tipo de extrema-direita "caricata" e pró-EUA, anti-Estado e cia).

A matéria de "apenas um terço dos judeus norte-americanos dizem se identificar como sionistas" saiu em mais de um canto, além do jornal (de viés de direita, em inglês) "The Times of Israel" (que a gente divulgou primeiro aqui, afirmo isso porque nunca vi certa turma que "comenta" esses temas de Outubro pra cá sequer mencionar a publicação e outras que a gente colocou, pelo contrário, já vi críticas, que eu já respondi o porquê uso esses meios/fontes, porque mesmo sendo uma mídia de direita, e de Israel, ainda dão notícia nesses meios por lá, com censura militar e cia, não usem como "parâmetro" a "mídia brasileira" porque é um esgoto completo em relação ao resto do mundo, até com a mídia de Israel, o Brasil não tem mídia, o que há se assemelha mais à "agências de propaganda").

A quem quiser ler a matéria e tirar suas próprias conclusões, segue só um trecho e depois os links (em inglês, mas há tradutor fácil na web do inglês pra vários idiomas, sem desculpa pra fulano e cicrano dizer que "não lê porque está em inglês", algo comum ainda no Brasil, infelizmente).

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Até mesmo a maioria dos judeus americanos que apoiam Israel não se identificam como "sionistas", revela pesquisa da JFNA

Após os eventos de 7 de outubro, a guerra em Gaza e a eleição do prefeito antissionista de Nova York, Zohran Mamdani, os judeus (norte)americanos não têm uma definição de sionismo mutuamente aceita, revelam os resultados.
Por Andrew Lapin

JTA — Apenas um terço dos judeus (norte)americanos dizem se identificar como sionistas, embora quase nove em cada dez afirmem apoiar o direito de Israel de existir como um Estado judeu e democrático, de acordo com uma nova pesquisa realizada pelas Federações Judaicas da América do Norte.

Os resultados da pesquisa revelam que os judeus (norte)americanos não possuem uma definição consensual de sionismo — aqueles que se identificam como antissionistas e aqueles que se identificam como sionistas atribuem significados bastante diferentes ao termo.

Por exemplo, cerca de 80% dos judeus antissionistas afirmam que “apoiar quaisquer ações que Israel tome” é um princípio do sionismo, enquanto apenas cerca de 15% dos que se identificam como 'sionistas' compartilham dessa crença, de acordo com a pesquisa.
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A quem quiser ler a matéria completa, seguem os links:
https://www.timesofisrael.com/even-most-israel-supporting-us-jews-dont-identify-as-zionists-jfna-survey-finds/
https://www.inss.org.il/social_media/jfna-survey-finds-just-37-of-jewish-americans-identify-as-zionists/

Mas de forma resumida: o que vários judeus nos EUA interpretam como "sionismo", não bate com o que se entende por isso dentro de Israel... fora que não concordam com os massacres, genocídio, fanatismo religioso (de colonos) e cia. Basicamente isso.

Por isso que já fiz comentário crítico alertando a algumas pessoas (chamando atenção) pro fato de que nem todo mundo que declara "apoiar a existência de Israel" (fora as distorções que fazem sobre essa questão) concorda com as políticas daquele país e cia, é que existe uma confusão sobre o "país existir" e sobre como a coisa "deve funcionar" ou "ser", pralém da propaganda israelense.

Fato é que a propaganda ligada diretamente à "linha dura" de Israel foi pro ralo. Ou à "linha mole", tanto faz também. Gastam/gastaram uma fortuna pra propaganda pueril, decrépita pra nada... pudera, quem em sã consciência vai apoiar as atrocidades que Israel faz abertamente e que são denunciadas (mesmo em escala reduzida) pela "grande mídia" mundo afora?...

Vamos ver quanto "gancho" (suspensão/shadowban) a gente toma do Google com esse Post (rs), que não tem nada demais, todas as fontes são da mídia israelense...

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Colonizando e conquistando terras com os kibutzim, o "sonho socialista" (propaganda) de Israel pro mundo sem máscara. "Líder de kibutz confirma papel do movimento no estabelecimento e manutenção do apartheid israelense"

O kibutz é há muito celebrado pelos liberais como um exemplo da herança socialista de Israel, mas o líder do movimento, Nir Meir, afirma que a "primeira missão" dos kibutzim era "conquistar a terra", e hoje ele está pronto para "manter postos avançados" perto de Gaza.
Por Jonathan Ofir, 01 de Março de 2024

Uma foto do Kibutz Zikim, localizado ao norte da Faixa de Gaza. O kibutz foi fundado em 1949 por membros do movimento Hashomer Hatzair nas terras da aldeia palestina de Hirbiya. A casa em primeiro plano é conhecida como "Casa Alami", nome dado em homenagem à família palestina que a possuía antes da Nakba. Desde que esta foto foi tirada, em 2017, a casa foi transformada em um centro de acolhimento para o kibutz. (Foto: Zeev Stein/Wikimedia)

Por muitos anos, a sociedade kibutziana em Israel representou o "Israel liberal" que as pessoas usavam para destacar o "belo Israel", e muitos contavam sobre suas experiências como voluntários em um ou outro kibutz – incluindo Bernie Sanders. Claro, os kibutzim eram muito mais do que isso – eles foram ferramentas centrais na limpeza étnica da Palestina desde o início. Centenas desses kibutzim, incluindo o Kibutz Givat Haim Ichud, onde nasci e cresci, foram estabelecidos sobre as ruínas de aldeias palestinas etnicamente limpas para impedir o retorno dos refugiados palestinos e criar novos "fatos consumados".

Durante muitos anos, essa imagem liberal e de esquerda serviu para mascarar a destruição sistêmica da qual os kibutzim faziam parte. Mas agora, as máscaras estão caindo. Em uma longa entrevista ao Haaretz, o secretário-geral do movimento kibutziano, Nir Meir, que o lidera há nove anos, afirma que é hora de abandonar essa pretensão de esquerda. "A direita está certa":

"Os colonos não estão errados. A direita está certa: essa é a maneira de se apoderar e manter terras, e a alegação deles de que, onde quer que nós israelenses deixemos, os árabes ocuparão nosso lugar, está correta. A direita também está correta em seu caminho: é por meio de assentamentos, e somente por meio deles, que a soberania pode ser imposta. O debate é se a soberania deve ser imposta. Os assentamentos alegam ser os sucessores do Kibutz Hanita [na fronteira com o Líbano], porque, assim como nos tempos da Torre e da Paliçada [um método de estabelecer novos assentamentos durante o período do Mandato Britânico], é preciso conquistar colina após colina sem levar em consideração a lei e criar fatos consumados no terreno. Eles [os colonos] aprenderam conosco como se estabelecer e se apoderar de terras. A discussão com eles não é sobre o caminho ou o método, mas sobre a intenção e o objetivo."

