terça-feira, 18 de agosto de 2009

Sobre a Negação do Holocausto - prefácio do livro de Kenneth S. Stern

Tradução pro português do prefácio do livro "Holocaust Denial" de Kenneth S. Stern, sobre a questão da Negação do Holocausto, vulgarmente e erroneamente chamada de "revisionismo"(entra aspas) do Holocausto.
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"Tornei-me interessado na negação do Holocausto quando vi a história se repetindo. Quando perguntei a amigos o que pensariam daqueles que afirmam que o Holocausto foi uma farsa, eles riram. "Quem acredita nestas maluquices?" Eles perguntaram. "Há tanta evidência sobre o Holocausto, por que se preocupar?'

Lembrei de reações similares as da equação, nas Nações Unidas, do sionismo igual a racismo em 1975. "Ninguém levará isso a sério," muitos disseram. Eles estavam errados. Em apenas poucos anos, o boato sionismo = racismo achou seu caminho em dicionários, livros jurídicos, até em cartazes em paradas. Era dito aos judeus em muitos campus universitários, incluindo alguns campus dos EUA, que devido ao fato deles serem judeus, eles eram sionistas, e por causa deles serem sionistas eles eram racistas. Até depois da ONU anular a resolução em 1991, esta difamação dá força a justificação para o antissemitismo em muitas partes do mundo.

A história do antissemitismo adorna uma verdade acima de todas as outras: mentiras que promovem ódio antissemita nunca devem ser ignoradas. A negação do Holocausto, apesar de ridicularizada hoje, tem os atributos para se tornar uma potente forma de antissemitismo.

Este livro é dividido em cinco partes. A introdução traça o que a negação é, e quem está por detrás dela. O primeiro capítulo examina a negação nos EUA; a segunda parte trata da negação em todo o mundo. O terceiro capítulo refuta as afirmações específicas dos negadores. O último capítulo oferece uma estrutura para se combater a negação e o antissemitismo nas gerações que estão porvir.

Eu espero que este livro persuada o leitor em duas coisas: uma, que a negação do Holocausto deve ser levada a sério; duas, que o combate a esse tipo de coisa não pode ser um problema sozinho da educação do Holocausto. A negação do Holocausto não é sobre verdade histórica. É sobre ódio antijudaico como parte de uma agenda política - e deve ser confrontada como tal.

O lançamento deste livro coincide com a abertura do Museu Memorial do Holocausto no Distrito de Washington. O Memorial pode se tornar um foco para negadores, que agora terão um endereço simbólico para endereçar suas visões neonazistas.

Esta publicação tem a intenção não apenas de sugerir como combater a negação do Holocausto, mas também aumentar a consciência da lição do Museu: que o genocídio é sempre possível se as pessoas são complacentes com o ódio."

Kenneth S. Stern
Especialista de programa em antissemitismo e extremismo político
American Jewish Committee(Comitê Judaico dos Estados Unidos)

Tradução: Roberto Lucena

sábado, 15 de agosto de 2009

Carlo Mattogno - "revisionistas" - biografias - 03

Carlo Mattogno (nasceu em 1951 em Orvieto, Itália) é um historiador italiano.

Em 1985 Mattogono publicou o livro "The Myth of the Extermination of the Jews"('O Mito do Extermínio dos Judeus') e no mesmo ano o folheto "The Gerstein Report - Anatomy of a Fraud"('O Relatório Gerstein - Anatomia de uma Fraude', ver também: Relatório Gerstein). Ambas as publicações são voltadas para disputar o genocídio dos campos de concentração e campos de extermínio nazistas.

Mattogno é um membro do comitê consultivo do "Institute for Historical Review"(IHR, 'Instituto de Revisão Histórica'*), uma corporação que promove teorias de negação do Holocausto e ele também contribui para o jornal em francês "Annales d'Histoire Revisionniste". Ele também aparece amplamente em publicações feitas pelo negador do Holocausto Germar Rudolf como também em vários websites "revisionistas" em língua inglesa e alemã, e tem estado longe de ser censurado legalmente por qualquer uma dessas atividades.

Fonte: antisemitism.org.il
Tradução: Roberto Lucena

*IHR(Institute for Historical Review = corporação de negação do Holocausto, que leva o nome de "Instituto", localizado nos Estados Unidos, e é um dos ou o principal distribuidor de material negacionista(antissemita) do mundo.

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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

NPD(partido neonazi alemão) ameaça com racismo partidário da CDU

Militante da CDU na Alemanha vive sob proteção policial

O angolano Zeca Schall, que faz parte das listas do partido às próximas eleições, foi convidado pelo NPD, a regressar a África.

Na página de internet do partido neonazi é possível ler que farão uma pequena visita à sua casa para passarem a mensagem.

Schall sente-se tocado pelas ameaças e afirma: “Esta campanha contra mim é uma campanha contra mim e toda a CDU* de Turíngia e na Alemanha em geral, mas também contra outros partidos democráticos em todo o país.”

A polícia alemã considera as ameaças sérias e decidiu colocar o candidato sob proteção, enquanto a federação regional da CDU processou o NPD por incitar ao racismo.

Schall vive na Alemanha desde finais da década de oitenta e adquiriu nacionalidade alemã, agora figura nas listas locais da CDU, a Turíngia, ao lado de Dieter Althus, o líder do governo regional.

Fonte: Euronews
http://pt.euronews.net/2009/08/13/militante-da-cdu-na-alemanha-vive-sob-proteccao-policial/

Há vídeo em português na matéria da Euronews.

* CDU = partido tradicional de direita da Alemanha.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A cultura obsessiva de massas das teorias "mágicas" de conspiração nos EUA

Tendo em vista que boa parte do "público" revimané(e simpatizantes desse tipo de charlatanismo) é composta por gente que crê em coisas obscuras ou fantasiosas, teorias esdrúxulas como "o Homem nunca foi à Lua" ou "Obama é muçulmano"(rsrs), crendices, textos pseudocientíficos, pensamento persecutório, obsessivo, crenças em conspirações invisíveis e ocultas e sendo pessoas que frequentemente confundem pensamento ou "interpretação" de cunho inteiramente crente(que crê em algo mesmo sem provas por preconceito contra grupos étnicos ou crenças em conspirações destrutivas ocultas, pra que algo possua significado ou validade por incapacidade de entender o mundo de forma crítica e analítica) com intepretação analítica e histórica, a minisinopse do livro abaixo dá um clarão sobre esse tipo de mentalidade deletéria e medieval, que toma conta principalmente dos Estados Unidos, e de quebra é disseminado por websites de extrema-direita na internet além do alcance dos próprios Estados Unidos, como se fossem "verdades alternativas" ou falsamente "contestadoras do status quo".