Isso é, na verdade, muito honesto. As diferenças entre os colonos da Cisjordânia e os kibutzim são meramente superficiais/cosméticas.

Meir relata como cooperou com a extrema-direita e com a Ministra das Missões Nacionais, Orit Strock, ligada ao sionismo religioso:

"Cooperei com Orit e também com a direita na promoção do assentamento judaico no coração da Galileia [referindo-se a uma lei que permite que comunidades de milhares de famílias operem comissões de admissão para filtrar potenciais novos residentes]. Isso contrariava a abordagem politicamente correta que levou a uma situação em que, no coração da Galileia, em vez de 50% judeus e 50% árabes, haveria 85% árabes e apenas 15% judeus. Sou muito incisivo [na abordagem], promovo valores nos quais acredito, com todos que estejam dispostos a cooperar. O politicamente correto é pós-sionista, e eu sou sionista."

Assim, Meir fala abertamente sobre como a lei das “comissões de admissão”, que foi ampliada no ano passado, visa facilitar a demografia do apartheid. Ele está em sintonia com a extrema-direita nesse ponto. Ele também é o "bom amigo" dos líderes do movimento de colonos da Cisjordânia:

"Pinchas Wallerstein [ex-chefe do Conselho de Assentamentos de Yesha na Cisjordânia] é um bom amigo meu e desempenhou um papel importante na reabilitação das comunidades em frente a Gaza após a Operação Margem Protetora [2014]. Ele não é sectário e eu o estimo muito."

Meir não se considera um esquerdista. "Eu me considero uma pessoa que entende o contexto em que vive."

Paz com os palestinos?

"Não haverá paz com os palestinos. Minha opinião mudou muito antes de 7 de outubro. Não foi a retirada [de Gaza em 2005] que fracassou, foi Oslo. Eu não conto histórias para mim mesmo."

Meir opina que os kibutzim têm se inclinado mais claramente para a direita. E eu concordo com ele. A entrevistadora Meirav Moran pergunta: "Os kibutzim em frente a Gaza sempre foram considerados de esquerda no mapa político israelense. Vocês compartilham dessa visão?"

Meir responde:

"A atitude em relação ao conflito e à sua solução certamente mudará em todos os níveis. Muitos dos kibutzniks que vivenciaram o 7 de outubro não suportam ouvir árabe e querem ver Gaza apagada do mapa. Eles são as novas 'vítimas da paz'. Pouquíssimos dos kibutzniks cujas casas marcam a fronteira acreditam hoje que as pessoas que vivem do outro lado sejam boas pessoas. Eles não conseguem superar racionalmente a experiência emocional. O trauma é mais forte do que a sua visão de mundo."

De fato, ouvi falar de alguns desses kibutzniks e de sua clara defesa do genocídio. Meir diz que são muitos. E esses kibutzniks estão ligados à sociedade kibutziana em geral. Eles estão passando de esquerdistas a genocidas.

Mas Meir acha que não há problema em se mover para a direita, e na verdade está feliz em liderar esse movimento: "Fico feliz em entrar para a história como a pessoa que rompeu a aliança histórica entre o movimento kibutz e os partidos clássicos de esquerda."

Meir é claro sobre o papel histórico do kibutz, afirmando que a "primeira missão" dos kibutzim era "conquistar a terra... Não é por acaso que em todos os lugares onde havia o desejo de tomar posse de uma parte da Terra de Israel, kibutzim foram estabelecidos".

E ele deixa claro seu desejo de dar continuidade a esse tipo de missão, chegando a considerar os kibutzim atuais como "postos avançados civis". "Ainda hoje, o kibutz é a maneira mais eficaz de manter uma centena de postos avançados civis ao longo da cerca da fronteira", disse ele ao Haaretz.

Isso pode ser chocante para aqueles que acreditavam que os kibutzim em Israel eram uma manifestação de igualdade e harmonia socialista e de esquerda, mas nunca foi esse o caso. Israel está cometendo genocídio em Gaza, e o movimento kibutziano está mais uma vez se mobilizando para desempenhar um papel central na Nakba, desta vez a Nakba de 2023-2024. Não se trata de uma mudança repentina de caráter – o aspecto genocida sempre esteve presente, mas se escondia sob uma máscara. Já passou da hora de o resto do mundo também abandonar sua esperança romântica e ilusória de que um dia um "outro Israel" ressurgirá das cinzas. Não existe outro Israel.

Obrigado a Ofer Neiman

Publicidade: "A liberdade de expressão está sob ataque — especialmente quando se trata da Palestina.
Da censura às "Vozes estudantis aos assassinatos de jornalistas em Gaza", o custo de dizer a verdade sobre a Palestina nunca foi tão alto. No Mondoweiss, publicamos reportagens corajosas e análises críticas que outros não ousam abordar — porque acreditamos que o público precisa saber a verdade sobre a Palestina.
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Fonte: Site Mondoweiss
Título original: "Kibbutz leader confirms movement’s role in establishing and maintaining Israeli apartheid"
https://mondoweiss.net/2024/03/kibbutz-leader-confirms-movements-role-in-establishing-and-maintaining-israeli-apartheid
Tradução/Revisão: Roberto Lucena