Não chequei se há versão do livro em português, mas se houver citarei aqui. O autor é professor de História da Universidade de Utah, nos Estados Unidos.

Autor: Robert Alan Goldberg
Livro: "Enemies Within: The Culture of Conspiracy in Modern America"
(Inimigos internos: A Cultura da Conspiração nos Estados Unidos contemporâneo)
Editora: Yale University Press, 2001 edition
Páginas: 368

Sinopse do livro:
"Há uma ânsia por notícias conspiratórias nos EUA. Centenas de websites na Internet, magazines, publicações, até editoras inteiras que disseminam informação sobre inimigos invisíveis e suas atividades secretas, subversões, e armações. Aqueles que suspeitam de conspirações por trás de eventos nas notícias -- a colisão do voo 800 da TWA, a morte de Marilyn Monroe -- integra gerações de norte-americanos, do período colonial até o presente dia, que acalentam visões de vastos complôs. Neste cativante livro Robert Goldberg, ele se centra sobre as cinco maiores teorias de conspiração da metade do século passado, examinando como elas se tornaram populares nos EUA e porque elas são lembradas assim. Nas décadas seguintes, no pós-Segunda Guerra, as teorias de conspiração tornaram-se mais numerosas, mais comumente "acreditáveis", e mais profundamente incrustradas em nossa cultura, Goldberg afirma. Ele investiga as teorias de conspiração a respeito do incidente do UFO Roswell, a ameaça comunista, a ascensão do Anticristo, o assassinato do Presidente J. Kennedy, e o complô judaico contra a américa negra, em cada caso pega a situação histórica, social e política dentro do contexto. Teorias de conspiração não são meramente produtos de um bando de lunáticos, o autor demonstra. Ao contrário, a retórica paranoica e este tipo de pensamento estão de uma forma perturbadora no centro dos EUA atual. Com a validação da mídia e a disseminação de ideias de conspiração, e o comportamento do governo federal que prejudica a confiança pública e fé, o chão é fértil para o pensamento conspiratório."
Fica dado o aviso(já que é um tema que fere e muito a crença dos revimanés) que não há espaço pra pregação antissemita/racista na parte de comentários, aqui não é "casa da mãe Joana" ou "reduto pra lamúria "revisionista"", os avisos anteriores sobre corte de comentários racistas e imbecis continua válido e serão seguidos à risca, pra evitar que venham mentir com "choro" dizendo que estão "censurando" ou se está cortando espaço pra esse tipo de estupidez racista(antissemita), cretinice antissemita não é bem-vinda, quem simpatiza em cultuar ignorância e antissemitismo é só se dirigir diretamente as pocilgas antissemitas "revisionistas" pra extravasar esse tipo de ódio. Tolerâcia zero com baderna.

Ex-nazista é condenado à prisão perpétua por crimes de guerra

Nesta terça-feira, Josef Scheungraber, ex-comandante de infantaria do exército nazista de Hitler, agora com 90 anos, foi sentenciado a prisão perpétua. A pena é referente a participação de Scheungraber no assassinato de dez civis em um vilarejo em Toscana, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar do ex-militar negar as acusações, e alegar ter passado a guarda dos tais civis para outros militares alemãs, e não saber o que se deu com eles depois, um tribunal em Munique, condenou o idoso. O julgamento durou cerca de onze meses e aconteceu em um tribunal especial de guerras.

O crime aconteceu em 26 de junho de 1944, quando Scheungraber tinha 25 anos. Apenas uma testemunha prestou depoimento. Gino Massetti, que tinha apenas 15 anos na época, contou que soldados nazistas fuzilaram uma senhora de 74 anos e mais três homens. Ele aformou que mais onze pessoas foram presas.

O condenado, que vive há muitos anos em Ottobrunn, Munique, era tenente comandante de uma tropa de engenheiros de infantaria e chegou a receber homenagens de autoridades locais por seus feitos na segunda Guerra.

Fonte: Redação SRZD
http://www.sidneyrezende.com/noticia/50740+ex+nazista+e+condenado+a+prisao+perpetua+por+crimes+de+guerra

sábado, 8 de agosto de 2009

Richard Wagner e as fontes do nazismo

Reflexões sobre o antissemitismo do compositor alemão

Enquanto se escute música de Wagner, eu estarei presente
(palavras que Hans Jürgen Syberberg pôs na boca de Hitler, num filme alemão).

Richard Wagner

Tanto ou mais que por suas óperas, Richard Wagner aspirava ser julgado “pelo bem que elas fizeram à humanidade”, e segundo três coordenadas: como músico, literato e ideólogo. Em verdade, foi um músico genial; como escritor e dramaturgo, medíocre; como ideólogo, sinistro. Embora os judeus tivessem na Europa do século XIX numerosos inimigos, as razões não eram biológicas, senão de ordem religiosa, política, econômica.

A redenção por via da conversão foi possível ainda que feita pelos piores inquisidores. É Wagner quem introduz e extende a pretensão de que o judeu é intrinsecamente irremedível. Depois de uma juventude tempestuosa, onde participou de episódios que antecipam os métodos nazis – incendiar alguma casa “de má fama”, espancar entre muitos, a algum divergente –, e sofrer por certo tempo as hipotecas do álcool e do jogo, Wagner observou – meramente observou –, a revolução em Dresden(1849), espectáculo que lhe valeu o exílio. Sua confusa ideologia, a partir de então, vai tomando uma direção concreta, onde prevalecem o satânico orgulho e a tensão discriminatória. Desdenhava o latino: Paris lhe parecia fariséia, aborrecível, e odiava o italiano ao extremo a ponto de detestar 'Don Giovanni' de Mozart, ópera das óperas, por seu libreto em tal idioma. Em todos seus escritos não se achará referência alguma a Verdi – esteticamente seu par, mas cívica e moralmente seu antípoda.

Entre 3 e 6 de setembro de 1850, Wagner publicou, sob o pseudônimo de F. Freigedank, no Diário musical de Leipzig, que editava Franz Brendel, seu opúsculo “O judaísmo na música”. Ali negava ao judeu, fatalmente e definitivamente, toda possibilidade de criação artística, toda inventiva própria, toda espiritualidade. Vejamos: lhe “surpreende primeiro, seu aspecto exterior”, sempre “desagradável”. O judeu para Wagner, carece da “faculdade de expressar-se... (com) originalidade e personalidade... Com mais razão, uma manifestação semelhante seria impossível pelo canto”. Ou seja, nem pela palavra nem pelo canto e tampouco pela composição, pois “jamais possuiu uma arte própria”, e nunca conseguirá produzir música autêntica. O que o faz, sempre de “um caráter frio e indiferente, chegará até o ridículo e trivial”. Mendelsohn, por ex., como judeu rico, pode aprender mecanicamente as técnicas, mas no verdadeiramente profundo, no que toca as últimas fibras, só “se engana a si mesmo e a seu público de tediosos”. Assim mesmo, Heine “mentiu a si mesmo ao crer-se poeta”.

Como conclusão, Wagner advertirá piedosamente, aos judeus, “que existe um só meio de conjurar a maldição que pesa sobre eles: a redenção de Ahasverus: o Extermínio”. E não creia que são delírios juvenis. A instância de Cosima, o músico –sessentão – reeditaria seu panfelto a vinte anos depois. O editor Brendel, que havia sofrido moléstias a raíz daquela primeira publicação, foi desdenhado por Wagner, que –sempre ingrato–, até 1862, na Zewandhaus de Leipzig, fingiu não reconhecê-lo, o que “me divertiu [...] Minha conduta afetou muito ao que parece, ao pobre diabo” [...] Porque Wagner era sistematicamente mal-agradecido com seus benfeitores, inclusive Meyerbeer e Mendelsohn.

A seus amigos lhes arrebatava desde muito jovem, quase como um ritual, noivas e consortes. De suas amizades, muito poucas perduraram, mas sustentou e privilegiou a de seu real discípulo, o Conde Gobineau, cujo “desigualitarismo” ele contribuiu decisivamente a parir. Enquanto ao herdeiro intelectual de Gobineau, Houston Chamberlain, converteria-se em genro do músico. O sectarismo e racismo wagnerianos dão testemunhos, além de sua correspondência, suas memórias (Minha vida), e outros numerosos escritos. Mas, mais grave ainda, grande parte de seus dramas musicais. Por exemplo: uma raça inferior, feia e atroz, usurpa o ouro do mundo. Wotan deverá criar a outra raça, superior, de heróis loiros, atléticos, “dolicocéfalos”, que não conhecem o medo, manipularão a espada e enfrentarão aos outros. Haverá um holocausto final. E não se diga que o Parsifal é um regresso ao cristianismo. Ali há um mau cavaleiro, que como não consegue ser casto, se “disfarça” castrando-se. Mas nem ainda assim se redime porque é inerentemente perverso e – com justiça –, o rechaçam. Então, rancoroso e castrado(circunciso?)se converterá num inimigo demoníaco. E há mais exemplos ...

Se afirma em defensa de Wagner, que, morto meio século antes, não podia evitar que sua música ilustraria a saga do nazismo. Mas ocorre que o nazismo não só se apropriou de sua arte, como também de suas idéias. E em última instância, el numen criador daqueles horrores, chamou-se Richard Wagner. Tal como ele reclamava, julguemo-lo pelo que fez a Humanidade.

Dr. Horacio Sanguinetti
Reitor do Colégio Nacional de Buenos Aires

Fonte: Fundación Memoria del Holocausto (Argentina)
http://www.fmh.org.ar/revista/20/wagner.htm
Tradução: Roberto Lucena

Ainda sobre Richard Wagner, arquivo em .doc(word):
Ópera, cultura e nação: Richard Wagner na formação do orgulho nacional alemão

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Os "Mischlinge"

Discussão sobre a definição dos Mischlinge - 02/11/1935

A discussão abaixo, de 02/11/1935 sobre o status dos "mestiços" (Mischlinge), ocorreu devido à diferença entre a opiniões do Ministério do Interior do Reich, e do Dr. Wagner, Chefe Médico Oficial do Partido Nazista.

O Dr. Lösener, Perito do em Assuntos Judaicos do ministério, descreveu a discussão no memorando abaixo, e suas propostas foram incorporadas à primeira regulamentação da Lei de Cidadania do Reich, de 14/11/35. É interessante o modo como a burocracia do III Reich debatia sobre o status dos "Mischlinge". Vários aspectos (sociais, econômicos, "raciais", militares, diplomáticos) foram levados em consideração.

Discussão sobre a definição dos Mischlinge [Mestiços]

Memorando dos peritos do Ministério do Interior.

Fonte: Henry Friedlander & Sybil Milton, Archives of the Holocaust, Vol. 20 (New-York 1993) pp. 73-82.

Ministério do Interior do Reich e Prússia

2 de Novembro de 1935

Re: os regulamentos para a Lei da Cidadania do Reich e a Lei para Proteção do Sangue Alemão

1.

Comparação dos pareceres do Dr. Wagner e do Ministério do Interior. O propósito do regulamento é a eliminação da raça mestiça pela criação das exigências mais severas possíveis para a proteção da pureza do sangue alemão, contanto que os interesses políticos do Reich e o povo possam suportar. Ambas as versões estão concordam que os um-quarto-judeus devem ser considerados como pertencentes ao lado alemão. Eles diferem, entretanto, no tratamento dos meios-judeus. Na visão do Dr. Wagner, os meios-judeus deverão pertencer ao lado judeu, enaquanto a versão do Ministério do Interior sugere uma definição de acordo com o estilo de vida. Assim, por exemplo, aqueles que pertençam à religião judaica ou são casados com judeus seriam incluídos entre os judeus, enquanto a maior parte dos meios-judeus seriam tratados como eles realmente são:Eles deveriam em alguns aspectos serem contados como alemães, e em muitos outros aspectos da vida - como diferentes. A versão do Dr. Wagner é baseada principalmente em considerações raciais-biológicas. Ela tem portanto a vantagem de contar como judeus uma proporção maior de meios-judeus que a versão do Ministério do Interior. Entretanto, como a perspectiva do Dr. Wagner não considera muitos outros aspectos, ela leva a certas desvantagens e perigos para o povo alemão, que são prevenidas pela abordagem do Ministério do Interior. Estas desvantagens deveriam ter mais peso que a consideração racial-biológica da versão do Dr. Wagner.

1. Riscos político-raciais. Um meio-judeu será considerado como um como um perigo maior que o judeu puro, porque além dos traços judaicos, ele também tem muitos traços alemães. Esse não é o caso do judeu puro. Os judeus do Reich (cerca de 600.000) ganhariam um reforço de 130.000 pessoas (200.000 são casados com alemães), isto é, mais de um quinto dos números presentes. Isto não só lhes acrescentaria em números, mas também em massa genética alemã...