P.S. só espero que a "turminha ilustrada" que lê o blog na surdina não se aproprie do texto sem citar a fonte (e tradução, se usarem, porque leram aqui, desde 2023 nenhuma mídia do Youtube no Brasil e afins usaram esses textos), como costumam "pinçar" temas, informações das discussões dos Posts de Gaza sem citar o blog, omitindo, "fingindo" que não existe pros seus respectivos público, atitude, no mínimo, desonesta (pra pegar leve). Se quem acompanha o blog ver links por aí, já sabem de onde tiraram. Poderiam ter reproduzido desde 2023 mas não tomaram iniciativa (como em outros pontos) ao mesmo tempo que mantém a postura de "gelo" pro lado de cá, comportamento bizarro já que as pessoas leem, acompanham e ao mesmo tempo têm postura hostil pro lado de cá, nem os "revis" (negadores do Holocausto) tinham/têm essa postura. Depois reclamam que não existe movimento organizado relevante sobre a Palestina no Brasil, desse jeito não vai ter nunca mesmo, fora movimento pra outros temas. Se citam outros sites e cia, qual a razão de omitirem esse? Preconceito ou outro motivo mais "sem vergonha", fútil? Postura estranha, já que no meio acadêmico não existe essa restrição (nunca houve). E ninguém "doura" a pílula por aqui, a conversa é reta sobre a questão (das razões de não existir movimento coeso organizado sobre a questão Palestina e cia no país, deve-se a essas ações dispersas de uma parte, principalmente as partes ligadas a meios políticos/partidos).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"Políticas nacional-socialistas (nazistas) perante prisioneiros de guerra soviéticos (eslavos)"

Antes de tudo, dar as boas-vindas por 2026, mas o ano já vai começar com "pedrada".

Só uma pequena considerção antes da tradução seguir, os nazistas tinham política "racial" pras pessoas oriundas do Leste europeu (eslavos: russos, ucranianos etc, em geral), política de escravidão, trabalho forçado e extermínio (se fosse o "caso")... por fome, a quem quiser ler mais (em resumo): Generalplan Ost (Link1, Link2, Link3, Link4).

Os nazistas consideravam os povos do "leste europeu" como "subraças", "inferiores", algo próximo aos judeus, ciganos e cia, consideravam esses grupos como "desprezíveis", apesar das contradições porque os nazistas usaram grupos de extrema-direita entre esses pro esforço de guerra nazista e contradições como apoiarem o Estado fantoche fascista croata (eslavos) sob batuta da "Ustasha" contra os sérvios (outro grupo eslavo).

Parece que há no congresso nacional deputados de origem do "Leste europeu" destilando preconceito regional (me recuso a chamar de "xenofobia", eu não serei tratado como estrangeiro no meu país, essa "turma" que se oriente e vá encher o saco/destilar preconceito no "país de origem" dos avós, eu não assimilo discurso exótico sobre "xenofobia" da parte Sul do país, não reconheço e não legitimo esse termo e peço que o resto do país faça o mesmo), resolvi resgatar a "questão eslava" do nazismo pra mostrar a essas figuras e ao país como esses grupos étnicos são vistos/tratados historicamente na Europa, porque o racismo anti-eslavo está "à toda" em relação à Rússia (e é genérico, a Europa Ocidental não gosta de eslavos, de forma geral, "tolerar" não é "gostar"... há raízes históricas desses preconceitos, condenáveis, obviamente, mas é pra passar na cara qui no Brasil de como certas figuras com ascendência no "Leste europeu" seriam/são vistos fora, principalmente na Europa Ocidental). Porque pralém do nazismo, o preconceito anti-eslavo é forte em toda a Europa Ocidental. Mas é pedir muito (entendimento, bom senso) de pessoas assim.

Espero que o congresso nacional brasileiro não seja negligente com figuras que insuflam separatismo (crime: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/1950-1969/l1802.htm) e coisas do tipo (que alguns rotulam erroneamente de "xenofobia", "xenofobia interna" imitando coisas da Espanha, questao espanhola é diferente da brasileira, chega dessa gente ficar importando "modismo" pro país querendo impor "termos exóticos" a outros estados) e removam esses elementos da "política" brasileira ou do congresso nacional, bem como o TSE poderia também atuar cassando mandato. Figuras que não acrescentam nada e ficam insuflando cizânia, divisão do país, o que é uma "alegria" a países hostis ao Brasil (e América Latina no todo) como os Estados Unidosm, país com "olho grande" nos recursos do Brasil e América Latina (me refiro ao governo e não ao povo, embora o "governo norte-americano" representa parcela também do povo daquele país, como Bolsonaro e outros representam parcela de setores do Brasil).

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"Políticas Nacional-socialistas em relação a prisioneiros de guerra soviéticos"

Marchas forçadas de prisioneiros de guerra
soviéticos, pelos Nazistas (Imagem do USHMM)
"Apesar de terem sido utilizados como mão de obra forçada, um método amplamente empregado a partir de 1942, os prisioneiros de guerra soviéticos constituíram o segundo maior grupo de vítimas das políticas de extermínio nazistas, depois dos judeus. Ao todo, cerca de 5,7 milhões de soldados soviéticos caíram em mãos alemãs entre meados de 1941 e o fim da guerra. Destes, 930.000 ainda estavam em campos de prisioneiros de guerra até janeiro de 1945. Cerca de um milhão havia sido libertado dos campos e transferido para as forças armadas da Wehrmacht para tarefas subordinadas. Outros 500.000 haviam escapado ou sido libertados pelo Exército Soviético. Os 3,3 milhões restantes (aproximadamente 57,5%) morreram em poder dos alemães.8 Havia quatro razões principais, além das brutais execuções em massa, para o enorme número de mortes: fome, a forma como os prisioneiros eram transportados, alojamentos inadequados e o assassinato sistemático de categorias específicas de prisioneiros.

Um dos principais objetivos de guerra da Alemanha no Leste era o controle e a exploração dos recursos alimentares. Para os homens que planejaram a pilhagem da Rússia e da Ucrânia, era evidente que, como resultado, "milhões de pessoas certamente morreriam de fome".9 "Muitas dezenas de milhões" nesses territórios "morreriam ou teriam que emigrar para a Sibéria".10 Os prisioneiros de guerra soviéticos foram as primeiras vítimas dessa política. Como resultado, mais de um milhão de pessoas morreram de fome nos primeiros meses de prisão.11

Dezenas de milhares de prisioneiros de guerra soviéticos também morreram a caminho dos campos. Muitos tiveram que marchar centenas de quilômetros atrás da linha de frente. Os guardas da Wehrmacht fuzilavam aqueles que se exauriam durante o percurso. Nos casos em que os prisioneiros eram transportados por trem, a Wehrmacht permitia apenas o uso de vagões de carga abertos. O rigoroso inverno russo e a privação de alimentos, muitas vezes por vários dias seguidos, resultaram em enormes perdas.