2. Manter uma legislação de mestiços que conta meios-judeus como judeus afeta somente seu status legal e não muda a situação sociológica ou aquela que é definida pelo sangue. Estes últimos objetivos são de fato os objetivos reais da legislação. Os judeus rejeitarão os meios-judeus em muitos casos, ou o meio-judeu rejeitará sua inclusão nos judeus. Esta definição não pode ser imposta a eles. Isto cria uma situação especialmente perigosa, porque os meios-judeus não estão realmente incluídos no povo judeu, mas estão emperrados entre as duas raças. Os meios-judeus que não tem pátria tornam-se facínoras com todos os perigos que esta identidade implica. Sua inteligência e suas capacidades especialmente desenvolvidas, resultantes principalmente da criação cuidadosa, os transforma inerentemente em inimigos primeiros do estado. Na versão do Dr. Wagner, os alemães de nascimento que são casados com judeus e um-quarto-judeus seriam somados a esse grupo.

3. Mantendo a fonte de agitação. Os meios-judeus definidos como judeus não se deparam com praticamente nenhuma opção. Ao contrário dos judeus, eles dificilmente podem emigrar, porque os países estrangeiros os consideram como alemães e não como judeus. Eles dificilmente podem adquirir uma profissão na Alemanha, porque somente as profissões judaicas estão abertas a eles, e no treinamento vocacional eles seriam superados pelos judeus puros.

4. Considerações políticas e de defesa. Dos 200.000 meios-judeus, cerca de 100.000 são homens. 40-45.000 deles estão presentemente em idade de alistamento militar. Daqueles que sobram, aproximadamente 30.000 jovens em algum momento alcançarão aquela idade. Embora a versão do Dr. Wagner inclua meios-judeus que se casem com alemães no grupo a ser alistado, eles logo serão dispensados pelo exército por causa da sua idade avançada. Sua idade não lhes permite serem alistados para serviço ativo em nenhum caso. Aqueles que são solteiros, isto é, um grande número de jovens, não serão levados pelo exército de acordo com a versão do Dr. Wagner, assim como todos os jovens que um dia alcançarão idade de alistamento. O mesmo aplica-se a alemães puros casados com judias e a um-quarto-judeus.

5. Considerações Econômicas. a) Quanto mais ampla a definição da entidade judaica, mais as limitações dos judeus na economia por tratamento especial torna-se difícil.... b) Enquanto meios-judeus até agora têm sido expelidos somente de cargos na estrutura da Lei de Serviço Civil etc., a versão de Wagner os expeliria de cargos também no processamento da economia. Até agora eles têm mantido seus cargos por causa da falta de reposições apropriadas. Isto acrescentaria uma carga adicional à economia. c) a versão de Wagner implicaria que os meios-judeus, alemães contados como judeus e um-quarto-judeus, estariam incapazes de empregar domésticas alemãs. Isto totalizaria outras dezenas de milhares de domésticas a serem empregadas.

6. Separando famílias. Com ajuda da legislação, a versão de Wagner separa irmãos, de acordo com seu status, como solteiros ou como casados com alemães. A versão do Ministério do Interior evita esta situação indesejável, porque os critérios para definir meios-judeus como judeus são uniformes e aplicam-se para a família inteira. Isto será verdadeiro sem exceção para o critério referente à religião judaica. Mas mesmo a questão mais incomum do casamento de meios-judeus com judeus será somente aplicada quando a família inteira inclinar-se ao judaísmo.

O Problema de Meios-Judeus Veteranos. Será impossível, mesmo com a versão de Wagner, evitar a decisão do Führer e Chanceler do Reich de excluir os meios-judeus veteranos do exército que lutaram no front.De outra forma, nós nos encontraríamos numa situação onde meios-judeus que lutaram pela Alemanha no front seriam tratados pior que os judeus puros estrangeiros que lutaram contra a Alemanha, mas que hoje estão vivendo na Alemanha e são protegidos por tratados internacionais. Isto sem dúvidas daria uma arma importante à propaganda anti-alemã.

Aumento em suicídios. A maioria dos casamentos mistos são entre homens alemães e mulheres judias. As crianças (meio-) judias desses casamentos, entretanto, sentem que pertencem completamente à nação alemã pela sua educação, tradição familiar e fé cristã, e rejeitam o judaísmo. A carga mental de ser declarado judeu seria particularmente difícil e significante. Esperar-se-ia um crescimento agudo de suicídios por esta razão. O impacto de tais desenvolvimentos em países do exterior não seria recebido sem seriedade. .... A versão do Ministério do Interior de forma nenhuma inclui os meio-judeus no povo alemão. Ela os coloca no grupo dos mestiços (Mischlinge), não no grupo dos alemães. Ela trata esses meio-judeus que não serão definidos como judeus, como alemães somente com relação ao casamento, de forma a cumpria o objetivo central, que é o desaparecimento da raça mestiça tão cedo quanto possível. É somente a versão do Ministério que está de acordo com fatos raciais-biológicos: judeus são tratados como judeus, sangue mestiço é tratado como sangue mestiço e aqueles de sangue alemão são tratados como pessoas de sangue alemão. Esta versão fornece uma definição do judeu que não tem brechas. Ela inclui somente os meio-judeus que sem dúvida inclinam-se ao judaísmo como judeus. A criação de uma definição clara dos judeus que não precisaria ser ajustada no futuro é uma necessidade, porque esta definição afetará muitas áreas da vida e do status legal, e muitas agências governamentais diferentes terão que trabalhar com ela.

Fontes:
H-doc site
(Link atualizado/resgatado: https://web.archive.org/web/20110925214540/http://h-doc.vilabol.uol.com.br/Mischlinge.htm)
Lista H-doc
(Link atualizado, só sobrou isso da lista do M. Oliveira: https://web.archive.org/web/20090809180901/http://br.dir.groups.yahoo.com/group/Holocausto-Doc/)
Do livro: Henry Friedlander & Sybil Milton, Archives of the Holocaust, Vol. 20 (New-York 1993) pp. 73-82.
Tradução: Marcelo Oliveira

Fotos de alguns Mischilinge no site do historiador e PhD Bryan Mark Rigg, autor do livro "Os soldados judeus de Hitler" que trata da história da questão dos alemães miscigenados (com "sangue judeu") dentro do regime racista nazista:
http://www.bryanrigg.com/jewish_soldiers_pics.htm
(Link atualizado/resgatado: https://web.archive.org/web/20090322174944/http://www.bryanrigg.com/jewish_soldiers_pics.htm)

sábado, 1 de agosto de 2009

Partido alemão pró-Hitler planeja 'centro de treinamento'

por Allan Hall em Berlim
Quinta, 30 de Julho de 2009

O partido de extrema-direita Partido Nacional Democrático (NPD) desencadeou um ultraje com os planos para um "centro de treinamento" ao estilo do Terceiro Reich em uma pequeno município.