Quase nenhum preparo havia sido feito para abrigar os prisioneiros de guerra, pois se presumia que a União Soviética entraria em colapso em poucas semanas. Para as áreas destinadas aos campos, nada além de arame farpado havia sido providenciado. Os prisioneiros, exaustos pela marcha e enfraquecidos pela desnutrição, tinham poucos recursos para combater o frio, o contágio e as doenças relacionadas à fome nos campos temporários.

Além disso, em meados de julho de 1941, Reinhard Heydrich, em nome da Polícia de Segurança, e o General Hermann Reinecke, oficial da Wehrmacht responsável pelos prisioneiros de guerra, concordaram que os Einsatzgruppen da SS deveriam identificar e fuzilar todos os "elementos politicamente e racialmente inaceitáveis" entre os prisioneiros soviéticos. Isso incluía "todos os funcionários importantes do Estado e do Partido", "membros da intelectualidade", "todos os comunistas fanáticos" e "todos os judeus".¹² O número de vítimas desses assassinatos ficou entre 140.000 e 150.000. Estima-se que apenas o número de soldados judeus do Exército Vermelho feitos prisioneiros seja de cerca de 85.000. Sem exceção, qualquer um identificado como judeu era morto. O mesmo tratamento foi dispensado a milhares de prisioneiros não judeus que — assim como os muçulmanos circuncidados — foram considerados judeus disfarçados ou classificados como "asiáticos racialmente inferiores".

O fato da taxa de mortalidade ter declinado consideravelmente em 1942 não tem nada a ver com considerações de humanidade ou com as regras da guerra, mas sim com o reconhecimento por parte dos líderes do regime e da Wehrmacht de que a produção de armamentos alemã dependia do trabalho desses prisioneiros de guerra. Ficou claro que a União Soviética não seria derrotada tão facilmente quanto os alemães esperavam. Diante da ameaçadora escassez de mão de obra, a indústria de mineração alemã, em particular, tornou-se a principal defensora do uso de mão de obra soviética, mas a SS e a liderança do partido rejeitaram essa ideia de imediato. Chegou-se a um acordo: prisioneiros de guerra e civis soviéticos seriam utilizados, mas sob condições que incluíam exploração máxima, isolamento rigoroso da população alemã, tratamento e provisão miseráveis e imposição da pena de morte até mesmo para infrações menores.13"

Notas (do trecho)

8 Streit, Keine Kameraden, p. 136.

9 Aktennotiz, 2. 5. 1941, Document 2718 PS, International Military Tribunal (IMT), Major War Criminals, Nuremberg 1947–49, Volume 31, p. 84; see also Gerlach, Kalkulierte Morde, pp. 46–59.

10 Wirtschaftspolitische Richtlinien für Wirtschaftsorganisation Ost, Gruppe Landwirtschaft vom 23. 5. 1941, Document EC 126, IMT, Volume 36, p. 135.

11 Streit, Keine Kameraden, p. 136.

12 Einsatzbefehl Nr. 8, 17 July 1941, IMT, NO – 3414, based upon the notorious Kommissarbefehl, OKH, Gen. Z.b.V. beim ObdH, Nr. 75/41 g. Kdos. Chef., 6. 5. 1941, Annex 2, Document 877 PS, International Military Tribunal [IMT], Major War Criminals, Nuremberg 1947–49.

13 Ulrich Herbert, Fremdarbeiter. Politik und Praxis des ‘Ausländer-Einsatzes’ in der Kriegswirtschaft des Dritten Reiches (Bonn, 1999), pp. 158–208.

Fonte: site OpenEdition Books; Central European University Press ("Jews, Gypsies and soviet prisoners of war: comparing nazi persecutions"; Michael Zimmermann, pág. 31-53)
https://books.openedition.org/ceup/1413
Tradução: uso do tradutor do Google (IA, sob supervisão (Roberto Lucena) (eu li tudo pra aprovar ou corrigir)

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Edwin Black revolve as raízes americanas da eugenia nazista

MARCELO FERRONI
free-lance para a Folha de S.Paulo
(Post original publicado em 09.05.2010).
Em 1934, um ano depois de Hitler ter tomado o poder na Alemanha, o superintendente de um hospital da Virgínia (EUA) reclamou a um jornal americano: "Os alemães estão nos vencendo em nosso próprio jogo". O jogo era a discriminação racial, com a posterior exclusão dos "mais fracos", perpetrada pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

O médico que fez a afirmação, Joseph De Jarnette, pertencia a um grupo de eugenistas norte-americanos que, desde o início do século 20, se esforçava para aprovar no país leis e medidas de exclusão social e de esterilização das pessoas que fossem consideradas inadequadas a ter filhos.

A Virgínia, um dos Estados que mais apoiaram a eugenia --ou a ciência destinada a "melhorar geneticamente" a espécie humana--, havia promulgado suas leis de esterilização em 1924. Ela não fora a única.

Entre 1907 e 1940, a Carolina do Norte, Michigan e outros Estados norte-americanos realizaram milhares de esterilizações e castrações. Só na Califórnia, o número de intervenções cirúrgicas forçadas chegou a 14.568. No entanto, foi com Hitler que o projeto de um grande extermínio, sonhado por alguns desses eugenistas, tomou forma concreta.

"Esse grupo pequeno estava no poder, sabia como manipular as leis e usou sua posição influente para usar as armas do governo contra as minorias étnicas", diz o jornalista Edwin Black, 53, autor de "A Guerra Contra os Fracos", lançado agora no Brasil.

Black causou polêmica ao lançar em 2001 "IBM e o Holocausto" (Campus), em que afirmava que a empresa americana havia ajudado os alemães a conduzir seu sistema de extermínio em massa. Em seu novo livro, vai mais longe.

Acusa não só a IBM, mas centros de pesquisa e financiamento americanos, como a Instituição Carnegie e a Fundação Rockefeller, de terem estimulado a discriminação e defende que, apesar de a eugenia ter sido criada pelo inglês Francis Galton (1822-1911), ela só adquiriu seu aspecto violento nos EUA devido à ação de uns poucos fanáticos, que chegaram a influenciar Hitler. Leia, a seguir, trechos de sua entrevista à Folha.