O mentor do esquema é Jürgen Rieger, um advogado e líder substituto do partido anti-imigrante e anti-UE que está submerso em orgulho a Adolf Hitler e das "conquistas" do regime nazista. A ideia é de tornar o velho Hotel Gerhus em Fassberg, próximo à Hanover, um lugar de peregrinação para devotos do NPD, onde eles possam aprender a respeito da "ameaça" da imigração, da "criminalidade" dos ciganos Roma e da "decência inata da lei e honra dos nacionalistas alemães".

O Sr. Rieger, 61, também tentou abrir um "centro de criação" ao estilo do centro do filme "Boys From Brazil"("Os Meninos do Brasil", filme de ficção da década de 70 baseado no livro homônimo, sobre um centro nazista na América do Sul de clonagem do líder nazista, comandado por Mengele) em outras locações; o plano é servir a todos os brancos, racistas arianos como ele mesmo para produzir descendência às pessoas do Quarto Reich, que ele acredita que está porvir.

O hotel abandonado foi à bancarrota 24 horas antes do Sr. Rieger assinar um aluguel por 10 anos com os propietários da "dívida escondida". O receptor, Jens Wilhelm, tinha esperança de ter concedida uma ordem esta semana para forçar os neonazis a sair da propriedade, mas uma corte rejeitou sua ação. Isto significa que o Sr. Rieger e o NPD ficarão lá até outra audiência da corte pode ser convocada.

Sua recusa em desistir de seu plano causa escândalo em Fassberg. A extrema-esquerda e grupos antinazi já estão prometendo marchas que inevitavelmente levarão à violência próxima dos 80 quartos da propriedade.

Uma mostra disso ocorreu no fim de semana quando tiros foram disparados próximos ao hotel e jovens de esquerda e direita se confrontaram com sprays de pimenta e bastões. A polícia mobilizou patrulhas por 24 horas.

Sr. Rieger está também tentando abrir um museu em Wolfsburg dedicado à Nazi organização de lazer "Strength Through Joy"(Resistência Através da Alegria).

O NPD tem certa de 7.000 membros e legisladores ocupam lugares em parlamentos regionais, mas nenhum no Bundestag.

Fonte: The Independente(Reino Unido)
http://www.independent.co.uk/news/world/europe/germanys-prohitler-party-plans-training-centre-1764700.html
Tradução: Roberto Lucena

Sobre o neonazista Jürgen Rieger, ele aparece(numa das fotos do post do link a seguir) ao lado do "revisionista"(negador do Holocausto) e também neonazista, Ernest Zündel, em julgamento por racismo(negação do Holocausto) na Alemanha: Advogada de neonazi condenada por negar Holocausto

O NPD é o partido neonazista(ou, como eles se autorotulam, "nacional-socialistas") da Alemanha.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Uma guerra de extermínio

MEMÓRIA
Uma guerra de extermínio

A guerra civil espanhola foi um aperitivo do que iria ser a II Guerra Mundial: republicanos e franquistas sabiam que travavam uma guerra de vida ou de morte, da qual não sairiam sem a vitória total, sem esperança de negociação ou de paz

Santos Juliá (Historiador e ensaísta)

Em seu livro La Velada en Benicarló (O Velório em Benicarló), Manuel Azaña, o último presidente da República espanhola, conta um episódio terrível, recordação pessoal dos primeiros dias da guerra civil: “Certa noite, no final de agosto, estava eu à janela de meu quarto tomando ar fresco, quando ouvi três tiros que vinham do lado do cemitério. Depois, foi um silêncio total... Um pouco depois, de repente, um gemido, ao longe. Prestei atenção. Um novo gemido, mais forte, até se tornar um grito desesperado... Já quase morto, o moribundo gritava de horror... O grito vinha bem na minha direção. Procurei duas ou três pessoas do hospital e trouxe-as à janela. (“Vamos buscá-lo; talvez ainda o consigamos salvar!”) Eles se recusaram; e eu insistia; eles me impediram. Não vamos nos envolver com isso! No máximo, podemos avisar a prefeitura. Avisamos. Passou algum tempo. Pan, pan! Mais dois tiros no cemitério. Os gemidos pararam.”

Esse episódio – dois tiros de misericórdia num fuzilado agonizante – resume a ferocidade da guerra da Espanha: a impotência de alguns, a covardia de outros, a ausência de piedade dos restantes. Nesse sentido, a guerra civil foi um aperitivo, por sua brutalidade, do que iria ser a II Guerra Mundial. Republicanos e franquistas sabiam que travavam uma guerra de vida ou de morte, não podendo vencê-la sem o esmagamento total do adversário, sem esperança de negociação ou de paz. Nessas condições, a distinção entre soldados e civis, entre combatentes e não-combatentes, não passava de mera ilusão. Os espancamentos, a tortura, os estupros, os assassinatos, as execuções, os tiros de misericórdia, a política de terra arrasada e as chacinas de massa tornaram-se rotina: na Espanha, centenas de milhares de civis – num número bastante superior ao de soldados mortos na frente de combate – foram assassinados durante essa guerra.

Uma guerra implacável

Desde o início, em 1936, o conflito também ganhou contornos de uma guerra de liquidação: os ódios de classe, de religião e de nacionalidade (contra bascos, catalães e galegos) desempenharam um papel semelhante ao dos ódios raciais e das “limpezas” étnicas. Os discursos de guerra adotados pela rebelião militar e pela revolução social estigmatizavam o inimigo como um “invasor estrangeiro” (fascista ou bolchevique) que deveria ser massacrado, aniquilado. Jamais se colocou a questão – embora não tenham faltado alguns projetos, do lado republicano – de uma possível perspectiva de mediação ou de paz negociada. Quando a Grã-Bretanha, incentivada pelo presidente da República, tentou uma medição e pediu o apoio do Vaticano, um cardeal espanhol afirmou que ninguém compreendera a natureza daquela guerra, que se tratava de um conflito que só podia terminar com a vitória total de um dos antagonistas.