Folha - É possível dizer que Galton era um eugenista de boas intenções, apesar de suas idéias preconcebidas?
Edwin Black - Há uma diferença entre eugenia "positiva" e "negativa". Galton, em muitos aspectos, era "positivo", ou seja, ele procurava promover casamentos melhores. Suas idéias foram desvirtuadas nos EUA e se tornaram eugenia negativa, que era o desejo de obliterar ou destruir linhagens humanas. Acho que, apesar de equivocado, Galton pode ter sido bem intencionado.

Folha - Por que a eugenia se tornou tão forte nos EUA?
Black - Na virada do século 20, havia milhões de judeus chegando da Europa Oriental e da Rússia. Havia milhões de mexicanos que haviam sido absorvidos após a guerra de anexação dos EUA. Havia asiáticos que vieram para construir as ferrovias, uma grande quantidade de negros, e os índios estavam sendo lentamente integrados. Não só o país estava mudando demograficamente, mas também se urbanizando.

Alguns homens da alta sociedade se sentiram ameaçados pelas mudanças extremas que eles presenciaram em um curto período de tempo, de cinco a dez anos, e quiseram voltar para a época de seus avós e bisavós. Foram as sementes do medo que causaram o racismo. O racismo é somente o produto do medo.

Folha - Por que a eugenia era mais forte na Califórnia?
Black - É preciso diferenciar onde a eugenia era mais ativa e onde era mais apoiada. É possível dizer que a Virgínia era um dos Estados onde havia mais apoio, mas, na Califórnia, ela era mais ativa. Tratava-se de um grupo muito pequeno de pessoas contra uma sociedade maior. Mas esse grupo pequeno estava no poder, sabia como manipular as leis e usou sua posição influente para usar as armas do governo contra as minorias étnicas.

Folha - A idéia dos campos de concentração alemães foi inspirada pelos eugenistas americanos?
Edwin Black - Eu diria que ela foi inspirada por uma combinação de duas coisas: os primeiros campos de concentração da guerra dos bôeres [entre o Exército inglês e colonos sul-africanos, de 1899 a 1902] e a idéia eugenista americana de que cidadãos deveriam ser separados e colocados em colônias que hoje podemos chamar de campos de concentração.
A justificativa para campos domésticos, em oposição aos campos para inimigos, provavelmente veio de filosofias eugenistas americanas.

Folha - E dá para afirmar que a idéia de extermínio em massa veio dos eugenistas norte-americanos?
Black - Infelizmente, essa idéia foi norte-americana. A eutanásia foi uma das propostas iniciais, e o método deveria ter como base câmaras de gás. Mas a sociedade não estava preparada, e assim a esterilização individual forçada foi implementada no lugar.

Folha - Mas, quando Hitler subiu ao poder, parte dos eugenistas americanos deixou de apoiá-lo.
Black - Conforme o programa de Hitler se tornou mais detestável, muitos eugenistas abandonaram suas idéias ou se calaram. Mas o núcleo mais "duro" se isolou e continuou a apoiar o regime. Eles tinham um conceito chamado de "seleção letal", uma versão da seleção natural de Darwin em que o mais forte prevaleceria sobre o mais fraco e agentes externos, como bactérias, seriam usados para acelerar os desígnios da natureza.

Folha - Qual a importância da eugenia para a fundação da genética?
Black - A eugenia não foi o avô da genética; foi seu pai. É muito simples. Após a Segunda Guerra Mundial, quando se descobriu que milhões haviam morrido, o movimento norte-americano se recolheu e mudou de nome. Ele passou a se chamar "genética humana".
Após uma ou duas gerações, uma nova leva de cientistas apareceu para criar a nova ciência que conhecemos, imune aos preconceitos raciais anteriores.

Folha - A genética pode se tornar tão perigosa quanto a eugenia?
Black - Acredito que a "nova-genia" possa reaparecer. Mas a ameaça não terá por base bandeiras nacionais e dogmas racistas. Ela virá da área econômica, de seguradoras, de empregadores que queiram usar informações genéticas para caracterizar a ancestralidade como base para a discriminação e, logo, perseguição.

Livro: A GUERRA CONTRA OS FRACOS
Autor: Edwin Black

Fonte: Folha de São Paulo(Brasil, 31.01.2004)
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u41025.shtml

Edwin Black é também autor do famoso livro IBM e o Holocausto.

domingo, 10 de agosto de 2025

As reflexões do prof. Mearsheimer sobre o "futuro" de Israel (ou "falta de")

Eu ia fazer esse post há dias, ou há mais de semana quando saíram os cortes no canal da Katie Halper, mas paciência, só tem duas pessoas que praticamente dialogam nesse espaço (mesmo com a quantidade considerável de "Voyers de política" acompanhando), onde ninguém recebe nada (nem "tapinha nas costas") ou ajuda em divulgação do espaço, sendo que não era (nunca foi) esse o objetivo desde o princípio da denúncia da situação de Gaza (o blog existe desde 2007 e nunca contou com "ajuda" de quaisquer grupos de canal, mídia etc, só que antes não vinha copiar e colar sem apontar os créditos, está na descrição do blog sobre "uso de conteúdo" essa questão), comento isso porque realmente me "desapontou" (mas não espantou) verificar o comportamento nebuloso e mesquinho mesmo em setores "ditos de esquerda" na postura de comunicação e denúncia do genocídio.

Mas que refletem bem a prostração atual do PT e governo quando querem mobilizar a população e como bem da dita "esquerda radical de Youtube" (já comentada aqui, não em profundidade porque teria muito mais coisa a abordar, ficará pra outra ocasião, eu gostaria mais de falar do porquê do PT ser hegemônico já que essa turma ignora por completo a gênese do PT, até por questão geracional, já tem uma parte que nasceu ou cresceu com o PT no poder, só têm alguma ideia do "Brasil anterior" por leitura ou "ouvi falar", ou quando leem comentários de certa pessoa aqui na surdina... e de outros), mas é uma questão pertinente e a ausência de livros que expliquem o Brasil da Redemocratização, governo Sarney, Collor, FHC etc (irei abordar essas questões em outro post, fazendo até uma bibliografia do que eu achar de relevante desses assuntos).

O prof. Mearsheimer, desse livro aqui ("The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy", review 1, review 2), deu entrevista à comediante/jornalista Katie Halper (norte-americana de origem judaica, foi demitida por chamar Israel de apartheid, de ter apartheid em Israel), sobre ela (Link1), em que explana sobre o "futuro sombrio" de Israel ou ausência disso (de "futuro"). Tem coisas que a gente já abordou/discutiu por aqui nos 'n' posts de Gaza (são 22 partes desde Outubro de 2023, mais dois ou três posts onde a discussão havia começado, ficam listados nos posts), porque temos problema sério de comunicação, de discussão aqui no país com uma turma de direita que "cobre geopolítica" reduzindo essas questões a posturas "isentonas" (tolices), por serem politicamente refratários, reducionismos, simplificações, passada de pano pra política israelense etc (com até endosso de setores da esquerda do país ao se aproximarem desse "espectro" de forma acrítica, sem questionar essas posições, e sim, eu não vou passar pano ou alisar cabeça de ninguém, a gente já não tem fama de "chato", de "briguento"? sou mesmo, gosto das coisas corretas, certas, mesmo que A, B ou C não concordem, direito de cada um, mas vamos parar com essa discussão de que vivemos numa "Aldeias dos Smurfs" e todo mundo é "amiguinho de todo mundo").

Perdi um pedaço do texto, mas tentarei reescrever (que lixo essa atualização que o Google fez do Blogger), acho que a gente conseguiu traçar bem uma linha que distingue a posição da gente desses demais grupos refratários. Não tenho intento de "fazer cabeça" de ninguém aqui no país até porque isso é uma questão estritamente pessoal, mas que não venham com conversa mole tortuosa repetindo bobagem que ouviu em "canto x" pras bandas de cá. Ninguém aqui vive apitando ou dando pitaco nesses outros cantos. E não fomos nós que começamos certa "hostilização", faziam, começaram, depois não cabe "choro" ou o famoso "deixa disso". Eu tenho pouca (ou nenhuma) paciência pra esse tipo de postura. Acham que vão nos silenciar porque blogs não têm alcance de canais do Youtube... já comentei isso antes, mas não tem problema em repetir: não tem o mesmo alcance (imediato), mas possuem alcance sim... principalmente porque um público leitor, que está mais acostumado a ler, com os temas etc, tem muito público univesitário que acessa isso aqui desde o começo, que vão formar a opinião dos países amanhã. A gente dialoga com certo nicho, como cada canal dialoga com os seus.

Não era bem isso que estava escrito no trecho que perdi (apaguei sem querer tentando salvar, mas paciência). E o prof. Meirsheimer não é uma figura de esquerda, mas é uma pessoa esclarecida, chamaria de "liberal clássico" esclarecido em extinção, com uma visão mais social de mundo.

Sem mais delongas, vou colocar os vídeos do Mearsheimer, dois em destaque (mas há mais de um, o resto eu colocarei os links pra clicarem e assistirem, acho que há a entrevista inteira no canal da Halper, a quem quiser ouvir vale a pena, se você quer estar bem informado sobre o conflito no Oriente Médio e cia, sigam a sugestão da gente que não se arrependem) porque fica ruim de abrir em celulares (smartphones) vários vídeos com tela do Youtube no post, por isso a escolha de dois cortes (os principais) e o resto segue como link.

Por essa razão que eu tenho uma leva de links da fome de Gaza (imagens, vídeos) e estou pensando em como disponibilizar isso, porque no post de Gaza (parte 22), muita gente por vezes não clica, apesar de que o maior acesso ao blog vem de público externo ao Brasil, cerca de quase 70% (de brasileiros morando fora, de estrangeiros mesmo, tem gente aprendendo português, tem gente que usa tradutor do Google, da Ásia, muitos acessos de Singapura, muitos acessos dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Vietnã, Hong Kong, Holanda, Japão etc, a lista é extensa e nos deixa feliz em saber que prestigiam lendo, acompanhando, apesar da ausência de comunicação, diálogo, que seria importante pra gente, pode ser via email). Irei colocar os vídeos de Gaza como links e alguns abertos (depois, posso até inverter a posição dos posts depois). Cerca de uns 32% dos acessos do blog são de dentro do Brasil... pelo menos da última vez que contabilizei isso.

Mas como ninguém fez a pergunta, eu mesmo faço: "por que é importante saber do futuro de Israel e bla bla bla bla"? Eu não adoto certa linha de "corte brusco" que o Breno, por exemplo adota (nada contra, direito dele e de mais gente, eu apenas penso de outra forma nisso), sem se comunicar ou estabelecer algum diálogo com gente que ainda se declara "sionista" e está ciente do problema que se passa, ou mesmo de sionistas (mais esclarecidos que já começam a notar que esse "projeto sionista colonial" colapsou ou está em vias de colapsar, porque não sobrevive por médio/longo prazo sem os Estados Unidos, se sobreviver, dá até pra discutir isso depois), porque a resolução do conflito na Palestina também virá de pessoas nesse "bloco sionista" (principalmente nos EUA e Europa) rachando com a "linha dura" bitolada. Quem achar que isso não é relevante está viajando lindamente na maionese.

Os vídeos:

1. "Israel está CONDENADO" — Prof. John Mearsheimer
2. "Israel “NÃO SOBREVIVERÁ” sem os EUA" – Prof. John Mearsheimer
(O Google anda traduzindo automaticamente os títulos sem perguntar antes, tá bem chato isso)


3. Vídeo, "Republicanos se voltam contra Israel com o Prof. John Mearsheimer" (https://www.youtube.com/watch?v=a3I0cQPUpb0)
4. Vídeo, "Israel está “EM VERDADEIROS PROBLEMAS” - Professor John Mearsheimer (https://www.youtube.com/watch?v=rhFGGIpenow
5. Vídeo, "John Mearsheimer EXPÕE o segredo sujo de Israel: 'O estado judeu está se comportando como nazistas'" (https://www.youtube.com/watch?v=OdQDYhSk6-0
6. Vídeo, "Os sionistas cristãos são mais radicais que os judeus" — Mearsheimer | APT" (https://www.youtube.com/watch?v=s-XFHy_1c24)

P.S. pros de fora que não entendem português (exceto por tradutor aqui), a quem for acessar os vídeos pelo post, os vídeos podem aparecer com "áudio" em português (pela IA do Google), fazem isso de forma automática, não foi minha opção. A quem quiser ouvir com o áudio original, é só mexer na "Configuração" do vídeo ou clicar pra ouvir direto no Youtube.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