Os ódios de classe, de religião e de nacionalidade (contra bascos, catalães etc.) tiveram papel semelhante ao dos ódios raciais e das “limpezas” étnicas
E foi justamente o que aconteceu, com as conseqüências que conhecemos: os cadáveres à beira das estradas, as filas de fuzilados ao lado dos cemitérios e os executados jogados em valas comuns (leia, nesta edição, o artigo de José Maldavsky) superaram o número de mortos na frente de combate. Foi uma guerra implacável, na qual o inimigo não era apenas o soldado da trincheira oposta, mas também o civil que tivesse votado no adversário, ou atuado como delegado de um partido ou de um sindicato numa seção eleitoral, ou participado de uma greve, ou mesmo manifestado idéias contrárias àquelas do lado vencedor. Na Espanha, entre 1936 e 1939, na hora de decidir o destino do outro, pertencer ao lado oposto – no caso de ser civil – significava assinar sua sentença de morte.

Anistia e reconciliação

Durante o conflito – e durante a longa noite que, em seguida, se abateu sobre os vencidos – essa brutalidade feroz foi alimentada pelo mito de uma “Espanha verdadeira” (a dos militares e da Igreja católica) que lutava contra uma “anti-Espanha” (a dos “Vermelhos”). O mito de dois princípios eternos, enfrentando-se até a morte, jamais permitiu que fossem ouvidos os argumentos do lado oposto, mas, ao contrário, incentivou uma política de suspeitas, de perseguição e de assassinato. Foi uma repressão sem interrupções. Mais tarde, com o decorrer do tempo, a definição da guerra civil como “guerra contra o invasor” foi substituída, na memória coletiva, pela representação da guerra como uma “guerra fratricida”.

Essa nova memória, que serviu de base moral para a assinatura dos acordos, nas décadas de 60 e de 70, entre as forças políticas de oposição, os dirigentes políticos exilados e os vários grupos dissidentes do franquismo, implicava uma nova visão da história que privilegiasse os princípios do perdão e da reconciliação, ao invés dos da vingança, das represálias e do extermínio. A memória da guerra como guerra fratricida tornou possível uma política de anistia e reconciliação. E impôs um olhar de compaixão e de perdão para com o adversário.

Um ato de liberdade absoluta

Um cardeal espanhol afirmou que ninguém compreendera aquela guerra, que só podia terminar com a vitória total de um dos antagonistas

Apesar dos milhares de livros escritos sobre esse conflito pavoroso, na Espanha como no exterior, faltava ao discurso e à memória da guerra uma concretização literária. E é aí que entra Javier Cercas com seu formidável romance-reportagem Les Soldats de Salamine (leia, nesta edição, o artigo de Albert Bensoussan). Um episódio típico das guerras de extermínio, a execução maciça de prisioneiros sem julgamento, atinge o paroxismo num momento de piedade, fruto do acaso. Quando o soldado que vasculha a área dá de cara com o fugitivo, olha fixamente para ele e grita para seus companheiros: “Por aqui não há ninguém!”, salvando-lhe a vida. O que ele faz é recusar a fatalidade das políticas de extermínio, abrindo uma brecha para a piedade. Esse gesto abre a porta para a reconciliação, pois prova que, durante a guerra, houve momentos de perdão.

O ato desse soldado, membro anônimo de um pelotão de fuzilamento, se deve exclusivamente à sua vontade. Já o grito de agonia em La Velada en Benicarló reflete o que se estaria passando em Madri ou em Barcelona, assim como em Sevilha ou em Pamplona, durante o verão de 1936. É o que deveria ter ocorrido com o fugitivo surpreendido em seu esconderijo: Pan, pan!... e adeus, Rafael Sánchez Mazas.

Mas isso não aconteceu. Num ato de liberdade absoluta, ou talvez de cansaço diante de tantas mortes, dessa vez, o soldado não atirou, não alertou seus companheiros. Olhou-o nos olhos e fez meia-volta. E saiu de cena.

(Trad.: Jô Amado)

Fonte: Le Monde
http://diplo.uol.com.br/2003-01,a538

terça-feira, 28 de julho de 2009

Juan Eslava Galán publica 'Uma história da guerra civil que não vai agradar a ninguém'

Foi o novelista Arturo Pérez-Reverte quem deu o título ao último ensaio de Juan Eslava Galán: "Uma história da guerra civil que não vai agradar a ninguém" (Planeta). É que Eslava Galán (Arjona, Jaén, 1948) tentou ser tão imparcial que está seguro que não convencerá a nenhum dos dois grupos do seu relato dos fatos.

"O fanatismo ideológico dos nacionalistas e republicanos ainda hoje lhes impede de contar tudo o que nos envergonha de nosso próprio passado", afirma o escritor.

Suas últimas duas novelas - Señorita ("Senhorita", prêmio Fernando Lara) e "La mula"(A mula), que será levada ao cinema - também são ambientadas na contenda. "A Guerra Civil me ocupa muito porque é uma ferida que não curou, um cadáver mal enterrado, que ainda cheira. Enquanto em outros países europeus, depois da Segunda Guerra Mundial, conseguiram superá-la", argumenta o ganhador do Prêmio Planeta 1987 com "Em busca do unicórnio". "Superá-la não é questão de tempo, senão de pensamento, de vontade".

O autor de "España contada para escépticos"(Espanha contada para céticos) pensa que a bibliografia dos historiadores espanhois se decanta face a um dos lados e, em sua opinião, só se encontra imparcialidade em estrangeiros como os britânicos Paul Preston e Gabriel Jackson. "Os autores ignoram os que não pensam como eles. Chama-me a atenção que os de esquerda não mencionam Ricardo de la Cierva, que tem uma obra extensíssima", é de se surpreender. "A Espanha tem um espírito cainita(vingativo) e já temos cultura suficiente para superar a guerra. Uma pessoa não tem culpa do que fez seu avô, mas aqui, por serem católicos, temos o estigma do pecado original", reflexiona.

Diálogos

Eslava Galán, que conta com uma grande biblioteca sobre a contenda, serviu-se de "entrevistas, das confissões que muitos escreveram e de uma documentação muito ampla. "Este livro fui escrevendo pouco a pouco", continua... "Tomava muitas notas do que lia e um dia decidi sistematizá-las e redigir. Isso me levou um ano e tive que reduzir muito porque não queria fazer vários volumes".

Finalmente, "Uma história da guerra civil que não vai agradar a ninguém" tem 376 páginas. "Foi um esforço esgotador para que se possa ler com ligeireza mas sem que se note o trabalho que esteve por trás do autor", disse. "Utilizei, por exemplo, diálogos para fornecer informação e quando se tratou de pessoas conhecidas reproduzi suas próprias palavras". O ensaísta, já cansado da Guerra Civil depois de escrever três livros seguidos sobre o tema, prepara agora uma novela ambientada na Idade Média, período da história sobre o qual versou sua tese de doutorado.