As cartas e cadernos de Vasily Grossman

O livro "Um escritor em guerra" ("A writer at war") consiste em trechos das cartas da família de Vassily Grossman (preservadas por sua filha e enteado) e de cadernos (preservados no RGALI: Arquivo Estatal Russo de Literatura e Artes). Sua natureza privada elimina qualquer dúvida de que sejam fontes primárias de verdadeiras observações de Grossman. E elas apresentam problemas intransponíveis para os negacionistas. Aqui está um exemplo.
A carta da qual este trecho foi retirado foi escrita para sua esposa durante a viagem de Kiev para a recém-libertada Berdichev, onde sua mãe foi uma das vítimas dos alemães:
"Querida Lyusenka, cheguei ao meu destino hoje. Ontem estive em Kiev. É difícil expressar o que senti e o que sofri nas poucas horas em que visitei os endereços de parentes e conhecidos. Só há sepulturas e morte. Vou para Berdichev hoje. Meus camaradas já estiveram lá. Eles disseram que a cidade está completamente devastada, e que apenas algumas pessoas, talvez uma dúzia entre milhares, dezenas de milhares de judeus que viviam lá, sobreviveram. Não tenho esperança de encontrar mamãe viva."
Se os negacionistas ainda desejam afirmar que o relato de Grossman sobre o genocídio em Kiev e Berdichev, escrito na época de sua libertação, é propaganda totalmente falsa, eles terão que explicar este segundo trecho, no qual Grossman descreve estupros em massa perpetrados por seu próprio lado em Schwerin:
"Coisas horríveis estão acontecendo com mulheres alemãs. Um alemão instruído, cuja esposa recebeu "novos visitantes" — soldados do Exército Vermelho —, explica, com gestos expressivos e palavras russas truncadas, já foi estuprada por dez homens hoje. A senhora está presente...

Gritos de mulheres são ouvidos através de janelas abertas...

Uma história sobre uma mãe que amamentava e estava sendo estuprada em um celeiro... o bebê faminto chorava o tempo todo.
"
Por que Grossman mentiria, em seus escritos privados, sobre Berdichev, sobre o assassinato de sua própria mãe, mas contaria a verdade sobre esses estupros, que são prejudiciais à imagem dos soviéticos?

Fonte: Holocaust Controversies
Autor: Jonathan Harrison
Título original: "Vasily Grossman's Letters and Notebooks"
https://holocaustcontroversies.blogspot.com/2009/05/vasily-grossmans-letters-and-notebooks.html
Tradução: Roberto Lucena

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Adam Tooze: "O salário da destruição. Formação e ruína da economia nazi", "Review" (Resumo/análise do livro, para entender o colapso da economia nazista)

Adam TOOZE. The Wages of Destruction. The Making and Breaking of the Nazi Economy
Adam TOOZE. "O Salário da Destruição. Formação e ruína da economia nazi
Paris, Les Belles Lettres, 2012, 812 p.

Domingo, 3 de março de 2013, por Laurent Gayme

Licenciado pelo King's College e pela London School of Economics, Adam Tooze é professor de história alemã na Universidade de Yale. Publicou anteriormente "Statistics and the German State, 1900-1945: The Making of Modern Economic Knowledge", Cambridge, Cambridge University Press, 2001.

Este livro é uma tradução do seu livro The Wages of Destruction: The Making and Breaking of the Nazi Economy, Londres, Allen Lane, 2006, que ganhou o Prêmio Wolfson de História em 2006 e o Prémio Longman-History Today Book of the Year em 2007.

A história econômica no centro das atenções

Esta tradução de um livro importante por Les Belles Lettres é de saudar. Nos últimos anos, os leitores franceses puderam ler muitas obras inovadoras sobre a Alemanha nazi, entre as quais as de Ian Kershaw, Robert Gellatelly, Mark Mazower, Christian Ingrao e Johann Chapoutot (que passa em revisão as últimas pesquisas sobre o nazismo em Le nazisme, une idéologie en actes, coleção Documentation photographique n°8085, Paris, La Documentation française, 2012). 

De todas estas publicações, poucas foram dedicadas a questões econômicas, com exceção de Götz Aly (Comment Hitler a acheté les Allemands, Paris, Flammarion, 2005). Adam Tooze chama a atenção para o fato de a história econômica do nazismo ter progredido pouco nos últimos vinte anos, ao contrário da história do funcionamento do regime, da sociedade e das políticas raciais, por exemplo. É por isso que tem a ambição de “iniciar um processo de recuperação intelectual que há muito deveria ter sido feito” (p. 19), dando-nos, sob a égide de Marx, uma impressionante história econômica da Alemanha nazi: “O primeiro objetivo deste livro é, portanto, voltar a colocar a economia no centro da nossa compreensão do regime hitleriano...” (p. 20). (p. 20). 

Propõe-se fazê-lo rompendo com um pressuposto do século XX, o de uma superioridade econômica particular da Alemanha (ainda hoje presente no espírito das pessoas...), um mito destruído pelos últimos trabalhos dos historiadores econômicos para os quais o grande fato econômico do século XX é o eclipse da Europa pelas novas potências econômicas, nomeadamente os Estados Unidos. Na década de 1930, a Alemanha da Krupp, da Siemens e da IG Farben tinha um rendimento nacional per capita na média europeia (ou seja, comparável, em termos atuais, ao do Irã ou da África do Sul), um nível de consumo mais modesto do que o dos seus vizinhos ocidentais e “uma sociedade parcialmente modernizada em que mais de quinze milhões de habitantes viviam do artesanato tradicional ou da agricultura camponesa”. (p. 21).

O inimigo americano

A tese central de Adam Tooze baseia-se menos no Mein Kampf (1924) anti-bolchevique do que num manuscrito de Hitler conhecido como “Segundo Livro”, concluído no verão de 1928 e que contém discursos da campanha para o parlamento da Baviera, em maio de 1928, na qual Gustav Stresemann, ministro dos Negócios Estrangeiros da República de Weimar, era candidato. Convencido de que os Estados Unidos iriam tornar-se a força dominante da economia mundial e um contrapeso à Grã-Bretanha e à França, Stresemann tinha escolhido, após a derrota de 1918, a aliança financeira americana e a integração econômica na Europa capitalista (as escolhas feitas por Adenauer depois de 1945), a fim de conquistar um mercado suficientemente grande para se equiparar aos Estados Unidos. 