Fonte: El País(Espanha)
Elisa Silió - Madri - 13/04/2005
http://www.elpais.com/articulo/cultura/Juan/Eslava/Galan/publica/historia/guerra/civil/va/gustar/nadie/elpepicul/20050413elpepicul_3/Tes
Tradução: Roberto Lucena

Uma história da guerra civil que não agradará ninguém

UMA HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL QUE NÃO VAI AGRADAR A NINGUÉM
Juan Eslava Galán
Publicado por richar

Talvez tenha sido o título do livro o que me impulsionou a comprá-lo, “Uma história que não vai agradar a ninguém” sempre soa bem, não? Enfim, o caso é que o comprei e li... e gostei, por mais que o autor tente nos dissuadir com este título.

Ei de reconhecer que foi meu primeiro contato literário com a Guerra Civil Espanhola (baixo a cabeça e me autoimponho o castigo por ser um inculto de nossa História, plas, plas), e a verdade, ficou muito bom. E não porque a guerra fora algo bom, evidentemente, e sim porque o livro é muito suportável e ameno de se ler.

Ao contrário de outros livros que narram grandes guerras que li ultimamente, este narra o conflito do princípio ao fim, baseando-se quase que exclusivamente em anedotas. Existem as de todo tipo, divertidas, curiosas e as que te dão vontade de chorar, mas suponho que uma guerra de semelhante magnitude, deva estar cheia deste tipo de sucessos peculiares.

Este enfoque lhe dá maior fluidez e diversidade à narração, mais além de relatar os fatos da maneira mais precisa possível, que em grande número de ocasiões pode se tornar algo tedioso e bastante denso. Desta maneira pôde-se dar forma a conceitos até agora vagos para mim como a ofensiva do Ebro, a batalha de Belchite ou Brunete, assim como dar rosto a nomes que até o dia de ontem me soavam apenas pelas ruas de Madri: general Mola, Millán Astray, Indalecio Prieto e tantos outros.

Por último, dizer que de todas as anédotas a que me marcou foi a do confronto dialético entre Miguel de Unamuno e Millán Astray, fundador da legião, na Universidade de Salamanca: depois de uma forte troca de opiniões e de que Astray, homem de poucas luzes(cultura) dialéticas, ficara sem recursos, pronunciou uma célebre e ao mesmo tempo desastrosa sentença: “abaixo a inteligência, viva a morte!”. Enfim, que mais se pode acrescentar...

Fonte: Hislibris
http://www.hislibris.com/?p=56
Tradução: Roberto Lucena

sábado, 25 de julho de 2009

Para entender: Ciência vs. Pseudociências - parte 4

Parte 3: Para entender: Ciência vs. Pseudociências

4. O ceticismo científico

No último parágrafo do tópico anterior abordamos o segundo paradoxo do mundo das pseudociências: nem sequer os cientistas (em geral) vêem interesse nesses temas, nem os consideram adequados para estabelecer uma crítica. É compreensível: o fato é que um psicólogo especialista pode ficar completamente desconhecedor do que se “vende” atualmente no mundo da parapsicologia, ou um astrônomo ignorar por completo as afirmações dos astrólogos. Simplesmente, a própria especialização do mundo da pesquisa científica provoca um completo desinteresse por temas tão menores, de escasso conteúdo científico.

No entanto, é uma abordagem errônea, porquanto trata-se de assuntos que têm capacidade de chegar facilmente ao cidadão, de maneira que a ausência (por vontade própria) dos cientistas nestas arenas deixa os proponentes, os mais descabelados e os mais comedidos, com todo o cenário só para eles.

Este é o grande problema, e o grande desafio que as pseudociências colocam: afinal, são populares, e continuarão sendo se não houver uma crítica racional a elas. Esta ausência permite ademais uma certa impunidade por parte dos proponentes das pseudociências, que ficam como únicos interlocutores no panorama. Lembro-me a esse respeito de um programa de televisão, anos atrás, que apresentava um caso de poltergeist: uma casa onde as coisas se moviam sozinhas – supostamente – e em cujas paredes tinham aparecido manchas de sangue. Um dos “especialistas” que estava nesse programa propunha como explicação que um espírito de uma pessoa morta provocava a fenomenologia. Outra pessoa, que se auto-intitulava “cientista”, dizia que não era necessário: era energia da mente de um dos moradores da casa, que se transformava em matéria, neste caso, em manchas de sangue. Este pesquisador insólito aduzia como prova de suas afirmações que, como todo mundo sabe, através da equação de Einstein, a matéria e a energia podem transformar-se, e que neste caso isso é o que havia acontecido. Obviamente, fazia falta alguém que explicasse que se a primeira hipótese não era científica (por não ser falsificável), a segunda era diretamente anticientífica, isto é, uma pura estupidez. Receio, entretanto, que se os produtores do programa tivessem convidado um cientista, este não teria podido senão balbuciar alguma explicação: é difícil que tivesse um conhecimento da realidade do fenômeno dos poltergeists...

É aí que entram em cena os céticos. Esta palavra tem uma conotação negativa, proveniente da própria origem filosófica da doutrina da suspensão de juízo. Por isso, vamos tentar esclarecer o termo. Em geral podemos diferenciar vários tipos de ceticismo:

Um ceticismo niilista, extremo, afirma que é impossível alcançar qualquer conhecimento de maneira veraz. Levado ao extremo, tudo é válido porque nada é certo. É a dúvida absoluta e o passivismo completo. Este tipo de céticos admitiriam o mesmo corra que pare, pelo que é óbvio que não nos referimos a eles.

Um ceticismo menos extremo, como o do próprio Hume, no qual se formula a impossibilidade da certeza, mas que estabelece mecanismos de acordo para aceitar as coisas. Uma espécie de consenso para funcionar num mundo onde não existe uma confiabilidade completa.

Um ceticismo científico, nascido já neste século, impulsionado no início por filósofos pragmáticos, segundo o qual uma das bases do método científico é uma dúvida cética, que se supera quando se fornecem provas suficientes que justifiquem a tomada de decisão. Frente ao primeiro tipo de ceticismo, este permite chegar a conclusões e evitar a abstenção de juízo. Frente ao segundo, este ceticismo não chega a um consenso por maioria, mas sim por acumulação de provas, que se devem realizar conforme os postulados do próprio método científico.