Para Hitler, a força motriz era a luta por meios de subsistência limitados, ou seja, a colonização de um “espaço vital” no Leste, para competir com o poder dos Estados Unidos, cuja hegemonia ameaçaria a sobrevivência econômica da Europa e a sobrevivência racial da Alemanha, com os judeus a reinarem tanto em Washington como em Londres e Moscou. Hitler rejeitava a “americanização”, a adoção dos modos de vida e de produção americanos, porque por detrás do liberalismo, do capitalismo e da democracia estava o “judaísmo mundial”.

Construção de um complexo militar-industrial

Em suma, Hitler estava a responder a uma situação do século XX com uma solução do século XIX. O imperialismo, combinado com a sua ideologia antissemita, tinha de transformar a Alemanha numa potência continental capaz de rivalizar com o Império Britânico e, sobretudo, com o imenso território dos Estados Unidos. Para isso, Hitler organizou, a partir de 1933, o mais extraordinário esforço de redistribuição jamais realizado por um Estado capitalista, com a percentagem do produto nacional destinada ao exército a passar de menos de 1% para quase 20% em 1938, ao mesmo tempo que a produção industrial aumentava fortemente, assim como o consumo e o investimento civil (6 milhões de desempregados foram postos a trabalhar). 

Tudo foi sacrificado ao rearmamento e à criação deste complexo militar-industrial, nomeadamente os interesses das indústrias de bens de consumo e do campesinato, daí o racionamento das matérias-primas essenciais a partir de 1935 e, mais tarde, a pilhagem da Europa. Este foi aceite pelo grande capital alemão, enfraquecido pela crise de 1929, porque era seletivo, explorando frequentemente a iniciativa privada, e assegurava lucros substanciais, mantendo a ordem social e esmagando a esquerda e os sindicatos. Por fim, a conquista do Lebensraum no Leste (com o "Generalplan Ost" de racionalização e reorganização agrária e o Plano Fome de 1941, que previa a pilhagem dos recursos alimentares de cerca de dez milhões de polacos, russos e ucranianos) e a política genocida, nascida da ideologia racial e antissemita, encontraram a sua justificação econômica ao serviço do poder. A economia nazi e a Segunda Guerra Mundial

No entanto, Adam Tooze mostra claramente que a diplomacia, o planeamento militar e a mobilização econômica não se combinaram para formar um plano de guerra coerente e a longo prazo. Em setembro de 1939, a Alemanha entrou em guerra sem uma forte superioridade material ou técnica em relação à França, à Grã-Bretanha ou, em 1941, à URSS. Com uma economia condicionada por problemas de balança de pagamentos (era impossível contrair empréstimos ou fazer comércio com a Grã-Bretanha e os Estados Unidos) e sob controlo administrativo permanente, Hitler estava constantemente a jogar contra o relógio. 

Em 1939, a Alemanha já não podia acelerar o seu esforço de armamento, enquanto a Grã-Bretanha, a França e a URSS aceleravam o seu rearmamento. Por outro lado, se em 1936 Hitler ainda insistia na conspiração judaico-bolchevique, a partir de 1938 o antissemitismo nazi tomou um rumo anti-ocidental e, sobretudo, anti-americano, o que facilitou a compreensão do Pacto Germano-Soviético, que também protegia a Alemanha contra uma segunda frente e contra os piores efeitos do bloqueio anglo-francês. Para além das considerações ideológicas, tendo em conta a dimensão do esforço de guerra anglo-americano a partir do verão de 1940, os recursos econômicos da URSS (cereais, petróleo) eram vitais para a sobrevivência da Alemanha. Ao mesmo tempo, porém, era necessário preparar a invasão da URSS e a corrida transatlântica ao armamento, o que exigia uma vitória rápida sobre o Exército Vermelho, ao mesmo tempo que se levavam a cabo os programas genocidas de limpeza étnica das SS no âmbito do Generalplan Ost.

No início de 1942, as forças econômicas e militares mobilizadas contra o Terceiro Reich eram esmagadoras. Mas o núcleo do poder político nazi (o Gauleiter Sauckel, Herbert Backe, o orquestrador do Plano da Fome, Göring, Himmler e Albert Speer) empreendeu então um imenso esforço para mobilizar todos os recursos humanos (incluindo a mão de obra judaica nos campos), alimentares e econômicos (pilhando toda a Europa) ao serviço da guerra e do “milagre armamentista” de Speer. A aceleração final da produção alemã de armas, em 1944, foi efetuada à custa da destruição de uma grande parte da Europa e das suas populações, bem como da própria Alemanha. Em 1946, o PIB alemão per capita era de pouco mais de 2.200 dólares (um nível que não se registrava desde a década de 1880) e, nas cidades arrasadas, as rações alimentares eram frequentemente inferiores a 1.000 calorias por dia. Uma grande obra

Como já deve ter percebido, é impossível transmitir aqui toda a riqueza deste fascinante fresco, que é perfeitamente legível para não especialistas em história econômica. Adam Tooze desafia muitas ideias recebidas sobre os sucessos industriais do Terceiro Reich e as motivações e decisões nazis durante a guerra, sem nunca subestimar a importância dos pressupostos ideológicos nazis. 

Oferece-nos uma brilhante releitura da primeira metade do século XX, à luz das escolhas econômicas feitas em resposta às convulsões no equilíbrio econômico global, e oferece-nos um cativante apelo à história econômica. É evidente que se trata de uma leitura essencial para os professores de História do ensino secundário, em particular para os que lecionam os capítulos sobre crescimento econômico e globalização, totalitarismo e guerra total.

Fonte: La Cliothèque
http://clio-cr.clionautes.org/le-salaire-de-la-destruction-formation-et-ruine-de-l-economie-nazie.html

Reproduzido primeiramente em Holocaust-doc (blog auxiliar deste aqui para publicação de textos, correlatos ao tema do blog, 2aGM e cia, em outros idiomas: inglês, francês, espanhol etc):
https://holocaust-doc.blogspot.com/2016/02/adam-tooze-le-salaire-de-la-destruction-formation-et-ruine-de-l-economie-nazie.html

Texto traduzido do francês com ajuda de IA ("Inteligência artificial").
Revisão:
Roberto Lucena