Tenhamos em conta que definitivamente, no próprio processo da investigação científica, este tipo de ceticismo é básico. Um dos princípios do método é a conhecida navalha de Occam, que advoga por uma simplicidade nas causas, por não andar buscando mais além do que o que temos na mão, se não for estritamente necessário. Este princípio é um dos fundamentais do ceticismo também, como o é a afirmação antes mencionada de Hume sobre as afirmações e o peso da prova.

O ceticismo moderno difere, entretanto, da corrente principal da ciência, quando opina que é interessante analisar científica e racionalmente as afirmações que se fazem sobre o paranormal. Esta vocação de não deixar de examinar nada rompe com o atual costume da especialização, mas ao mesmo tempo entronca diretamente com o trabalho daqueles que se dedicam à comunicação social da ciência. Isso é assim porque se reconhece o poderoso atrativo do oculto para a gente da rua, e o perigo da sua aceitação acrítica. E toma posição a respeito, estabelecendo como necessidade ou conveniência que a ciência dê a conhecer o que realmente sabe sobre esses temas, e que não fique calada ante as afirmações irracionais.

Não é uma postura negativista, como se costuma afirmar dos céticos, mas uma tarefa elementar do cidadão, que reconhece que em nossa sociedade o rótulo de “cientista” tem um valor muito importante, e portanto não é conveniente que qualquer um possa usá-lo sem mais aquela. Os céticos não são “contra” os ovnis, os astrólogos ou os homeopatas. Simplesmente, advertem publicamente que as afirmações deste tipo estão mal fundamentadas, não têm comprovações adequadas e que além disso há suspeitas suficientes de que estejam funcionando mecanismos “normais” que podem explicá-los (a navalha de Occam antes mencionada).

Além disso, o ceticismo aposta na divulgação e comunicação social da ciência, porquanto sabe que conforme a sociedade compreenda melhor o papel (o valor e o método) da ciência, e desenvolva uma capacidade de crítica ante as afirmações de todo o tipo, as irracionalidades terão mais dificuldades para expandir-se.

De umas décadas para cá, pessoas interessadas em divulgar estas posturas (cientistas, filósofos, comunicadores ou jornalistas, e mais gente) foram-se estabelecendo como pequenos grupos céticos, tentando facilitar a informação científica sobre estes temas, e tentando promover um pensamento crítico na sociedade {2}. É um trabalho árduo, que não poderia ser levado a cabo sem a colaboração dos interlocutores mais dispostos, precisamente os que estão estabelecendo os vínculos entre a ciência e a sociedade: cientistas e educadores, comunicadores, divulgadores e jornalistas...

Como comentávamos anteriormente ao analisar a situação dos meios de comunicação com respeito às pseudociências, é claro que os jornalistas científicos não “caem” tão facilmente nas afirmações destas falsas ciências, porque normalmente dispõem de um critério científico para discernir entre afirmações fundadas e saltos no ar. Embora nem sempre: o jornalista científico (de fato, qualquer jornalista) possui as ferramentas básicas para exercer uma crítica ante qualquer tipo de informação que recebe. Talvez deveríamos intervir para que estes critérios da profissão de comunicador sejam levados às suas verdadeiras conseqüências, inclusive com temas que parecem menores como os horóscopos ou os discos voadores.

Como final deste artigo, quero mencionar que nos últimos anos em nosso país (mas não só aqui), esta reivindicação por parte dos setores implicados na comunicação social da ciência está ocorrendo cada vez com mais força. Algo que é interessante. Por exemplo, a Asociación Española de Periodismo Científico, com o impulso de seu fundador Manuel Calvo Hernando, está incluindo o tema das pseudociências entre suas principais atuações.

Notas:

{1} Normalmente em parapsicologia se discriminam diferentes faculdades: percepção extrasensorial, que inclui a telepatia (leitura de outra mente), a clarividência (“ver” à distancia, isto é, sem usar os sentidos) ou a precognição (antecipação de acontecimentos futuros); e psicocinese, ou faculdade de executar ações físicas sem fazer nada “físico”, apenas “mental”. O fato de que se achem tão caracterizadas não impede duvidar da sua existência, especialmente à falta de experimentação suficiente e suficientemente repetida por investigadores independentes.

{2} Na Espanha existe a ARP-Sociedad para el Avance del Pensamiento Crítico, Apdo 310, 08860 Castelldefels, que edita a revista El Escéptico. E-mail: arp_sapc@yahoo.com.

Referências:

[1] Ramonet, Ignacio. “Un mundo sin rumbo: crisis de fin de siglo”. Concretamente o capítulo intitulado “Ascenso de lo irracional”, reproduzido na revista El Escéptico, nº2 Outono 1998, pp 43-50.

[2] Sokal, Alan; Bricmont, Jean: “Impostures Intellectueles”, 1997, Ed. Odile Jacob; versão norteamericana intitulada “Fashionable Nonsense: postmodern intellectuals”, 1998, Ed. Picador.

[3] Grey, William, “Ciencia y Psi-encia: la ciencia y lo paranormal (I)”, La Alternativa Racional, primavera 1994, nº32, pp. 23-27; “La búsqueda de la verdad: la filosofía y lo paranormal (II)”, LAR, verão 1994, nº33, pp. 11-17; “El proceso de explicación (III)”, LAR, especial X Aniversario, nº34-35, pp. 41-46; y “Escepticismo y conocimiento (y IV)”, LAR, primavera 1995, nº36, pp. 25-31.

[4] Kurtz, Paul, “Is parapsychology a science?”, 1978/1981, The Skeptical Inquirer, Vol 3. nº.2, pp. 14-23; reimpresso em Paranormal Borderlands of Science, ed. Kendrik Frazier, Prometheus Books, pp-5-23.

[5] Angulo, Luis, “Evidencias sobre videntes”, LAR, nº 11.

[6] MacDougall, Curtis, “Superstition and the Press”, 1983, Prometheus Books.

[7] Menéndez, Oscar. Comunicação realizada no curso “La América Irracional”, organizado pelo Instituto de América em Santa Fé (Granada), 13-14 nov 1998. (publicação pendente)

[8] Almodovar, Miguel Ángel. Comunicação sobre meios de comunicação no II Congreso Nacional sobre Pseudociencias. Alternativa Racional a las Pseudociencias, novembro 1994.

Autor: Javier Armentia
Fonte: Paranormal e Pseudociência em exame
Original: Euskonews & Media #30
Fonte: ateus.net

Para baixar ou ler no site, texto inteiro em PDF: Ciência vs. Pseudociências; Autor: Javier Armentia

Javier Armentia, Diretor do Planetário de Pamplona(Espanha) e
membro da ARP-Sociedad para el Avance del Pensamiento Crítico

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